Minority Report

01/10/2003 | Categoria: Críticas

Spielberg e Cruise, juntos em thriller policial futurista, elaboram obra que vai mais longe do que os olhos podem ver

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Se ainda existem pessoas que consideram Steven Spielberg uma criança crescida, “Minority Report – A Nova Lei” (Minority Report, EUA, 2002) deve mudar essa opinião definitivamente. O filme, que tem o astro Tom Cruise liderando o elenco, promove um estudo interessante sobre o totalitarismo e a perda dos direitos individuais, características que projetam um futuro sombrio para a sociedade ocidental. E o futuro, à moda de Spielberg, não deverá ser nada agradável. A obra consegue aliar inteligência e ação, uma combinação que platéia e críticos costumam ver com bons olhos.

“Minority Report” tem um trunfo que, automaticamente, lhe dá um papel de amplo destaque na filmografia norte-americana contemporânea: uma multidimensionalidade palpável, verdadeira, muito rara no cinema atual. A nova obra do diretor de “A Lista de Schindler” permite múltiplas leituras, abre as portas de uma série de discussões interessantes. A perda das liberdade individuais, o papel da tecnologia no crescente isolamento emocional dos cidadãos, a ilusão de novas relações sociais a partir da configuração de um novo tipo de olhar dirigido pela eletrônica; todas essas questões fundamentais são colocadas por Spielberg, a partir de um roteiro complexo, que constrói um thriller envolvente.

Há, ainda, pelo menos três seqüências de perseguição e/ou lutas empolgantes. Inseridas no contexto de um thriller, até que elas funcionam bem, embora a ação física não seja predominante no enredo. “Minority Report” poderia ser um clássico contemporâneo se encurtasse um pouco essas cenas, mas aí já seria exigir demais de um filme tão caro. Afinal, custou quase US$ 100 milhões, e o investimento nunca teria retorno sem uma boa dose de adrenalina, um vício das platéias atuais. De qualquer forma, se não ajuda, a correria não atrapalha – e ainda impressiona pelo requinte visual impecável, algo rotineiro nos filmes de Spielberg.

Entre “Minority Report” e o filme anterior do cineasta, “A.I. – Inteligência Artificial”, há um diálogo evidente. Já foi dito, inclusive, que o noir futurista presta uma homenagem mais honesta ao falecido diretor Stanley Kubrick do que “A.I.”, o projeto do cineasta de “Laranja Mecânica” que Spielberg herdou. Tal opinião parece um exagero. Os dois filmes flagram um cineasta no ápice do domínio da linguagem cinematográfica. Talvez não exista outro diretor do primeiro time de Hollywood, na atualidade, que domine tão bem a arte de dirigir um filme. Pode-se discordar das posições éticas assumidas pelo ato de apontar diretamente aos olhos do público, sem margem para subjetividades, aquilo que ele deseja mostrar, mas não dá para discutir sua técnica de narrar uma história através de imagens.

É interessante notar que a morte de Kubrick soltou as últimas amarras que prendiam Spielberg ao cinema mais convencional. “Minority Report” não esconde em nenhum momento a profunda influência que as obras do primeiro exercem no pupilo. Pelo contrário: em uma rápida tomada logo na abertura, Spielberg presta uma homenagem-síntese ao mentor, quando a líder de um trio de videntes, Agatha, emerge de sua piscina-prisão murmurando a palavra “assassinato” (murder, em inglês). A cena remete a uma seqüência antológica do clássico “O Iluminado”, um dos grandes filmes de Stanley Kubrick.

Agatha (Samantha Morton, excelente), a líder do trio de paranormais que trabalha para a polícia de Washington, é a peça-chave no complicado enredo de “Minority Report”. O filme se passa em 2054. A capital norte-americana vem testando uma nova unidade da polícia, denominada Pre-crime, há seis anos. Funciona assim: os paranormais têm visões de assassinatos antes que eles aconteçam. Por meio de um sofisticado sistema computadorizado, essas visões são transformadas em imagens. O trabalho do policial John Anderton (Tom Cruise) é descobrir o local exato onde o crime vai se materializar e prender o assassino antes que ele cometa o crime.

Por si só, essa trama já introduz o espectador num debate ético-filosófico. Seria admissível prender alguém que, em teoria, não é ainda um criminoso? E a situação dos paranormais, que vivem presos numa espécie de cyber-banheira, sem que ninguém tenha a menor compaixão diante dessa situação? Enquanto nos introduz à discussão, logo nas primeiras seqüências, Steven Spielberg mostra John Anderton desvendando um crime previsto por Agatha. As imagens são magnéticas. A atenção do espectador está capturada em poucos minutos. A primeira hora do filme é realmente uma obra-prima.

