Meu Malvado Favorito

13/12/2010 | Categoria: Críticas

Sem piadas engraçadas ou subtexto sólido, filme da Universal aposta em criaturas e crianças fofinhas para atingir um público-alvo mirim

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Um dos reflexos da crise financeira braba que assolou os estúdios de Hollywood a partir de 2008 foi péssimo, do ponto de vista criativo. Se já eram historicamente resistentes a apostar em novidades e/ou projetos arrojados, as empresas cinematográficas mais poderosas tornaram-se pra lá de conservadoras. Há duas galinhas de ovos de ouro para elas: (1) a criação de franquias que rendam pelo menos três filmes com grande potencial de bilheteria; e (2) o nicho das animações infantis, atraente para um enorme público-alvo e capaz de gerar faturamento dobrado com produtos derivados, como brinquedos e jogos de videogame. “Meu Malvado Favorito” (Despicable Me, EUA, 2010) é a aposta da Universal para acertar os dois setores promissores de uma só vez.

Dos grandes estúdios, a Universal é um dos poucos que jamais teve um setor de animações infanto-juvenis bem desenvolvido. A Disney/Pixar lidera o setor com folga, seguida de perto pela Dreamworks (da franquia “Shrek”) e pela Fox (“A Era do Gelo”). Já a Warner teve dias de glórias com as animações trasloucadas de Chuck Jones nos anos 1950. Doida para entrar no time, a Universal apostou alto com “Meu Malvado Favorito”, importando integrantes da equipe que trabalhou nos filmes da Fox. Parece que a jogada deu certo: o filme rendeu US$ 164 milhões em três semanas nos Estados Unidos, obteve recepção crítica bastante favorável e teve duas seqüências anunciadas. Mas e aí? Vale a pena?

A resposta é relativa. No contexto de uma temporada que viu lançamentos de bom fôlego criativo, como o belo “Toy Story 3” e o engraçado “Shrek Para Sempre”, a primeira animação em 3D digital da Universal empalidece. À primeira vista, o filme soa como um milimetricamente calculado cozido de chavões do gênero, um cozido poucos atraente para adultos. Afinal, “Meu Malvado Favorito” está cheio de piadas e diálogos que querem ser engraçados mas não conseguem, não tem as alusões generosas a clássicos do passado que fazem a delícia de cinéfilos (elas existem, mas são poucas e burocráticas) e nem possui um subtexto afetivo poderoso, como as produções Pixar. A boa notícia é que, descontando tudo isso, o filme atende razoavelmente bem à demanda das crianças menores, em geral negligenciada pelas animações contemporâneas.

O enredo gira em torno de um super-vilão chamado Gru, cuja figura corcunda e nariguda lembra sutilmente o Pingüim, arquiinimigo do Batman. Depois de alguns anos tentando dominar o mundo (o quê mais?), liderando um exército de robôs nanicos, ele sofre a ameaça de ser sobrepujado por um vilão mais jovem e audacioso. Decide, então, botar em curso seu desejo mais audacioso: roubar a Lua. Para isso, bola um plano no qual é obrigado a adotar três meninas órfãs. O que ameaça a estabilidade do plano, além das ações ousadas do adversário Vetor, é a inexplicável afeição que ele começa a sentir pelas crianças.

“Meu Malvado Favorito” não tem um herói carismático, um vilão fascinante ou uma idéia original. O roteiro traz ecos de “Os Incríveis” (2004) – a influência fica mais do que evidente na trilha sonora repleta de metais, de autoria do músico brasileiro Heitor Pereira – mas o universo bolado pelos diretores e roteiristas do projeto não tem um décimo da consistência lógica de um filme da Pixar (nunca é explicado como os super-vilões habitam mansões gigantescas sem serem incomodados pela polícia). A jornada emocional de Gru, com o desenvolvimento de uma afeição por crianças, não é gradual. Um dia, simplesmente aparece e está lá. Tudo isso sem falar no clímax bobo e sem emoção.

Por outro lado, sempre que o exército de robôs nanicos aparece, o filme cresce. Se as piadas contidas nos diálogos quase nunca provocam risos, o humor físico gerado pelas criaturas anãs funciona, sobretudo para a criançada. O mesmo pode ser dito das três meninas adotadas pelo super-vilão: elas simplesmente funcionam como uma lufada de ar fresco, que ajuda o filme a engrenar sempre que começa a parecer um caso perdido. Ademais, por ter sido um projeto inteiramente desenvolvido para tecnologia 3D, o filme explora bem o efeito de profundidade gerado por ela, de uma forma particularmente atraente para a meninada, com objetos freqüentemente flutuando ou saltando para fora da tela. Enfim, como diversão descompromissada para crianças pequenas, “Meu Malvado Favorito” tem lá seu encanto.

O DVD da Universal traz o filme com formato correto (wide anamórfico, Dolby Digital 5.1) e um punhado de brincadeiras infantis.

- Meu Malvado Favorito (Despicable Me, EUA, 2010)
Direção: Pierre Coufin e Chris Renaud
Animação
Duração: 95 minutos

| Mais

GOSTOU DO FILME? DÊ SUA NOTA

1 estrela2 estrelas3 estrelas4 estrelas5 estrelas (9 votos. Média de 2,67 em 5)
Loading ... Loading ...


Assine os feeds dos comentários deste texto


4 comentários
Comente! »

  1. ah, eu achei um barato, muito bonitinho.

  2. Achei a mensagem deste filme, sinceramente, muito bonita. Comovente o relacionamento que nasce entre Gru e as três menininhas. O longa mostra que o amor tem o poder de modificar até a mais malvada das criaturas. :) Pode não ser uma animação com o nível de um filme da Pixar, mas evoca na gente os mesmos tipos de sentimentos.

  3. ‘muit legal adorei

  4. “Sem piadas engraçadas.”
    Só acreditei que está escrito isso no texto ai em cioma porque eu li.
    O escritos dessa crítica só pode ter algum problema de humor, pois achei muito engraçado.
    As pessoas que conheço, que viram o filme, todas gostaram.
    E outra coisa que deve ser levada em conta é que não é só publico mirim que assiste esses filmes.
    A maioria dos adultos que conheço assistiram e gostaram mais que os “mirins”.
    Os filmes de animação estão dando uma luz para aqueles que buscam assistir algo diferente, sem os mesmos artistas de sempre e os mesmos enrredos centrais.
    Eduardo.

Deixar comentário