Mondovino

13/10/2005 | Categoria: Críticas

Jonathan Nossiter investe contra a globalização em documentário sobre a produção de vinhos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

“Mondovino” (França, 2004) não é um filme para muita gente. Para começar, é um documentário, gênero tradicionalmente discriminado em países como o Brasil. Em segundo lugar, o filme discorre sobre a cadeia de produção de vinhos, uma bebida que também não é popular em terras tropicais. Por último, depõe contra a produção a longa metragem: são 135 minutos, tempo considerado longo até mesmo para obras de ficção. Isso tudo não quer dizer que “Mondovino” seja ruim. É impossível resistir à tentação do trocadilho: como um vinho refinado, “Mondovino” foi feito para poucos felizardos. Sua qualidade é específica e sutil demais para o paladar do cinéfilo comum.

Jonathan Nossiter, o diretor, tem intimidade com o Brasil. Apaixonado por vinhos e criador das cartas de bebidas de alguns famosos restaurantes nova-iorquinos, ele é casado com uma brasileira e vive no Brasil desde 2004. Dessa maneira, não chega a ser exótico demais descobrir que a primeira imagem de “Mondovino” não mostra os vinhedos de clima temperado das regiões vinícolas de França ou Itália, mas os calorentos coqueirais de Petrolina, no sertão de Pernambuco. A pequena cidade do Vale do Rio São Francisco é um dos lugares visitados por Nossiter na sua jornada para oferecer ao espectador um mapa da produção internacional de vinhos.

Nas entrevistas dadas por ocasião do lançamento do filme nos cinemas, o cineasta nega ter dado conotação ideológica ao filme, afirmando que filmou “uma comédia humana” à moda de Balzac, e que nesse estilo cabem as idiossincrasias e contradições dos produtores de vinhos espalhados ao redor do mundo. Não há dúvida de que o aspecto curioso do projeto aparece no filme, mas a edição final traz uma forte crítica ao conceito de globalização (ou melhor, ao movimento homogeneizante, padronizador, subjacente a ele), o que lhe transforma num produto ideológico, sim. Mesmo que não intencional, o filme é ideológico.

Nossiter montou a película fincado numa idéia firme de polarização entre dois grupos. Ele classifica e categoriza os produtores de vinhos em dois grandes grupos: os pequenos produtores, que fabricam a bebida de forma artesanal e valorizam os aspectos individuais que a terra, ou a região, emprestam a ela; e os grandes produtores, que lançam mão de técnicas industrializadas para a produção de bebida de sabor bastante homogêneo, sem importar em que lugar do mundo ela é produzida.

Não é preciso de muitas entrevistas para que o público perceba que com que lado Jonathan Nossiter simpatiza mais. Até na montagem, quando contrapõe os grupos através de um formato Davi X Golias, isso fica evidente. Pessoas como a família Moldavi (os maiores produtores dos EUA), o crítico Robert Parker (nome mais respeitado do mundo, com nariz segurado em US$ 1 milhão) e o consultor Michel Rolland (um francês risonho que fala o tempo todo em micro-oxigenação de vinhos) tendem a serem mostrados em situações embaraçosas, às vezes até caricaturais. Nossiter até dedica certo tempo a mostrar as atividades flatulentas do cão de estimação de Robert Parker, o que rende uma cena engraçadíssima.

Ainda que haja algumas restrições na parte técnica (o trabalho de câmera é pobre, a captação de som jamais passa do razoável, a duração é quase proibitiva), o panorama internacional da produção de vinhos está bem representado em “Mondovino”. E, ao contrário do que se possa imaginar, o filme não fica restrito ao interesse dos apaixonados pela bebida. É um libelo que cutuca a globalização – ou pelo menos a maneira como ela vem sendo efetivada – com vara curta, mas sem esquecer do humor e do espírito libertário que são essenciais para o bom cinema.

O lançamento em DVD no Brasil acontece pelas mãos da Vídeo Filmes. Pelo capricho, não é uma edição que comumente se espera de um documentário, categoria que costuma sofrer nas mãos das distribuidoras brasileiras. O disco tem áudio (Dolby Digital 2.0) e enquadramento (widescreen 1.78:1) originais. Tem também um precioso extra: o sexto episódio (52 minutos) da série original de 10 horas que resultou no documentário – vale lembrar que o conjunto dos dez episódios existe em uma caixa francesa de DVDs. O extra está legendado em português. Para os amantes do filme, é um prato cheio. Ou um cálice.

– Mondovino (França, 2004)
Direção: Jonathan Nossiter
Documentário
Duração: 135 minutos

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