A situação começa a ficar complicada na seqüência, quando um agente do FBI, Danny Witwer (Colin Farrell, muito bom), começa a investigar possíveis falhas no sistema. Por coincidência, os cognitivos prevêem que o próximo homicídio em Washington será cometido pelo próprio Anderton, dentro de 36 horas. Ele não acredita: como será capaz de matar um homem que não conhece? E foge.
A perseguição, cheia de lances envolventes e figuras bizarras, ocupa o restante do filme.

O roteiro de “Minority Report” foi escrito a partir de uma narrativa curta do escritor norte-americano Philip K. Dick, o mesmo homem que escreveu o conto inspirador de “Blade Runner”, um dos clássicos do pós-modernismo no cinema. E Dick, embora muita gente não saiba, sofria de problemas psiquiátricos graves. Era esquizofrênico e enfrentou, nos últimos anos de vida, delírios de perseguição – primeiro, achava que estava sendo seguido pelos soviéticos, e escrevia longas cartas à CIA relatando os delírios. Depois, passou a suspeitar que a própria agência estivesse lhe espionando.

Tendo em vista esse histórico pessoal, não é difícil imaginar porque o futuro imaginado por Dick é tão sombrio, ameaçador, totalitário. Mas engana-se quem acredita que somente ele pensa assim. Ao decidir filmar “Minority Report”, a primeira providência de Spielberg foi reunir um grupo de especialistas para tentar visualizar como seria o futuro dentro de cinqüenta anos. Cientistas, matemáticos, urbanistas, policiais, arquitetos, escritores, publicitários de vários centros de excelência acadêmica nos EUA se reuniram durante um final de semana, num hotel em Los Angeles, para discutir e pôr no papel as idéias futuristas.

Os resultados, segundo Spielberg, foram bastante diversos, mas um ponto em comum emergiu do brainstorm: todos achavam que as liberdades individuais seriam reduzidas. A perda de privacidade, assim, ganhou ainda mais destaque do que o conto que inspirou o filme. As dezenas de pequenas invenções tecnológicas que preenchem os cenários secundários foram todas pensadas tendo em vista esse poder totalitário. Dessa maneira, as embalagens de alimentos são interativas, os outdoors perseguem as janelas dos edifícios e leitores de íris monitoram todos os passos dos cidadãos. A questão do olhar tecnológico, perceba, é recorrente dentro do enredo.

A direção de arte, por sinal, foi determinante para o trabalho de Spielberg. Bem ao estilo do mestre Kubrick, o cineasta dá preferência a cores frias, com predominância do azul, e imprime aos atores um estilo de atuação gélido, que permite ao público distanciar-se o suficiente da ação, estimulando-o a refletir, a pensar o conteúdo do filme. É a tendência inversa do cinema-pipoca contemporâneo, que parece sempre querer agarrar o espectador pela camisa e puxá-lo para dentro da tela, através do ritmo frenético (ausente em “Minority Report”) e das cores abrasivas, que impedem a reflexão e, por conseqüência, a crítica do que se vê.

A lamentar, apenas, a trilha sonora estridente e um tanto monocromática do velho John Williams. Recordista de indicações ao Oscar e autor de tantos temas memoráveis da história do cinema (para lembrar o leitor, basta citar a “Marcha Imperial” de “Guerra nas Estrelas”, a música de “E.T.” e a canção inesquecível de “Indiana Jones”), Williams vem se repetindo nos últimos trabalhos. Além disso, o filme, bem ao estilo de “Inteligência Artificial”, também parece acabar duas vezes antes de fechar a cortina definitivamente. Mas isso não interfere no resultado final.

O DVD do filme, duplo, repete a fórmula de Spielberg, com um único extra de peso: um grande documentário de 90 minutos, dirigido pelo velho parceiro Laurent Bozereau e dividido em cinco partes,que cobrem todo o projeto (desde as reuniões com os especialistas no futuro até a pós-produção, com os efeitos especiais). Sem comentários em áudio (Spielberg jamais gravou um e garante que nunca vai fazê-lo, por achar que o filme deve falar por si só), o filme acaba se valendo do espaço extra em disco para acrescentar uma trilha em DTS, o formato de som mais avançado da atualidade.

– Minority Report – A Nova Lei (Minority Report, EUA, 2002)
Direção: Steven Spielberg
Elenco: Tom Cruise, Collin Farrell, Max Von Sydow, Samantha Morton
Duração: 148 minutos

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