Meu Jantar com André

25/08/2008 | Categoria: Críticas

Apesar da monotonia visual, a conversa inteligente e as descrições fascinantes dão cor e drama ao filme de Louis Malle

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Você está insatisfeito com a vida? O casamento anda mal das pernas, o trabalho não lhe dá nenhum prazer? As pessoas parecem se preocupar demais com as aparências? Você odeia o seu trabalho e não tem nenhum prazer em sair para bater papo com os amigos? Até os filmes dão a impressão de serem sempre iguais? Pois “Meu Jantar com André” (My Dinner with Andre, EUA, 1981) tem tudo para virar seu longa-metragem de cabeceira. A produção norte-americana, assinada pelo cineasta francês Louis Malle, não se parece com nenhuma outra. O popular recurso da comparação com outros títulos, para dar uma idéia ao leitor daquilo que o espera, simplesmente não funciona aqui. É o tipo de trabalho que não dá chance a meio termo. Você ama ou odeia.

Essencialmente, “Meu Jantar com André” cumpre exatamente o que o título promete. Durante 110 minutos, o filme acompanha um jantar entre dois homens, em tempo real, da perspectiva de um deles. Com exceção do prólogo e do epílogo, ambos curtíssimos (um minuto cada, que mostram respectivamente o narrador entrando e saindo do restaurante onde a história se desenrola), são duas pessoas conversando, comendo e bebendo vinho. Se cenas de ação física são o seu negócio, obviamente “Meu Jantar com André” não foi feito para você. Até porque os dois sujeitos em questão são típicos intelectuais nova-iorquinos, do tipo que Woody Allen adora satirizar. Eles discutem longamente sobre teatro, sobre o conceito de felicidade e sobre a natureza da realidade. Citam Schoppenhauer e Heidegger. Papo-cabeça, sim. Dos mais interessantes.

Louis Malle, o diretor, teve menos influência na concepção do projeto do que se pode imaginar. Os verdadeiros artífices foram exatamente os dois personagens que aparecem diante da tela: o ator e escritor Wallace Shawn e o diretor de teatro Andre Gregory. Durante três meses, duas ou três noites por semana, os dois fizeram exatamente como no filme: saíam para jantar e conversavam sobre a vida. Aos poucos, foram anotando as melhores idéias surgidas das conversas e desenvolvendo cuidadosamente dois personagens mais ou menos ficcionais, mas parecidos com o que cada um era na vida real. Shawn levou mais um ano para polir o roteiro, em meio a jantares-ensaios.

Louis Malle entrou no processo já no final, e cuidou basicamente de registrar o longo bate-papo de forma elegante e realista. Os cuidados com os detalhes não foram poucos. Embora tenha filmado em um hotel abandonado da Virginia (EUA), Malle tratou de criar um cenário completo. Garçons e fregueses circulam o tempo todo por entre as mesas do lugar, podendo ser vistos inclusive em reflexos nos espelhos. Pedestres e automóveis trafegam do lado de fora e aparecem nas janelas. Pode-se ouvir toda uma banda sonora ao fundo, com barulho de pratos e talheres, e conversas paralelas. O diretor também tentou variar um pouco os enquadramentos, usando planos médios, americanos e gerais, e normalmente aproximando a câmera dos personagens nos momentos mais emocionais.

Nada disso funcionaria, claro, se a conversa não fosse interessante – e ela é. Logo no começo, Shawn explica que não está muito interessado no jantar, e vê Gregory como um talentoso dramaturgo que surtou e sumiu do mapa há alguns anos. De fato, na primeira metade, Andre domina a tela com casos divertidos, como a temporada hippie que passou numa floresta da Polônia, a experiência de ser enterrado vivo na noite de Halloween e o encontro insólito com uma criatura peluda que tinha violetas nos olhos. São descrições vívidas e coloridas que projetam imagens mentais extremamente interessantes (é possível lembrar do antológico monólogo sobre sexo na praia que ouvimos – e quase vemos, de tão rico e detalhado – em “Persona”, de Bergman).

Aos poucos, Shawn vai se interessando pela conversa e passa a debater com Andre sobre um tema essencialmente pós-moderno – o estado de sonambulismo, quase de hipnose, com que as pessoas levam suas vidas na atualidade. Os dois homens concordam aqui, discordam acolá, mas sempre com argumentos bem orquestrados. No fim das contas, “Meu Jantar com Andre” acaba sendo o tipo de filme que faz o espectador questionar tudo e todos à sua volta, algo que só o melhor cinema consegue fazer. Levando em consideração que a monotonia das imagens pode induzir pessoas menos atentas a uma espécie de transe, o filme pode ser considerado um pequeno clássico.

O longa-metragem foi lançado em DVD nos EUA em cópia bem ruim, sem extras, com qualidade pobre de imagem, repleta de riscos e arranhões (apesar de manter o enquadramento original, 4:3). O áudio é OK (Dolby Digital 2.0). O filme não existe no Brasil.

– Meu Jantar com André (My Dinner with Andre, EUA, 1981)
Direção: Louis Malle
Elenco: Wallace Shawn, Andre Gregory, Jean Lenauer
Duração: 110 minutos

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