Mera Coincidência

20/09/2005 | Categoria: Críticas

Sátira política conta com atores inspirados e diálogos ácidos deliciosos de David Mamet

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

O ditado é famoso. O dito popular pergunta por que o cachorro abana o rabo. A resposta: porque ele é mais esperto. Se o rabo fosse mais esperto, abanaria o cachorro. Essa definição bizarra é o mote que justifica o título original da excelente sátira política “Mera Coincidência” (Wag the Dog, EUA, 1997), uma maravilhosa e indiscreta comédia adulta que versa de maneira indireta sobre o fantástico poder da mídia, especialmente da televisão, nos dias de hoje.

“Mera Coincidência” é o outro lado da moeda de filmes como “Todos os Homens do Presidente”. O clássico suspense de Alan J. Pakula focaliza uma investigação efetuada por dois repórteres derrubando o presidente dos Estados Unidos, e mostra como a mídia pode ser útil à sociedade quando permanece vigilante e cética. O mordaz retrato da imprensa que emana do filme de Barry Levinson, por outro lado, expõe quão danosa pode ser a atuação de uma imprensa preguiçosa, indolente e excessivamente crédula.

O mais interessante de tudo é que o filme veio ao mundo durante um período de assombrosa coincidência. Produzido em 1997, ele chegou aos cinemas quase ao mesmo tempo em que o presidente Bill Clinton se envolvia em um caso muito parecido com o evento mostrado na tela. Em “Mera Coincidência”, o presidente dos EUA é flagrado em ato impróprio, dentro da Casa Branca, com uma estudante menor de idade que visitava a instituição. Para encobrir o escândalo, o conselheiro especializado em contra-ações de marketing (Robert De Niro) contrata um produtor cinematográfico (Dustin Hoffman) para fabricar imagens de uma guerra de mentira, a fim de desviar a atenção da opinião pública.

A idéia do enredo veio de um livro de Larry Beinhart, chamado “American Hero”. Para esculpir o roteiro, contudo, Levinson convocou o roteirista David Mamet, que não é apenas um dos mais inteligentes escritores de Hollywood, mas também possui o senso de humor ácido ideal para a tarefa. Com a ajuda de Hilary Henkin, Mamet criou um dos textos mais saborosos da década de 1990. “Mera Coincidência” é uma sucessão quase ininterrupta de diálogos brilhantes. Embora sátiras políticas estejam fora de moda, o longa-metragem revitaliza o gênero e dá uma pancada na democracia norte-americana como não se via desde, talvez, “Dr. Fantástico”.

O filme desce a lenha, por exemplo, na política externa norte-americana, quando o produtor Stanley Motts (Hoffman) escolhe a Albânia como país-alvo da guerra fictícia. Por que a Albânia? Porque é um país pequeno demais para que seus protestos enérgicos sejam levados em conta. Assim, o marketing conduzido por Conrad Brean (De Niro) engole todo o espaço dedicado ao tema pela mídia. E o marketing é fenomenal: inclui cenas angustiantes de uma adolescente fugindo de um bombardeio terrorista (o saco de batatas fritas que a atriz segurava no estúdio, no momento da gravação da cena, é substituído eletronicamente por um gato), entrevistas coletivas hilariantes conduzidas através de ponto eletrônico e até mesmo uma canção-hino no estilo da infame “We Are The World”.

Para completar o cenário mordaz, dois atores legendários conduzem a ação, encarnando os melhores personagens vividos por cada um em uma década. Dustin Hoffman chama mais a atenção, pela composição alucinada do maníaco Motts, homem egocêntrico de óculos grossos, inspirado no produtor Robert Evans (de “O Poderoso Chefão”), com senso de realidade prejudicado pela vida na frente dos holofotes. Preste atenção no modo como Hoffman esvazia o olhar de Motts, fazendo o personagem mergulhar em devaneios quando qualquer pessoa que não seja ele próprio está falando.

Robert De Niro, por sua vez, interpreta um homem que vive nas sombras, acostumado a agir no anonimato. Ele o faz com alerta low profile ligado no máximo volume, usando roupas discretas e desleixadas e uma barba de aparência mal-cuidada quase o fazem passar despercebido. A química entre os dois veteranos é perfeita e as atuações, junto com os diálogos deliciosos, garantem uma comédia de qualidade muito acima da média.

Como se não bastasse, o cenário desenhado por Motts e Brean com a ajuda inconsciente da mídia é particularmente profético. Os dois imaginam um ataque nuclear aos Estados Unidos com uma bomba atômica portátil (um artefato que não existe, mas certamente não impossível de se obter) e filosofam, durante a ação, que a guerra do futuro não será mais travada entre nações ou governos, mas entre pequenos grupos dissidentes com acesso a armamentos de alta tecnologia. Se alguém aí pensou em Al Qaeda, pensou certo. “Mera Coincidência” é cinema maiúsculo que, talvez por causa do teor ácido com que olha os EUA, jamais alcançou o sucesso merecido.

O DVD da Warner é muito simples, contendo apenas o filme, com enquadramento original (widescreen 1.85:1, anamórfico) e som de boa qualidade (Dolby Digital 5.1). A edição da Região 1 (EUA) tem comentário em áudio que junta Barry Levinson e Dustin Hoffman. Já na Região 2 (Europa), o disco foi lançamento com um curto documentário. No Brasil, não temos nada disso.

– Mera Coincidência (Wag the Dog, EUA, 1997)
Direção: Barry Levinson
Elenco: Robert De Niro, Dustin Hoffman, Anne Heche, Dennis Leary
Duração: 97 minutos

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