Metal – Uma Jornada pelo Mundo do Heavy Metal

06/03/2008 | Categoria: Críticas

De formato quadradão e engravatado, documentário acerta ao realizar bom estudo antropológico do gênero musical

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Sam Dunn não é cineasta, mas antropólogo. Depois de se formar com uma monografia sobre a vida dos índios guatemaltecos, ele decidiu aplicar o conhecimento técnico adquirido na universidade para estudar um assunto lhe que mexia com o emocional: a cultura da tribo de headbangers (no Brasil, mais conhecidos como metaleiros). Dunn é admirador de música pesada desde os 12 anos de idade, e queria lançar um olhar um pouco mais científico ao tema. Ao todo, foram sete anos reunindo entrevistas com astros do rock, músicos, sociólogos, críticos e executivos de gravadoras. O resultado é o documentário “Metal – Uma Jornada pelo Mundo do Heavy Metal” (Metal – A Headbanger’s Journey, Canadá, 2006), um filme indispensável para fãs do estilo, apesar do formato convencional.

Talvez pelo background completamente alheio ao cinema, Dunn organizou os temas abordados de maneira excessivamente didática. A edição final lembra um programa jornalístico. È dividida em blocos, cada um dedicado a um tema e composto por narração em off, entrevistas com artistas e especialistas, pequenos clipes musicais e vinhetas.Por causa desta opção, temos aqui um exemplo clássico de filme em que a forma presta um desserviço ao conteúdo. A edição final é conservadora demais, engravatada mesmo. Não reflete o espírito anárquico e rebelde do objeto de estudo. Por outro lado, essa opção é bastante lógica, já que o público-alvo do filme é formado basicamente por fãs de música, e não de cinema.

O único aspecto arrojado e original, na verdade, acabou se convertendo no ponto mais polêmico do documentário, quase sempre criticado nas resenhas feitas por revistas de música pelo mundo afora: para explicitar o ponto de vista narrativo que decidiu adotar, ele abre o filme contando um pouco da própria história e informa aos espectadores que será não apenas o narrador, mas também o personagem principal. A metodologia – que na Antropologia é chamada de auto-etnografia – o transforma numa espécie de Michael Moore do heavy metal (sem o espírito sarcástico, claro). Em algumas cenas, Dunn aparece, quase em transe, balançando a cabeça durante shows de rock. Em outro momento, ele mal consegue conter a excitação ao chegar à minúscula cidade de Wacken, na Alemanha, onde acontece o maior festival de heavy metal ao ar livre do mundo. Bem ou mal, essas cenas respondem pela única ousadia estética de um filme quadradão.

A abordagem didática tem um esqueleto narrativo firme: uma espécie de árvore genealógica das bandas do estilo, criada pelo próprio Dunn e que relaciona todos os subgêneros, dos mais conhecidos (glam rock) aos mais obscuros (black metal norueguês). Durante os 96 minutos de projeção, Dunn se move pela árvore genealógica, analisando temas como sexualidade, religião, comportamento dos fãs e vestuário. Além disso, mergulha no desenvolvimento histórico do estilo. O cardápio de entrevistas é um dos grandes atrativos para os fãs: medalhões como Bruce Dickinson (Iron Maiden), Lemmy (Motorhead), Tony Iommi (Black Sabbath), Geddy Lee (Rush) e Vince Neil (Motley Crue) comparecem, e se mostram surpreendentemente articulados. Não é o tipo de filme que vai agradar a todo mundo, mas certamente tem potencial para deixar muito marmanjo fã do gênero em estado de êxtase.

A produção foi lançada num DVD simples pela Europa Filmes. O disco traz uma cópia do longa com boa qualidade de imagem (full 1.33:1) e áudio (Dolby Digital 5.1). O DVD duplo, disponível nos Estados Unidos, agrega um segundo disco contendo um featturete específico sobre as bandas norueguesas de black metal, formadas por satanistas de verdade, mais uma árvore genealógica interativa do gênero e a íntegra de 18 entrevistas utilizadas na edição regular do longa. Um pacote perfeito para fãs do estilo.

– Metal – Uma Jornada pelo Mundo do Heavy Metal (Metal – A Headbanger’s Journey, Canadá, 2006)
Direção: Sam Dunn, Scott McFadyen e Jessica Wise
Documentário
Duração: 96 minutos

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