Missão Impossível 2

01/01/2006 | Categoria: Críticas

John Woo filma violência com elegância, mas registra filme de aventura mais fraco de Tom Cruise

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

“Justamente por isso é que ele é o Woo”, brinca o astro Tom Cruise, em entrevista que vem no DVD norte-americano de “Missão Impossível 2” (Mission: Impossible 2, EUA, 2000). O ator está se referindo às coreografias bem boladas e cheias de estilos que o diretor chinês mais famoso de Hollywood bolou para encher os olhos da platéia que, todos sabiam, iriam lotar os cinemas para ver a continuação do megasucesso de Cruise. A verdade é essa mesmo: a produção do filme é de Tom Cruise, o rosto bonito do galã está em quase todas as cenas, a maior parte da grana das bilheterias foi parar no bolso dele, mas o filme tem a cara de John Woo. Ao mesmo tempo, não deixa de ser cinemão estéril.

Como explicar isso? É fácil, muito simples: John Woo não é um gênio que chegou aos Estados Unidos para revolucionar os filmes de ação. Ele apenas transportou para as telas mundiais um estilo peculiar de edição desenvolvido na Ásia, alternando takes super-rápidos e em câmera lenta, dando maior ênfase e importância aos sons e à música. Também adaptou para Hollywood as coreografias fantásticas que o cinema oriental já fazia há anos – com grana e supercomputadores, as brigas ficam ainda mais realistas.

De certa forma, o filme dá ao espectador aquilo que ele espera. Tem as marcas registradas de John Woo: as seqüências milimetricamente editadas (a escalada do penhasco, a perseguição de carros no início e a de motos no final são de tirar o fôlego), uma trama subliminar que envolve amor e sacrifício, as pombas brancas. A sensação, no entanto, é de que o diretor desta vez se embriagou com os elogios e fez o filme bêbado. Porque, entre os vinte primeiros minutos e a meia hora final, o que se vê é um interlúdio romântico interminável, sublinhado com uma única cena de ação. E isso é um defeito sério para um filme de porrada.

O grande furo do roteiro, na verdade, está na personalidade do agente secreto Ethan Hunt (Tom Cruise). Evitando o estereótipo canalha do sedutor boa-praça visto no primeiro filme, ele vira um bon vivant sensível que se apaixona por uma ladra (Thandie Newton, belíssima) logo no primeiro encontro, durante uma perseguição de carros – uma das melhores cenas do filme, onde a câmera lenta de Woo funciona com perfeição. O problema é que ela precisa se inflitrar na casa de um antigo amante, Sean Ambrose (Dougray Scott), para descobrir o que ele pretende fazer com um vírus poderoso que roubou. E o pobre e lindo Tom Cruise fica de coração partido.

Daí para a frente, John Woo exagera no estilo e faz uma quantidade tão absurda de seqüências com câmeras lentas que a gente acaba se espreguiçando na cadeira – algo que não acontecia no primeiro filme, de Brian De Palma. Ainda por cima, Woo não deu sorte. A briga final entre Cruise e Scott acabou parecendo fraca, porque apareceu apenas alguns meses depois do primeiro “Matrix”, cujas seqüências de luta já têm lugar na história.

De qualquer forma, não é um filme ruim. Tom Cruise pode não ser um gênio mas é bom ator. Os exageros de John Woo não emperram totalmente a fluidez da obra, cuja narrativa tem falhas mas funciona com eficiência. O problema, na verdade, é aquela velha máxima: quando a expectativa é grande demais, a ela sempre se segue desapontamento. “Missão Impossível 2” é apenas um filme de ação interessante, uma Sessão da Tarde sofisticada e milionária.

Como DVD, o lançamento da Paramount vai além. São dois discos, sendo o segundo repleto de documentários que esmiúçam os bastidores das filmagens, as coreografias e os efeitos especiais. A cópia do filme no disco 1 (em formato wide anamórfico e com excelente som Dolby Digital 5.1) está ótima. Completam o pacote o clipe da canção que o Metallica compôs para os créditos finais e uma brincadeira da MTV, com Ben Stiller (impagável) fazendo o “dublê” de Tom Cruise.

– Missão Impossível 2 (Mission: Impossible 2, EUA, 2000)
Direção: John Woo
Elenco: Tom Cruise, Dougray Scott, Thandie Newton, Ving Rhames
Duração: 144 minutos

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