Mercenários, Os

02/12/2010 | Categoria: Críticas

Leitura interessante do filme de Stallone é metalingüística e aparece apenas nas lacunas do filme, já que a ação na tela é previsível e sem graça

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

Talvez soe como heresia para os mais puristas, mas uma análise rigorosa dos últimos filmes realizados por Sylvester Stallone como diretores permite que comparemos a entrada do principal intérprete de filmes de ação dos anos 1980 na terceira idade com a trajetória realizada por Clint Eastwood, sobretudo a partir de “Os Imperdoáveis” (1991). Depois de encarnar seus dois famosos heróis musculosos acertando as contas com os respectivos passados (em “Rocky Balboa”, de 2006, e “Rambo”, de 2008), Stallone agora parece – e infelizmente só parece, como veremos a seguir – querer ampliar o quadro e fazer o mesmo com toda uma geração de atores bombados, já que “Os Mercenários” (The Expendables, EUA, 2010) consiste, basicamente, de uma reunião nostálgica e cheia de testosterona dos grandes astros de ação de duas ou três décadas atrás.

Em “Os Mercenários”, praticamente todos os atores que se encaixam nessa definição comparecem como coadjuvantes ou fazem participações especiais: Arnold Schwarzenegger, Bruce Willis, Mickey Rourke, Dolph Lundgren, Jet Li e até Jason Statham, que surgiu uma geração depois (feitas as contas, sentimos falta apenas de Jean-Claude Van Damme e Steven Seagal, que recusaram os convites). Todos esses astros de ação compartilham algo mais do que hormônios que incham os músculos: eles interpretaram, ao longo de suas carreiras, incontáveis variações do herói típico dos anos 1980, o machão violento que saía na porrada para defender alguma causa humilde, sempre contra inimigos poderosos, melhor armados e em maior número, vencendo no final uma batalha que parecia perdida de antemão.

A leitura mais interessante que se pode fazer de “Os Mercenários” é metalingüística, no mesmo sentido em que boa parte dos protagonistas do Eastwood pós-anos 1990 dialogam com seus personagens do começo de carreira. No filme de Stallone, cujo roteiro foi co-escrito pelo próprio, os antigos heróis de ação estão reunidos em uma espécie de exército paramilitar de mercenários que trabalha para quem paga mais. Nesse sentido, as lacunas deixadas pelo roteiro são infinitamente mais interessantes do que a ação banal e rotineira mostrada na tela (a tropa, liderada por Stallone, é contratada pela CIA para chacoalhar uma ditadura estabelecida numa pequena ilha da América do Sul e dirigida por um ex-agente que se tornou grande traficante de drogas).

De fato, a ação dramática não passa de desculpa para cenas previsíveis e sem graça de pancadaria, tiroteios, perseguições de carro e avião, tudo com uma estética moderninha (câmera na mão e/ou colada nos rostos dos atores, cortes rápidos, quebras de eixo intencionais, muitos sobressaltos visuais, efeitos sonoros hiper-reais) que pouco ou nada tem a ver com os antigos filmes protagonizados pelos atores que vemos na tela. Todos, aliás, com a expressão cansada de quem deseja terminar logo o trabalho e ir para casa dormir (nos dois sentidos, literal e figurado; ou seja, na frente da câmera e atrás dela também).

Mas isso pouco interessa. Na verdade, interessa a sugestão que o roteiro nos faz quanto ao destino daqueles heróis altruístas e solitários dos anos 1980. Depois de lutar, cada um à sua maneira, por uma sociedade mais justa e correta, onde foram parar os fortões? Na clandestinidade. Na sarjeta. Trabalhando, desiludidos, para quem oferece mais. Sendo um filme produzido dentro de Hollywood (vale a pena ressaltar que Stallone e sua equipe filmaram grande parte do longa-metragem no Brasil, dando calote em todo mundo por aqui, e ainda saíram falando mal do país), claro que o roteiro dá um jeito de oferecer uma última chance de redenção a cada um dos heróis traumatizados, de modo que cada um tenha a oportunidade de acertar as contas com suas próprias consciências. Mas é só isso. Terminado o filme, cada um dos corpos marombados vai voltar para um vidinha de subúrbio, de pária social – e o mesmo acontecerá com cada um dos atores, cujo tempo no estrelato já passou e não volta mais.

Obviamente, a aproximação entre Stallone e Clint Eastwood pára por aqui. Enquanto esse último amadureceu junto com seus personagens, criando uma obra sólida e autoral que problematiza (e, dessa maneira, amplia) os filmes do passado, Sly e seus asseclas pararam no tempo. Suas figuras cansadas nos lembram adultos de mentes adolescentes, velhinhos que insistem em parecer garotões, como se pudessem vencer a passagem do tempo dessa forma. Nesse sentido, a aparência dos filmes nos permite uma metáfora com os próprios atores: por baixo do verniz de novidade (a quantidade avassaladora de close-ups extremos, os sacolejos da imagem, os chicotes laterais, o pum-pam-bum! da trilha sonora) há a mesma e velhíssima história que já era contada nos velhos faroestes de John Ford, George Stevens e Howard Hawks. O que “Os Mercenários” tem de interessante aparece apenas nas entrelinhas. Porque o filme, em si, é mais do mesmo. Nada além.

O DVD tem corte original (widescreen anamórfico) e trilha de áudio Dolby Digital 5.1.

– Os Mercenários (The Expendables, EUA, 2010)
Direção: Sylvester Stallone
Elenco: Sylvester Stallone, Jason Statham, Giselle Itié, Jet Li, Dolph Lundgren
Duração: 103 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


27 comentários
Comente! »