Mercador das Quatro Estações, O

10/10/2007 | Categoria: Críticas

Filme de 1971 é considerado o marco divisor de águas da carreira de Rainer Werner Fassbinder

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Amigos de Rainer Werner Fassbinder afirmam que o acontecimento mais importante da carreira do diretor alemão foi uma mostra de filmes antigos realizada em Munique, em 1971. Na ocasião, Fassbinder já era um cineasta reconhecido, mas ainda procurava um foco autoral. A retrospectiva em questão apresentou seis filmes do dinamarquês Douglas Sirk, com a presença do próprio. Fassbinder ficou de queixo caído. Fez amizade com Sirk e adaptou o estilo dele, vistoso e ao mesmo tempo contestador, ao próprio trabalho. Não é à toa que o primeiro filme dele feito após a experiência, “O Mercador das Quatro Estações” (Händler der vier Jahreszeiten, Alemanha, 1972), seja considerado o marco divisor da carreira do alemão.

Em tese, o modo extremamente visual de filmar de Sirk deveria ter representado um problema para Fassbinder. Conhecido por ser um cineasta prolífico (fez 43 filmes e morreu aos 37 anos, criando um novo longa-metragem a cada 100 dias, em média), ele filmava a toque de caixa, sem grandes preocupações estéticas. Bem ao contrário do cinema meticuloso de Sirk. Na prática, o diretor alemão conseguiu criar um estilo próprio, adotando uma paleta de cores básicas e fortes (à base de fortes contrastes, como verde/vermelho e azul/amarelo) para acentuar o caráter emocional das histórias que gostava de contar. A idéia era explorar as emoções humanas e usar a moldura do melodrama para criticar a estrutura social burguesa, que ele considerava viciada.

“O Mercador das Quatro Estações” faz isso com muita propriedade, ao narrar a história de um homem humilde que, preso pelas circunstâncias em uma vida da qual não gosta, vai paulatinamente perdendo a vontade de viver. Hans (Hans Hirschmüller) é quitandeiro. Caminha pelas ruas de Munique vendendo frutas e verduras acompanhado da esposa (Irm Hermann), com quem mantém uma relação fria. Ele ama outra mulher (Ingrid Caven), mas obviamente não pode concretizar esse amor – é vigiado de perto pela esposa, que no entanto se prostitui quando está longe dele. A relação de Hans com a filha pequena também é péssima. Sob pressão, ele sofre um ataque cardíaco e, por causa da saúde frágil, fica proibido também de beber, único hábito que lhe dá prazer.

Filmado com um orçamento minúsculo, retirado da poupança do próprio diretor, o filme tem falhas óbvias na edição, que desafina em muitas cenas. A direção de atores também é um tanto hesitante, com tomadas que soam claramente artificiais. Ainda assim, o uso de cores é muito bonito – puro Sirk – e o olho de Fassbinder para enquadramentos se manifesta aqui e acolá, como na bela tomada em plongée (câmera de cima para baixo) que mostra o ato sexual do casal, num raro instante de carinho. Mas a grande virtude do filme está no excelente roteiro, que dá um tratamento cálido e muito humano ao drama solitário de Hans. Ele entra num estado quase catatônico no terceiro ato, quando a história toma um rumo trágico. A cena final, por sinal, é espetacular – uma crítica sutil e certeira à acomodação, reafirmando amargamente que somente os que se adaptam à prisão social conseguem sobreviver.

O filme de Fassbinder jamais foi lançado no mercado de home video brasileiro, nem em VHS e nem em DVD. Nos EUA e na Alemanha, a edição é dupla, com boa qualidade de imagem (tela cheia, formato original) e áudio (Dolby Digital 5.1), dois documentários longos sobre o diretor e um comentário em áudio de ninguém menos que Wim Wenders, amigo e colega de geração de Fassbinder.

– O Mercador das Quatro Estações (Händler der vier Jahreszeiten, Alemanha, 1972)
Direção: Rainer Werner Fassbinder
Elenco: Hans Hirschmüller, Irm Hermann, Hanna Schygulla, Andrea Schober
Duração: 88 minutos

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