Meu Nome é Ninguém

28/04/2006 | Categoria: Críticas

Faroeste cômico traz Sergio Leone como eminência parda e possui grandes cenas de humor pastelão

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

O cineasta italiano Sergio Leone entrou na década de 1970 com grandes ambições. Com o imenso sucesso que seus faroestes faziam nos Estados Unidos, ele acreditava que poderia transportar seu estilo operístico para grandes produções – em resumo, queria ser o novo David Lean. Para tanto, decidiu que precisava se afastar do western, considerado um gênero menor. Entretanto, para continuar explorando o rico filão do Velho Oeste, ele tomou transformou o assistente, Tonino Valerii, em diretor, com a incumbência de dirigir faroestes que receberiam a chancela “Sergio leone apresenta”. Dessa forma foi produzido o impagável “Meu Nome é Ninguém” (My Name is Nobody, França/Itália/Alemanha, 1973).

O filme, uma delícia de faroeste cômico feita sob medida para fãs do spaghetti western, acrescenta uma generosa dose de humor pastelão, no estilo dos Trapalhões, à fórmula predileta de Leone, aqui fazendo evidente papel de eminência parda. O alicerce dos filmes do diretor italiano, repetido no filme, é a dinâmica entre dois homens bem diferentes, forçados por circunstâncias extraordinárias a conviver, ora como parceiros, ora como inimigos. Espertos, os produtores escalaram nos papéis principais dos atores diametralmente opostos: o taciturno Henry Fonda, que Leone havia dirigido em “Era uma Vez no Oeste” (1968), e o ascendente comediante Terence Hill, que fazia sucesso na época com as paródias de faroeste da série “Trinity”.

A química entre os dois é das melhores, embora o roteiro, assinado por Ernesto Gastaldi, tenha problemas em contrabalançar a tensão e os momentos cômicos. O escritor foi especialmente generoso com Hill, pois as melhores cenas ocorrem quando ele está em cena. Há pelo menos três momentos brilhantes, que arrancam gargalhadas até de surdos: o confronto entre Nobody (Hill) e um anão montado em pernas-de-pau, um duelo amigável entre pistoleiros que atiram em copos dentro de um saloon (o final da cena, quando Nobody humilha um rival à base de tapas, é memorável) e um tiroteio dentro de um parque de diversões. Pena que o filme não consegue manter o ritmo durante todo o tempo, possuindo uma trama confusa, que soa como mera desculpa para interligar meia dúzia de seqüências inteligentes e bem filmadas.

A longa seqüência de abertura, com quase 10 minutos sem diálogos que apresentam o letal pistoleiro Jack Beauregard (Fonda), mostra que Valerii aprendeu direitinho a lição do mestre Leone, atuando no filme como diretor (não-creditado) de segunda unidade. Valerii alterna close ups radicais com belas paisagens do deserto, usa o som como elemento criativo para provocar suspense, e cria uma tensão quase insuportável ao esticar o tempo até o limite máximo de duração de situações cotidianas, como o ato de fazer a barba. Mas é apenas quando Nobody entra em cena, durante os créditos, que o filme ganha humor e revela sua face cômica.

Outra característica básica dos spaghetti western que Valerii respeita fielmente é a mania de fazer grande quantidade de citações. Além de ter filmado algumas cenas no legendário Monument Valley (onde John Ford fez a maioria dos clássicos do western, e cujos morros pontudos Leone usou no extraordinário “Era uma Vez no Oeste”), o diretor cria uma cena num cemitério tosco, que remete a “Três Homens em Conflito” (1968). No cemitério, uma das lápides traz o nome de Sam Peckinpah (“nome esquisito para um navajo”, diz Nobody).

O irascível diretor norte-americano, freqüentemente comparado com Leone na época em que o filme foi feito, é lembrado também ao emprestar o nome Wild Bunch (Bando Selvagem, nome original do clássico “Meu Ódio Será Sua Herança”, de 1969) ao grupo de pistoleiros que cavalga pelos desertos da região e protagoniza o clímax do filme, no final. Como se não bastasse, sobram citações até para estranhos no ninho do western. O tiroteio no parque de diversões, por exemplo, transforma em comédia o dramático bale de violência na sala de espelhos de “A Dama de Shangai” (1948), de Orson Welles.

Para completar o gênio Ennio Morricone apresenta mais uma trilha sonora sensacional, seguindo a mesma lógica de escolher instrumentos e sons inusitados que sempre usou para os faroestes italianos (corais femininos, flautas e guitarras), só que entrando no clima do filme e criando canções ora melodramáticas (o tema de Beauregard), ora engraçadinhas (a música de Nobody, claro). A cereja no bolo é a hilariante história sobre passarinhos, coiotes e cocô de vaca, cuja duvidosa moral aparece como metáfora inusitada para explicar a relação controversa entre os dois pistoleiros geniais. Coisa fina.

O DVD brasileiro é um lançamento Paris Filmes, em disco simples e sem extras. A cópia está muito boa, preservando o aspecto original (wide 1.85:1, letterboxed) e com boa qualidade de áudio (Dolby Digital 2.0, em inglês e português). A nota negativa fica para o crédito oficial atribuído a Sergio Leone, como diretor. Embora reze a lenda que Leone trabalhou como diretor assistente, o filme traz o nome do grande diretor italiano apenas como autor “da idéia”.

– Meu Nome é Ninguém (My Name is Nobody, Itália/França/Alemanha, 1973)
Direção: Tonino Valerii
Elenco: Henry Fonda, Terence Hill, Jean Martin, Leo Gordon
Duração: 111 minutos

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