Meu Tio Matou Um Cara

28/04/2005 | Categoria: Críticas

Divertido e despretensioso, filme possui a marca registrada de Jorge Furtado: desenvoltura para falar da vida dos adolescentes

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Jorge Furtado tem muitos motivos para se sentir orgulhoso. O principal é que o gaúcho vem se firmando como um dos mais prolíficos cineastas do Brasil, ostentando uma invejável produção de três longas-metragens em apenas três anos. A marca é quase impossível de atingir, nas bandas tupiniquins. Mais importante ainda é que Jorge reafirma, a cada novo trabalho, a existência de um estilo pessoal evidente. Não adiantaria nada filmar muito e fazer filmes vagabundos. Não é o caso. “Meu Tio Matou Um Cara” (Brasil, 2004) é divertido, despretensioso e possui a marca registrada de Jorge Furtado: desenvoltura para produzir enredos que enfoquem os dilemas da juventude.

“Meu Tio Matou Um Cara” era, na origem, um conto escrito pelo diretor de “O Homem Que Copiava” em 2002. O amigo Guel Arraes, parceiro há mais de quinze anos, leu, achou que daria um filme e soprou a idéia ao colega. Furtado aceitou no ato, com a condição que Guel topasse dividir com ele o roteiro, porque acreditava ser necessário ampliar e aprofundar a história do conto. Assim foi feito. A dupla trouxe Paula Lavigne para produzir e pronto, estava formada a equipe básica por trás do longa-metragem. Em menos de doze meses, o filme estava nas salas de exibição. Deve ser um recorde no Brasil.

A velocidade pode dar a impressão de um projeto comercial, feito a toque de caixa, apenas para faturar uns trocados em cima da recém-adquirida fama de Jorge Furtado no meio cinematográfico antenado, depois da boa receptividade de “O Homem Que Copiava”. Talvez seja um pouco isso, mas o filme tem qualidade. “Meu Tio Matou Um Cara” impressiona porque tem um acabamento de ótima qualidade, que já começa a partir da entrada dos créditos, produzidos com uma criativa computação gráfica. A abertura simula um game de mistério sendo jogado em primeira pessoa. Além de bem feitos, os créditos estabelecem o cruzamento dos dois universos que Jorge Furtado domina melhor, e que mistura com competência no filme: o mundo dos adolescentes e a investigação amadora de um mistério.

O enredo gira em torno de Duca (Darlan Cunha). Tímido e inteligente, o rapaz assiste à TV quando vê o tio, Éder (Lázaro Ramos), aparecer assustado, dizendo que matou um cara. Éder conta que brigou com o ex-marido da namorada, Soraia (Deborah Secco), foi ameaçado de arma em punho, tomou o revólver e baleou o sujeito. É um acontecimento extraordinário na vida de Duca, e ele vai usá-lo com o objetivo que persegue com mais afinco: impressionar Isa (Sophia Reis), a amiga de infância por quem é apaixonado. Ocorre que Isa gosta mesmo é de Kid (Renan Gioelli), amigo de ambos. A confusão está armada.

Jorge Furtado filma com leveza e carinho o universo dos adolescentes. O roteiro de “Meu Tio Matou Um Cara” retorna a esse tema muito caro ao diretor, que ele havia abordado com propriedade no primeiro longa que dirigiu, “Houve Uma Vez Dois Verões”. O crime cometido por gente inocente (base de “O Homem Que Copiava”, longa anterior de Furtado) também bate ponto, mas como uma espécie de trama secundária. Imagine, então, um projeto dirigido por Sophia Coppola com roteiro dos irmãos Coen. É mais ou menos esse o resultado de “Meu Tio Matou Um Cara”. E o filme atinge seu objetivo. Tem diálogos leves e espirituosos, que respeitam os adolescentes e interpretam o universo deles com honestidade.

Furtado sempre disse que se incomoda com o fato de que quase todos os filmes que retratam o mundo dos adolescentes incorrem em um dos dois erros: ou tratam os rapazes e garotas com preconceito, ou os mostram como pequenos adultos. “Meu Tio Matou Um Cara” não faz nem uma coisa e nem outra. O personagem de Darlan Cunha é excelente, complexo e multifacetado, mas não deixa de ser adolescente. Duca é tímido, pacífico, mas sensível, observador e inteligente. Demonstra isso com uma capacidade acima da média para “ler” os sentimentos dos colegas. O roteiro utiliza a lógica com argúcia para demonstrar a inteligência do rapaz. A seqüência em que ele encontra vários furos na história contada pelo tio sobre o assassinato, logo no início, é uma ótima maneira que o filme encontra para apresentar o garoto à platéia sem ser didático em excesso.

Outras cenas de grande qualidade em “Meu Tio Matou Um Cara” são aquelas que utilizam a lógica dos videogames para reexaminar detalhes do crime cometido por Éder. Como se não bastasse, Jorge Furtado ainda acerta na escolha do elenco. Lázaro Ramos está à vontade, Dira Paes transforma-se numa mãe de primeira, e Darlan Cunha encarna Duca à perfeição. Os deslizes do filme vêm no excesso de merchandising – as cenas que mostram os personagens bebendo cerveja são quase surreais, de tão absurdas – e na presença oportunista do arroz-de-festa Caetano Veloso, que assina a direção musical e comparece com duas canções feitas sob encomenda para estourar nas rádios. Não fosse essas bobagens, Jorge Furtado teria feito um filme perfeito para a rapaziada jovem.

– Meu Tio Matou Um Cara (Brasil, 2004)
Direção: Jorge Furtado
Elenco: Darlan Cunha, Lázaro Ramos, Sophia Reis, Renan Gioelli
Duração: 85 minutos

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