Mestre dos Mares

05/08/2004 | Categoria: Críticas

Filme de Peter Weir pode ser descrito como ‘Gladiador’ passado dentro de um navio e no século XIX

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Abril de 1805. Napoleão declara guerra aberta à Europa e anexa ao território da França praticamente toda a Europa, com a exceção da Inglaterra. Por ser uma ilha e ter a Marinha mais poderosa do mundo, a Grã-Bretanha torna-se o maior desafio do imperador francês. Mas o filme “Mestre dos Mares – O Lado Mais Distante do Mundo” (Master & Commander: The Far Side of the World, EUA, 2003) não tem a menor intenção de dar aula de História. Trata-se de um épico monumental e realista, como tudo de bom e de ruim que isso significa.

A superprodução, dirigida pelo australiano Peter Weir, não tem nenhuma pretensão de realizar uma reconstrução histórica impecável. E nem precisa disso, na verdade, pois 90% do filme se passa dentro de um navio, o H.M.S. Surprise. A construção detalhista e minuciosa da gigantesca embarcação, a rigor, transforma o filme no primeiro longa-metragem a conseguir passar para o espectador o quão sujo, opressor e violento é o mundo dos marinheiros. Nada de glamour aqui: Weir nos lembra que a vida em alto-mar é duríssima.

Isso fica claro logo na abertura, quando vemos longas tomadas do navio do capitão Jack Aubrey (Russell Crowe). Os marujos se amontoam num convés fétido, onde também fica uma criação de cabras destinada a alimentar a tripulação. Os ingleses estão na costa do Brasil, em meio a um nevoeiro enorme, quando são atacados por um barco francês, o Ancheron. Em desvantagem, o navio de Aubrey só se salva por conta do nevoeiro, mas sai seriamente danificado.

Ocorre que a missão do capitão é justamente capturar, ou pôr a pique, o barco inimigo, que é mais pesado, mais veloz e mais bem armado. O filme de Peter Weir, portanto, tematiza um verdadeiro jogo de gato e rato entre dois estrategistas dos mares. Nesse sentido, é um belo trabalho. As cenas de batalha naval são muito bem filmadas, e o jargão náutico é apresentado com fidelidade, sem que isso torne o enredo complicado em excesso.

Por outro lado, a película também tem a ambição de explorar a amizade entre dois homens – nesse caso, Aubrey e o médico-cirurgião Stephen Matturin (Paul Bettany). O primeiro é um homem rude, grosseiro, com mente genial para a estratégia e espírito de liderança inabalável. Já o segundo é um naturalista apaixonado por animais selvagens e com horror à destruição da guerra. São homens completamente diferentes, mas que desenvolvem, no ambiente tenso e opressor do navio de guerra, uma relação de cooperação e companheirismo que será posta à prova muitas vezes.

Em resumo, “Mestre dos Mares” funciona enquanto visto como épico de guerra, que apresenta semelhanças inconfundíveis com “Gladiador” – imagine o filme de Ridley Scott acontecendo dentro de um barco. A performance vigorosa e física de Russell Crowe aproxima ainda mais os dois longas, enquanto Bettany acerta no registro de um homem fisicamente frágil, mas moralmente maduro. Quando pende para o terreno das relações humanas, contudo, o filme se perde em clichês e mostra a previsibilidade do enredo.

Um dos grandes problemas foi o desenvolvimento insuficiente dos personagens secundários. O pirralho Lord Blackney (Max Pirkis), protegido do comandante, é um ótimo exemplo. A despeito da boa interpretação de Pirkis, o menino surge na trama como um elo de ligação entre os dois protagonistas, e jamais consegue transcender esse limite. Toda e qualquer ação que ele toma, no âmbito do filme, tem a função de trampolim para as cenas seguintes. Por si, essa estratégia não é errada, mas tudo no roteiro é tão previsível que qualquer espectador consegue adivinhar com antecedência o que vai ocorrer nos minutos seguintes. A sensação de dèja vu, como se sabe, nunca é boa companheira no cinema.

De qualquer modo, a atmosfera realista e o ambiente de crescente tensão dentro do navio (mesmo com o barco avariado, o capitão obriga a tripulação a se afastar cada vez mais do continente europeu, em perseguição à embarcação inimiga) são elementos que fazem o filme de Peter Weir valer a pena. “Mestre dos Mares” é uma obra que não vai salvar o mundo, mas diverte com competência.

– Mestre dos Mares – O Lado Mais Distante do Mundo (Master & Commander: The Far Side of the World, EUA, 2003)
Direção: Peter Weir
Elenco: Russell Crowe, Paul Bettany, Billy Boyd, James D’Arcy, Lee Ingleby
Duração: 128 minutos

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