Missão Impossível 3

26/09/2006 | Categoria: Críticas

Terceira aventura da série foca mais nos personagens, tem boas cenas de ação e diverte o público com inteligência

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

A aproximação entre as linguagens praticadas por cinema e televisão é um fato já analisado por muita gente. É curioso notar, contudo, que o fenômeno vem acontecendo ao mesmo tempo nos Estados Unidos e no Brasil, mas de forma oposta. Aqui, é a estética de TV – abundância de closes, iluminação unidimensional, cenários artificiais – que migra para a telona. Nos EUA, acontece o contrário: o cinema invade a telinha. Ninguém duvida que o sucesso de séries como “Lost”, por exemplo, tem raiz na produção mais cuidadosa, no roteiro mais detalhista, na direção mais caprichada, elementos que vêm da Sétima Arte. O arrasa-quarteirão “Missão Impossível 3” (Mission: Impossible 3, EUA, 2006) está aí para comprovar esse raciocínio em grande estilo, já que marca a estréia em tela grande do mais badalado homem de TV dos últimos tempos: J.J. Abrams.

O criador do já citado seriado “Lost” é responsável também pelos sucessos de “Alias” e “Felicity”, três das séries mais cultuadas dos EUA. No entanto, Abrams jamais foi reconhecido pela habilidade em dirigir, algo que fez pouco – apenas dois episódios de “Lost”, dois de “Felicity” e três de “Alias”. No entanto, tem bagagem como roteirista e possui a fama de ser hábil na construção de uma boa dinâmica de personagens. Foi exatamente por causa dessa fama que o astro e produtor Tom Cruise o convidou para ocupar o posto de diretor do terceiro filme da série. Fã de “Alias”, Cruise achava que a série precisa de um cineasta novato, que injetasse sangue novo e fosse menos estilista. Alguém mais interessado em mostrar um herói humano, de carne e osso, com desejos e angústias, do que em coreografar cenas de ação estilizadas, como fizeram Brian De Palma e John Woo nos filmes 1 e 2 da franquia, respectivamente.

De qualquer forma, é surpreendente que Abrams estréie como diretor de cinema em um filme com orçamento de US$ 150 milhões. É possível que esta seja a estréia mais cara de um cineasta em Hollywood, em todos os tempos. O risco, porém, deu resultado, pois J.J Abrams conseguiu cumprir o objetivo. “Missão Impossível 3” é o mais humano exemplar da série, apostando até mesmo em certo realismo (embora não chegue a ser um “Batman Begins”) e apresentando o agente Ethan Hunt (Cruise) como um sujeito comum, que tem pesadelos, hesita antes de aceitar uma missão arriscada e sofre pela mulher que ama. Tudo bem que o rapaz ainda é capaz de proezas impressionantes, mas sem elas a franquia não seria mais sobre o maior espião do mundo, certo?

Por outro lado, erra quem imagina que o longa-metragem pretende revigorar o filme de espionagem. “Missão Impossível 3” não deseja ser a oitava maravilha do mundo, quer apenas divertir o público sem menosprezar a sua inteligência. É um filme sem muito humor, que se leva a sério e tenta dar maior densidade aos personagens. Algo raro no gênero, até inclui seqüências que mostram o herói na vida caseira. Mas essas cenas são poucas, e no resto do tempo o thriller segue a receita típica, sem inovar, narrando uma história que inclui os elementos mais comuns do gênero, como o chefe burocrático e chato, um traidor de identidade desconhecida e a esposa do protagonista em perigo. O resultado final não é uma obra-prima, mas diverte o público com inteligência e cumpre tudo o que promete.

A grande inspiração do roteiro, assinado pelo diretor e pela dupla Alex Kurtzman e Roberto Orci, é o longa-metragem “True Lies” (1994). A idéia central vem do filme de James Cameron: agente secreto que deseja levar uma vida normal precisa resolver caso complicado enquanto a mulher não faz idéia de sua verdadeira profissão. Assim, a médica Julia (Michelle Monaghan) pensa que Ethan Hunt é um pacato agente de tráfego. O agente, já veterano, está deixando o trabalho de campo para se tornar treinador de novatos promissores. É obrigado a retornar ao batente, porém, quando descobre que uma aluna brilhante (Keri Russell) foi seqüestrada por um perigoso contrabandista de armas (Philip Seymour Hoffman, no primeiro trabalho após ganhar o Oscar por “Capote”) em Berlim. É o início de uma jornada que vai levá-lo a corridas alucinantes pelo Vaticano e pelas ruas estreitas de Xangai.

