Miss Simpatia 2

31/08/2005 | Categoria: Críticas

Apenas o carisma de Sandra Bullock salva uma das comédias mais repetitivas dos últimos tempos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

Sandra Bullock começou a carreira como atriz, virou produtora dos filmes que estrela e caminha inabalável para se tornar uma grife em Hollywood. “Miss Simpatia 2 – Armada e Perigosa” (Miss Congeniality 2: Armed and Fabulous, EUA, 2005), continuação do sucesso que a lançou na comédia em 2000, confirma o talento da atriz para provocar risadas. Mas o custo disso é alto: com idéias pobres, direção burocrática e roteiro repetitivo, o filme tem tudo para confinar a carreira da atriz em um gueto muito difícil de sair. Sandra já recebeu o carimbo de “comediante”, algo que pode até encher os bolsos dela de dólares, mas também pode comprometer qualquer intenção dramática maior que ela tenha. É uma verdadeira maldição em Hollywood.

Para produzir “Miss Simpatia 2”, Bullock se cercou de muitos rostos conhecidos. O roteirista Marc Lawrence, responsável pelo texto do primeiro filme e diretor da produção seguinte da atriz, “Amor à Segunda Vista”, está de volta. Aqui, Lawrence escreve e produz. Parte do elenco de “Miss Simpatia” também retorna, como William Shatner e a bela Heather Burns, que faz a Miss EUA, Cheryl Frazier. Nos cinco anos que separar o volume 1 do volume 2, no entanto, grande parte do frescor da comédia de 2000 se evaporou.

Não há dúvida que os atores Benjamin Bratt (intérprete do policial Matthew, interesse romântico da protagonista de “Miss Simpatia”) e Michael Caine, especialmente o último, fazem muita falta na continuação. O sumiço do primeiro retira o tempero romântico do longa-metragem e o transforma em uma aventura previsível com toques cômicos. Já Caine faz falta mesmo pelo talento. Como se sabe que ambos chegaram a negociar a participação na continuação, fica evidente que a saída dos dois aconteceu por pura questão financeira.

Ao que parece, contudo, não foi somente no elenco que os cortes orçamentários aconteceram. O roteiro burocrático e repleto de clichês, elaborado por Marc Lawrence, não transparece a mínima preocupação em garantir inteligência e boas tiradas para substituir as duas ausências. Um bom exemplo é a falta de uma solução bem bolada para explicar o sumiço dos dois personagens que faltam. Um dos casos é inadmissível: o consultor de moda Victor Malling (Caine) é substituído por um concorrente, chamado Joel (Diedrich Bader), sem ser sequer mencionado.

O outro caso foi mais complicado, porque os acontecimentos do novo filme foram situados apenas três semanas depois do primeiro. Como não poderia simplesmente fingir que o namorado da protagonista não existia, Marc Lawrence armou uma cena constrangedora, em que o agente termina a relação com um telefonema, no qual a platéia não pode nem ouvir a voz do ator do outro lado da linha, uma convenção que Hollywood raramente desrespeita. Péssima idéia.

Sem o apelo romântico, “Miss Simpatia 2” prefere ser uma aventura cômica, algo como a contraparte feminina da série “48 Horas”, com Eddie Murphy e Nick Nolte. A agente Gracie Hart (Bullock) virou celebridade nacional e passou a ser reconhecida em cada esquina; esse problema faz com que o disfarce dela caia bem no meio de uma perigosa prisão, mostrada na primeira cena do longa-metragem. Confrontada com o problema, ela é forçada a virar uma espécie de relações públicas do FBI, ganhando a companhia indesejável de outra policial (Regina King), que lhe serve como guarda-costas. O nome da agente, Sam Fuller, é uma das raras boas piadas do longa-metragem, mas ninguém na platéia parece notar a referência a um dos mais importantes diretores dos EUA. Uma pena.

Quando a Miss EUA e o organizador do concurso de beleza, Stan Fields (Shatner), são seqüestrados, a dupla é enviada a Las Vegas para lidar com a mídia. Elas fazem uma versão feminina do desgastado clichê “parceiros-que-não-se-aguentam-mas-são-obrigados-a-se-aturarem”. A investigação que se segue tem algumas piadas bacanas, mas a maioria você já ouviu antes. As duas parceiras brigam no lobby do hotel, perseguem uma celebridade verdadeira acreditando que estão atrás de uma sósia e atraem a fúria de um superior, o chefe do escritório do FBI na cidade, agente Collins (Treat Williams). Banal, e pior: é longo demais.

“Miss Simpatia 2” só não é um desastre completo por causa de Sandra Bullock. A atriz demonstra um timing cômico impecável e absoluta naturalidade no papel da moça desleixada que é obrigada pelas circunstâncias a se embonecar. É ela a dona das seqüências mais engraçadas, a maioria concentrada nos primeiros 30 minutos de projeção; a abertura, em que ela entra em desespero tentando convencer uma mulher histérica de que não é a famosa Gracie Hart em pleno assalto a banco, é um ótimo exemplo.

De fato, é uma pena que Sandra Bullock esteja entrando de livre e espontânea vontade no gueto dos artistas milionários e entediados, que repetem o mesmo filme apenas para continuar na ativa. O problema já está ultrapassando o status de especulação, como demonstra o fracasso da estrela em produzir o drama “Menina de Ouro”.

A história é a seguinte: Bullock tinha os direitos de filmagem do projeto e queria ser a protagonista, mas não convenceu nenhum estúdio a investir nela, e nenhum diretor de prestígio quis dar o aval à produção. O resultado todos nós conhecemos: Bullock passou o projeto adiante, o roteiro aterrisou no colo de Clint Eastwood e o filme virou o grande vencedor do Oscar 2005. É a tal da maldição, lembra?

O DVD, lançado pela Warner, contém o filme com imagem no corte original (widescreen 2.35:1) e som Dolby Digital 5.1. Uma galeria de cenas cortadas (12 minutos), um pequeno segmento de erros de gravação e um trailer completam o disco.

– Miss Simpatia 2 – Armada e Perigosa (Miss Congeniality 2: Armed and Fabulous, EUA, 2005)
Direção: John Pasquin
Elenco: Sandra Bullock, Regina King, Henrique Muciano, William Shatner
Duração: 115 minutos

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