Minha Mãe Quer que Eu Case

13/08/2007 | Categoria: Críticas

Comédia aproveita persona de Diane Keaton e traz olhar feminino interessante, mas abusa de clichês do gênero

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

Embora seja comediante de mão cheia e tenha construído uma carreira cheia de grandes momentos, em especial na década de 1970, Diane Keaton acabou se especializando em interpretar ela mesma. Basta dar uma espiada no trailer ou em algumas cenas de “Minha Mãe Quer que Eu Case” (Because I Said So, EUA, 2007) para fazer o diagnóstico: a comédia assinada por Michael Lehmann é mais uma da longa lista de filmes em que Diane faz o mesmo personagem. Se sobrar qualquer dúvida, basta conferir o figurino de Daphne, a viúva rica e mãe de três filhas adultas. Os adereços, repletos de calças masculinas, gravatas-borboleta e lenços atados ao pescoço, marcam fortemente a maneira de vestir que a atriz ostenta fora das telas.

Mesmo que o fato não seja decisivo para comprometer a qualidade do filme, acaba se mostrando significativo, pois deixa evidente que toda a produção de “Minha Mãe Quer que Eu Case”, do roteiro à direção de arte, foi construída em torno da presença de Keaton no papel principal. Em geral, projetos que desenvolvem a personalidade do protagonista a partir das características do intérprete raramente conseguem bons resultados, e o caso aqui não é diferente. “Minha Mãe Quer que Eu Case” é uma comédia romântica tradicional, de olhar feminino, que tenta equilibrar as situações previsíveis elaboradas pelo roteiro com piadas envolvendo a sexualidade desenvolta das mulheres contemporâneas.

Infelizmente, a coisa começa mal já a partir do esqueleto narrativo, que não passa de variação de uma tradicionalíssima situação de histórias da carochinha, em que a princesa espera pelo surgimento do príncipe encantado. A “princesa” em questão é Milly (Mandy Moore), nutricionista de um buffet de luxo. Após seguidas desilusões amorosas, a garota começa a dar pinta de que vai desistir de relacionamentos e se tornar uma solteira convicta, algo que Daphne não pode admitir, pois conhece de perto a solidão que acompanha a chegada da meia-idade. Assim, sem a filha saber, a mãe publica um anúncio num site de encontros, na Internet, e começa a realizar uma série de entrevistas para escolher um candidato a genro. Dois deles vão disputar depois o amor da moça.

Vale lembrar que pelo menos dois filmes recentes – “Mens@gem Para Você” (1999) e “Procura-se um Amor que Goste de Cachorros” (2005) – abordam a mesma situação-base, fotografando a Web como a última esperança de casamento para solitários simpáticos acima dos 30 anos. Originalidade, portanto, é algo que você não deve esperar encontrar aqui. Para compensar o problema, o longa-metragem capricha nas situações envolvendo a sexualidade liberal da mulher moderna, incluindo piadas que escandalizariam o público dos anos 1970 para trás. Além de piadas sobre homens com pênis não-circuncisados e sexo oral, o filme não tem pudor de mostrar Milly namorando e transando, em dias alternados, com dois diferentes candidatos a namorado. Melhor: o filme faz isso com um olhar isento de culpa ou vergonha, algo positivo, já que o cinema deve mesmo ser um espelho da vida real, e esse comportamento nos dias de hoje é mais do que natural.

Por outro lado, sob aspecto estritamente cinematográfico, o resultado é uma sucessão avassaladora de clichês. O roteiro, inteiramente previsível, se concentra no triângulo amoroso entre Milly e os dois candidatos, e o filme não esconde a preferência por um deles, o que permite que o espectador seja capaz de antecipar o final sem a menor dificuldade. As tramas paralelas (como o interesse romântico inesperado de Daphne) também não provocam nenhuma surpresa, e as elipses musicais repetem o que tantas outras comédias fizeram antes, sem qualquer tentativa de trazer algo novo ao gênero. Além disso, o diretor, Michael Lehmann, não consegue desenvolver satisfatoriamente a relação de camaradagem feminina que existe entre Daphne e as três filhas, de modo que as cenas que mostram o quarteto batendo papo ou cantando em festinhas soam forçadas e artificiais. Para encerrar o texto sobre um filme assim, vale um clichê: “Minha Mãe Quer que Eu Case” pode ser agradável, se for assistido por um casal apaixonado ou por um grupo de amigas em noite de diversão exclusivamente feminina. Caso contrário, é melhor passar a bola.

O DVD, da Videofiles, traz o filme com imagens na proporção incorreta (fullscreen, com cortes laterais) e áudio fraco (Dolby Digital 2.0). Não há extras.

– Minha Mãe Quer que Eu Case (Because I Said So, EUA, 2007)
Direção: Michael Lehmann
Elenco: Diane Keaton. Mandy Moore, Gabriel Macht, Tom Everett Scott
Duração: 102 minutos

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