Miami Vice

05/12/2006 | Categoria: Críticas

Michael Mann usa personagens da ensolarada série de TV para criar um thriller cheio de tensão, brutal e sombrio

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Detratores dos anos 1980 prenderam a respiração quando o cineasta Michael Mann anunciou que iria filmar uma versão em longa-metragem de uma das séries mais famosas da década. “Miami Vice”, o seriado, mostrava dois policiais caçando traficantes de drogas, mas a ação era mero pretexto para que os personagens desfilassem um tenebroso arsenal de roupas e assessórios extravagantes, que incluíam ternos prateados, camisas coloridas abertas até o umbigo e correntinhas de ouro. Admiradores do cinema durão e meticuloso que Mann desenvolveu desde então temeram que o cineasta cometesse uma involução e filmasse uma paródia engraçadinha no estilo da série “Máquina Mortífera”.

A boa notícia é que “Miami Vice” (EUA, 2006), ainda bem, nada tem a ver com o mundinho ensolarado e rosa-choque da série homônima de TV. Os nomes e biótipos dos personagens principais foram mantidos, assim como a profissão de ambos, mas a semelhança não vai além disso. Todo o resto é muito diferente, a começar pela ambientação realista, brutal e sombria. “Miami Vice” é um thriller que carrega a assinatura de Michael Mann: noturno, tenso, editado com precisão milimétrica. Um filme em que a promessa de ação é incessante e mais importante do que a ação em si, e os personagens vivem sempre no limite, a um passo da beira do abismo.

Os detetives Sonny Crockett (Colin Farrell) e Ricardo Tubbs (Jamie Foxx) atuam como agentes da polícia estadual infiltrados no submundo do tráfico de drogas. Levam vidas sofisticadas, que incluem bebidas caras, noitadas intermináveis e tecnologia de última geração (Sonny dirige uma Ferrari e fala em telefones celulares via satélite). Mas é tudo aparência: eles vivem sob tensão tão forte que estão permanentemente estressados, sem conseguir desligar do trabalho. Ricardo não consegue nem terminar uma transa com a namorada (Naomie Harris, muito bonita) quando está em casa. Ele relaxa e acaba pegando no sono antes mesmo de chegar ao orgasmo.

Cenas que exibem detalhes como o sono fora de hora de Rico são bem-vindas, pois descrevem os personagens muito melhor do que com palavras. Esta é uma das especialidades de Mann. O diretor é conhecido por conseguir definir seus personagens sem precisar acrescentar narrações em off ou incluir cenas deslocadas da ação principal. Aqui, ele aproveita a desnecessária (mas obrigatória por razões comerciais, já que a nudez feminina sempre atrai público aos cinemas) cena de sexo para apresentar uma das características mais importantes da vida difícil dos agentes infiltrados, que é a extrema tensão a que eles estão sempre submetidos. Há diversas outras cenas assim, que desenvolvem os personagens e mantêm a ação avançando.

A obsessão com que heróis e bandidos se dedicam aos respectivos trabalhos, uma obsessão que os empurra até os limites da ética e da moral (no caso dos policiais), também é facilmente perceptível em “Miami Vice”. Esta característica existe em muitos outros filmes do diretor, e é a temática que unifica a obra dele. Quase todos os filmes de Michael Mann enfocam homens workaholics, gente que tenta empurrar os limites de sua profissão para adiante, e acaba esbarrando em problemas morais por causa disso. “O Informante” (1999) era assim, e “Fogo Contra Fogo” (1994), também.

Além disso, o cineasta também não abriu mão da assinatura visual, registrando a vida noturna de uma cidade grande – no caso, obviamente, Miami – com grande perícia. Aqui, ele utilizou novamente a técnica de captação de imagens em vídeo digital de alta definição, como em “Colateral” (2004). O resultado é uma fotografia elegante, de cores brilhantes, que ressalta a iluminação artificial. Observe também que o diretor raramente mantém a câmera fixa e abusa dos enquadramentos fechados, duas técnicas que acentuam ainda mais a atmosfera de tensão permanente que percorre todo o longa-metragem.

Este clima tenso é reforçado pela música, já que o diretor optou por usar linhas minimalistas e pesadas de guitarra, baixo e bateria, além de muitas canções pop (Audioslave toca várias vezes) ao invés das tradicionais trilhas orquestradas. Filmado dessa maneira, Mann transforma “Miami Vice” em um filme movido a cocaína: trincado, dentes rangendo e músculos retesados, sempre pronto para a briga. No entanto, a opção do diretor foi reduzir ao mínimo a ação, de forma a valorizar esses momentos de violência. Eles são editados meticulosamente com bastante realismo; veja, por exemplo, o efeito devastador dos tiros disparados pelos traficantes no carro dos agentes do FBI, no atentado que ocorre logo no começo do filme.

Por fim, o elenco funciona bem, em especial os atores coadjuvantes; a atriz chinesa Gong Li, transpirando sensualidade, rouba todas as cenas em que aparece. A ação basicamente é concentrada no personagem de Colin Farrell, cujo penteado é o único detalhe remanescente dos anos 1980, e ele se sai bem, apesar de estar sendo alvo de tremenda má-vontade da crítica norte-americana. Já o personagem de Jamie Foxx, ao contrário, aparece menos do que deveria. Ele compõe um Ricardo Tubbs bastante promissor, mas ganha pouco tempo em cena para desenvolvê-lo.

Vale observar, ainda, que a proposta de Michael Mann ao embarcar em “Miami Vice” jamais foi subverter ou elevar o thriller a um novo patamar. O cineasta trabalha rigorosamente dentro dos parâmetros narrativos do gênero, inclusive criando ações paralelas que envolvem a vida romântica dos dois personagens principais, algo bastante comum em filmes policiais. Ou seja, “Miami Vice” não é um thriller revolucionário. Mas é, sim, um filme policial bem feito, adulto e realista, e por isso está acima da média.

O DVD da Universal mantém a proporção correta da imagem (widescreen anamórfico) e tem ótimo som (Dolby Digital 5.1). Não há extras.

– Miami Vice (EUA, 2006)
Direção: Michael Mann
Elenco: Colin Farrell, Jamie Foxx, Gong Li, Naomie Harris
Duração: 134 minutos

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