Moça com a Valise, A

04/09/2007 | Categoria: Críticas

Longa de Zurlini investiga o amor fadado ao fracasso com rigor formal impressionante

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

A virada entre as décadas de 1950 e 60 passou à história do cinema como um instante singular para a sétima arte. Enquanto Hollywood entrava numa crise de identidade que só seria resolvida com a ascensão de uma nova geração (Coppola, Scorsese), alguns anos à frente, grandes mestres europeus eram responsáveis por sucessivos choques de qualidade no cinema narrativo. Na Itália, em particular, o ambiente era fértil: Fellini fazia a transição do realismo para um universo onírico muito particular, Antonioni poetizava o tédio e a incomunicabilidade, Visconti registrava a decadência da nobreza. No meio desses gigantes, um jovem realizador desconhecido ousou assinar uma obra-prima: “A Moça com a Valise” (La Ragazza com la Valiglia, Itália/França, 121 minutos).

O segundo longa-metragem de Valerio Zurlini pinçava uma temática clássica do melodrama – o amor fadado ao fracasso, grande tema da obra do diretor – e lhe dava um tratamento de rigor formal impressionante. Embora não ficasse a dever nada às produções geniais do período (“A Aventura”, “A Doce Vida”, “O Leopardo”), “A Moça com a Valise” cometia, aos olhos da turma jovem que dominava a crítica internacional da época, um pecado crucial: era cinema narrativo clássico. Não tentava esticar os limites daquilo que o cinema narrativo podia dar conta, como faziam cineastas mais experimentalistas e festejados, como os já citados Fellini e Antonioni, ou os franceses Godard e Resnais. Zurlini era “apenas” um artista comum. Tinha alma de poeta – o “poeta da melancolia”, como ficaria conhecido – e olho de pintor.

Por diversas razões, “A Moça com a Valise” não recebeu aclamação internacional. Zurlini também ficaria à sombra dos demais diretores italianos, compondo uma espécie de segunda divisão do cinema daquele país, junto com outros cineastas tão talentosos quanto ele, mas pouco valorizados pela crítica – gente como Sergio Leoni e Mario Monicelli. Faria somente outros sete filmes no decorrer de uma curta carreira. E seria reabilitado apenas depois de morto, ao longo principalmente da década de 1990, com a restauração cuidadosa dos filmes originais e lançamentos caprichados em DVD. “A Moça com a Valise” acabou por se tornar o filme mais conhecido dele. É, certamente, um dos melhores.

A história começa com uma garota (Claudia Cardinale) sendo abandonada, de forma cruel, pelo amante. Depois de tirá-la do emprego com falsas promessas, o rapaz a larga numa oficina mecânica em uma cidade que ela mal conhece, com apenas uma mala e de carteira vazia. Aos poucos, vamos conhecê-la: é Aída, uma humilde bailarina, que cantava jazz numa banda e agora está sem trabalho, por causa do amante safado. Furiosa e infeliz, Aída está num beco sem saída. A única pessoa que lhe dá atenção é Lorenzo (Jacques Perrin), jovem de 16 anos que ela conhece ao tentar encontrar o amante no endereço que ele lhe dera. Lorenzo é irmão do canalha, mas Aída não sabe disso. E ele também não diz nada, porque se apaixona perdidamente após trocar algumas palavras com ela.

“A Moça com a Valise” acompanha, com delicadeza, o desenvolvimento deste amor fadado à ruína. No nível narrativo, tudo é excepcional: o roteiro desenvolve os dois personagens com cor, profundidade, textura e nuances de realismo, enquanto o diálogo soa natural e espontâneo. O estilo de Zurlini favorece as ótimas interpretações do par central. A mise-en-scéne é cuidadosamente planejada, com longas tomadas sem cortes, dentro das quais os personagens se movimentam de forma leve, transitando entre o primeiro e o segundo plano em belas composições. As transições entre as cenas são inteligentes e criativas; numa delas, a câmera focaliza a mão do rapaz pegando timidamente a da moça, cortando em seguida para a mão da tia dele o esbofeteando, quando ele chega em casa tarde da noite. A fotografia de Tino Santoni, aliás, captura lindamente os espaços vazios dos ambientes chiques, e trabalha de forma magnífica com o preto-e-branco, valorizando ainda mais as composições talhadas por Zurlini.

Apesar da temática próxima do melodrama, algo valorizado pela trilha sonora repleta de pérolas do cancioneiro italiano, a abordagem de Zurlini é delicada e cheia de sutilezas, sem ceder às tentações de julgar a moral dos personagens. Aliás, nenhum dos dois protagonistas conseguiria emplacar num filme de Hollywood, já que a relação entre eles se constrói, desde o primeiro momento, com base em mentiras e dissimulações. Lorenzo, é claro, mente compulsivamente para conseguir, a custo do dinheiro da família, se manter próximo a Aída. A mulher também não é má pessoa (nunca tenta se aproveitar da situação, por exemplo), mas também está longe de ser ingênua. Ela percebe o que está acontecendo, mas prefere calar. Por medo da pobreza iminente ou por se sentir finalmente amada, ela dá corda a Lorenzo. Pobres diabos.

Na verdade, a relação é regida pelo signo do desespero. Aída teme que a falta de opções profissionais a remeta de forma definitiva para o caminho da prostituição, algo que parece cada vez mais perto e inevitável. Já Lorenzo teme que a mulher mais velha lhe escape por entre os dedos, caso o dinheiro e os presentes parem de jorrar. O drama de ambos explode numa noite glamourosa, em que o jovem apaixonado toma um porre enquanto vê a amada dançar de rosto colado com homens mais velhos do que ele. Zurlini, que usa close ups com economia, acentua a dor do momento – especialmente para o rapaz – contrapondo o rosto desesperado e meio bêbado do rapaz com o olhar aflito da mulher, ao som de uma canção que versa sobre as dores de um primeiro amor: “Nunca mais amarás alguém como agora”, diz a música. Belo e amargo, “A Moça com a Valise” é o tipo de filme que causa um impacto muito forte em qualquer pessoa que tenha vivido um primeiro amor intenso.

A edição especial, lançada no Brasil pela Versátil, tem excelente qualidade de áudio (Dolby Digital 2.0) e vídeo (widescreen 1.85:1 anamórfico), e uma penca de extras. São cinco featurettes – mais de 90 minutos no total – contendo entrevistas com importantes colaboradores do cineasta (roteirista, produtor, diretor assistente e crítico), mais uma apresentação especial contextualizando o relativo desconhecimento de Zurlini no Brasil, com Rubens Ewald Filho.

– A Moça com a Valise (La Ragazza com la Valiglia, Itália/França, 121 minutos)
Direção: Valerio Zurlini
Elenco: Jacques Perrin, Claudia Cardinale, Luciana Angiolillo, Renato Baldini
Duração: 121 minutos

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