Meu Amor de Verão

17/10/2006 | Categoria: Críticas

Estudo sobre a influência da solidão no comportamento das pessoas é filme sensível e despojado

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Até onde as pessoas são capazes de chegar quando se sentem sozinhas? Até que ponto a falta de companhia pode influenciar nossas escolhas e, por conseguinte, definir nossas personalidades? Estas questões formam o cerne do excelente drama “Meu Amor de Verão” (My Summer of Love, Inglaterra, 2004), dirigido pelo cineasta polonês Pawel Pawlikowski. A melancólica produção independente é um estudo brilhante sobre que reflete sobre a solidão e sua influência no comportamento das pessoas, em uma narrativa sensível e despojada.

O filme enfoca uma curta passagem de alguns meses nas vidas de três pessoas muito diferentes entre si. Em circunstâncias normais, os três personagens principais dificilmente criariam laços afetivos fortes. É justamente o desespero causado pela solidão, pela necessidade de calor humano, o elo que une Mona (Nathalie Press), Tamsin (Emily Blunt) e Phil (Paddy Considine) – este último, recém-saído da prisão, é o irmão mais velho da primeira – durante um ensolarado verão inglês, numa minúscula cidade encravada na zona rural de uma ilha britânica. O vilarejo, de vida pacata e com população eminentemente velha e conservadora, não se mostra um lugar exatamente agradável para pessoas jovens como eles.

O filme é narrado sob o ponto de vista de Mona, uma adolescente pobre e solitária. Ela não tem amigos na cidade e nunca conheceu o pai; a mãe morreu de câncer. Namora um homem casado e mais velho, que a trata como lixo, por pura necessidade de contato. A única pessoa mais próxima dela é Phil, mas ultimamente ele não tem sido boa companhia. Outrora briguento, de índole violenta, o irmão voltou transformado da cadeia. Se converteu ao protestantismo, fechou o pub da família – um dos raros locais de diversão noturna do povoado – e abriu uma igreja no lugar. Phil também é uma alma em busca de aceitação, de companhia, de amizade e conforto à solidão.

A adolescente está mais sozinha do que nunca quando conhece Tamsin (Emily Blunt), em uma tarde modorrenta no campo. Pawel Pawlikowski filma o primeiro encontro entre as duas de maneira alegórica e criativa: Mona está deitada num gramado e, ao levantar à vista, vê um vulto iluminado pelo sol dourado, montado em um cavalo branco. Tamsin é o príncipe encantado que surge para colorir a vida cinzenta da adolescente. Não demora mais do que dois encontros para que surja entre elas uma amizade intensa. Como estamos falando de duas adolescentes com hormônios em ebulição, não é difícil de prever que a coisa pode evoluir para algo sexual.

Tamsin tem a mesma idade de Mona e também é solitária. Os pais estão viajando, ela passa os dias enclausurada na ampla casa de campo da família, e mostra dificuldade para enfrentar o trauma de ter perdido a irmã mais velha, morta por anorexia. A única diferença entre as duas é econômica, já que a família de Tamsin tem muito dinheiro. O roteiro, assinado por Pawlikowski e Michael Wynne, explora com muita sutileza a poderosa influência que este encontro inesperado exerce sobre as três vidas envolvidas. E o faz de maneira surpreendente: “Meu Amor de Verão” se recusa a trilhar o caminho da tragédia ou do melodrama, tomando um rumo inesperado que conduz a um final não apenas original, mas belo e, sobretudo, coerente com as três personalidades envolvidas.

Alguns críticos têm apontado certa semelhança entre o longa-metragem e o também independente “Almas Gêmeas” (1994), de Peter Jackson. De fato, há detalhes parecidos – a paixão proibida entre duas adolescentes, a tensão sexual, a paisagem idílica – mas o foco emocional e psicológico da história é bem diferente. O filme de Jackson, baseado numa história real, enfatiza o preconceito social diante do homossexualismo, enquanto no filme do diretor polonês o fator sexual é apenas uma das conseqüências secundárias do encontro entre as garotas. Aqui, o foco é a solidão – os personagens fazem sexo como forma de fugir dela, como maneira de celebrar o encontro com alguém que espanta a solidão para longe.

É desta constatação que surge a reflexão mais interesse proporcionada por “Meu Amor de Verão”. Vendo o filme, conseguimos utilizar as personagens como espelhos de nosso próprio comportamento, uma característica do melhor cinema. Podemos pensar, por exemplo, no quanto os encontros e amizades influenciam aquilo que somos e seremos no futuro; essa influência é especialmente forte na fase da adolescência, quando o sentimento de pertencer a um grupo é absolutamente crucial para o amadurecimento emocional de qualquer ser humano.

Pense, por exemplo, no caráter sexual da amizade entre Mona e Tamsin. O fato de dormirem juntas faz delas homossexuais? E caso não tivessem se encontrado, será que elas teriam experimentado sexo com garotas? Se preferir, ajuste o foco da sua reflexão para Phil: se não estivesse se sentindo tão solitário na prisão, será que ele teria abraçado a fé protestante, renunciando (ou pelo menos tentando fazê-lo) tão profundamente a sua índole violenta? Este raciocínio nos leva à questão mais fundamental de todas: como a necessidade de interagir com outras pessoas, uma característica inata da raça humana, modifica o comportamento individual de cada um de nós? Pense o que quiser, o fato é que qualquer filme que levante tantas perguntas merece uma conferida atenta.

O DVD lançado pela Europa Filmes é simples e não contém extras. O filme tem formato de imagem preservado (widescreen anamórfico) e som razoável (Dolby Digital 2.0).

– Meu Amor de Verão (My Summer of Love, Inglaterra, 2004)
Direção: Pawel Pawlikowski
Elenco: Nathalie Press, Emily Blunt, Paddy Considine, Dean Andrews
Duração: 86 minutos

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