O filme de J.J. Abrams não tenta simplesmente copiar “True Lies”, buscando nele apenas uma idéia que serve como inspiração. Há até uma citação visual, espécie de homenagem, na cena em que o carro de Ethan Hunt é atacado por um avião ao atravessar uma ponte – existe uma seqüência idêntica no filme de 1994, que acontece na mesmíssima ponte. Mas o tom do filme com Arnold Schwarzenegger é mais picaresco, divertido, bem-humorado.

“Missão Impossível 3” tem pouco humor (os dois momentos mais engraçados ocorrem com a presença de Simon Pegg, diretor de “Todo Mundo em Pânico”, em ponta como um analista de computador) e não dispensa os tradicionais momentos constrangedores de dramalhão romântico, típicas cenas que causam constrangimento na platéia e desconforto nos atores. Não há como imaginar, por exemplo, que uma pessoa de carne e osso chegue a interromper uma frenética tentativa de salvá-lo da morte apenas para dizer “eu te amo”. Há inclusive um casamento-surpresa com alianças de brinquedo seguido de sexo selvagem, uma bobagem desconcertante, que só funciona como pausa para respirar da generosa quantidade de seqüências de ação.

Além disso, a produção também apela sem cerimônia para os clichês típicos dos filmes de ação: o carro com o herói dentro que pára na beira de um precipício, o salto impossível que termina com o mocinho pendurado por uma mão do lado oposto do abismo, está tudo aqui. Também as marcas registradas da série batem ponto, como o uso de esportes radicais inseridos na trama (desta vez, Tom Cruise salta como Tarzã de um prédio para outro e, de sobremesa, faz base jump em um arranha-céu chinês), a habilidade especial de Ethan Hunt para construir máscaras perfeitas, e a participação de atores de qualidade. Estão aqui Lawrence Fishburne, Billy Crudup, Jonathan Rhys Myers e, claro, o já citado Seymour Hoffman, que é o vilão, abre o filme em uma cena tensa, mas aparece menos do que o desejado.

O dado mais positivo de “Missão Impossível 3” vem justamente do background televisivo de J.J. Abrams. Acostumado a trabalhar com dublês e evitar o excesso de efeitos digitais que dão o tom das aventuras mais recentes, o cineasta realizou um filme com seqüências de ação um pouco mais realistas, mais físicas, sem edição muito frenética ou coreografias muito elaboradas. Não há os excessos de estilo de John Woo ou Brian De Palma, nem tampouco a estética documental (câmera na mão e múltiplos cortes por segundo), agregada aos filmes de espionagem desde que Paul Greengrass fez “A Supremacia Bourne” (2004).

O resultado é um filme de espionagem com narrativa clássica, em que o público compreende perfeitamente tudo o que está acontecendo na tela, bem como o objetivo das ações de cada personagem envolvido. As melhores passagens, como o ataque na ponte (que inclui uma tomada realista que mostra o estrago feito pelo movimento do ar causado por uma explosão no corpo de alguém) e o resgate comandado em Berlim por Ethan Hunt (que fecha com uma assustadora perseguição aérea em um campo de energia eólica), se beneficiam desse estilo clássico e dão ao público exatamente aquilo que se espera de uma aventura protagonizada por Tom Cruise: emoção. Não é uma obra-prima, mas diverte.

O DVD da Paramount é simples e sem extras. O filme tem qualidade impecável de imagem (widescreen anamórfica) e som (Dolby Digital 5.1).

– Missão Impossível 3 (Mission Impossible 3, EUA, 2006)
Direção: J.J. Abrams
Elenco: Tom Cruise, Philip Seymour Hoffman, Ving Rhames, Michelle Monaghan
Duração: 126 minutos

| Mais
Tags:


Deixar comentário