Miss Potter

25/09/2007 | Categoria: Críticas

Bonitinho, filme não se decide se é sátira metalingüística, comédia romântica, drama trágico vitoriano ou libelo ambiental

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Um ditado popular em Pernambuco (talvez em outros lugares do Brasil também) diz que bonitinho é a mesma coisa que feio arrumadinho. Esta definição se aplica perfeitamente a “Miss Potter” (EUA/Inglaterra, 2006), primeira incursão da atriz texana Renée Zellweger no território da produção executiva. Simpático, ligeiro e inofensivo, o título aposta numa atmosfera de encantamento infanto-juvenil para garantir diversão descompromissada a casais estressados que deram duro no trabalho durante toda a semana, e estão a fim de programas suaves para desopilar e tirar as preocupações da cabeça. Sem qualquer ousadia formal ou narrativa, o filme cumpre este objetivo. É bonitinho.

Na verdade, este é o tipo de produção a que se aplicam todos os diminutivos carinhosos que se possa imaginar. É um filme fofinho, cheirosinho, lindinho, engraçadinho, que não ofende ninguém. Difícil não gostar de um produto assim. Pouco provável, contudo, que alguém o considere mais do que diversão sem compromisso. Curiosamente, o tema principal tem rendido uma série de longas-metragens bem mais instigantes (“Anti-Herói Americano”, “Adaptação”), já que procura radiografar o processo criativo de um artista, algo que normalmente envolve sangue, suor e dor, pois escritores costumam sofrer bastante para parir suas obras-primas. Não é o caso de Beatrix Potter (Zellweger), a autora de livros infantis mais vendida do século XX. Escrever e desenhar bichinhos falantes, para ela, era a coisa mais natural do mundo. Pelo menos é esta a versão que “Miss Potter” nos vende.

Para ilustrar o processo criativo da escritora inglesa, destacando a imaginação inesgotável e o talento natural da moça para contar histórias, o diretor Chris Noonan (de “Baby – O Porquinho Atrapalhado”) coloca os atores para contracenar com animais desenhados, mas não abusa muito da metalinguagem (ou seja, seres humanos e personagens de ficção só aparecem na mesma cena de vez em quando). A narrativa é bem convencional, se concentrando principalmente na fase do florescer profissional da escritora, no final do século XIX, quando encontrou um jovem e corajoso editor (Ewan McGregor) que apostou na publicação de livros coloridos e a transformou em sucesso internacional.

O maior problema é que o filme aborda uma série de aspectos da vida de Beatrix Potter, mas não se concentra em nenhum, terminando por construir um retrato extremamente superficial da autora. Potter é construída como um amálgama de outros personagens anteriormente interpretados por Renée Zellweger. Há nela tantos traços da também inglesa Bridget Jones (a teimosia, a índole rebelde e traços da mesma carência afetiva) que é natural suspeitar, a certa altura do primeiro ato, que o filme vai se transformar numa espécie de “O Diário de Bridget Jones” na era vitoriana.

Demonstrando insegurança, contudo, Noonan logo abandona o flerte com o pós-feminismo da personagem-ícone da atriz, passando a flertar com uma abordagem diferente a cada nova cena. Assim, o filme ora parece uma sátira metalingüística, ora uma comédia romântica, ora um dramalhão vitoriano de tintas trágicas, ora um libelo ambiental estilo Greenpeace-de-jaqueta-e-cartola. O resultado é um filme cheio de momentos agradáveis, temperado com a ótima química do casal protagonista (Ewan McGregor e Renée Zellweger já haviam trabalhado juntos no razoável “Abaixo o Amor”, de 2003, com bons resultados, e aqui repetem a parceria certeira), mas sem personalidade. Rende uma sessão fílmica despretensiosa, nada mais do que isso. É o tipo de filme que some da memória minutos após a projeção.

O DVD, lançado pela Buena Vista, tem boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1).

– Miss Potter (EUA/Inglaterra, 2006)
Direção: Chris Noonan
Elenco: Renée Zellweger, Ewan McGregor, Emily Watson, Lloyd Owen
Duração: 92 minutos

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