Monstro da Lagoa Negra, O

13/07/2004 | Categoria: Críticas

Autêntico filme B prova que criatividade rende bons frutos mesmo quando limitada por falta de dinheiro

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

King Kong visita a floresta amazônica. Essa descrição básica resume perfeitamente “O Monstro da Lagoa Negra” (The Creature From the Black Lagoon, EUA, 1954), o último dos autênticos filmes B produzidos pelos estúdios Universal. Nada no tema do longa-metragem sugere que ele poderia sobreviver ao tempo e ganhar uma caprichada edição em DVD, mas isso aconteceu – e por um motivo muito justo: os monstros da Universal passaram, com o tempo, a serem vistos e respeitados como um filão do cinema capaz de gerar, sob condições difíceis de produção, muitas inovações.

No caso específico de “O Monstro da Lagoa Negra”, o avanço conseguido pelo filme tem méritos técnicos inegáveis, talvez mais do que qualquer outro dos filmes B da Universal. Para materializar as longas seqüências de perseguição subaquáticas exigidas pelo roteiro, o fotógrafo William E. Snyder foi obrigado a criar uma nova câmera, 100% vedada, capaz de ser manipulada dentro da água com desenvoltura. Snyder não apenas conseguiu o feito como obteve, com a ajuda do novo equipamento (basicamente, um câmera montada dentro de uma caixa metálica hermeticamente fechada, com um tampão de vidro em um dos lados), imagens de qualidade impressionante até para o século XXI. Mais: as inseriu dentro de um trabalho ágil, inteligente e criativo.

Na verdade, a filmagem orquestrada pelo diretor Jack Arnold foi cerca de cuidados incomuns (para esse tipo de filme) com os detalhes. Se você assistir cuidadosamente aos 79 minutos do longa-metragem, vai perceber que a criatura – uma mistura de homem e anfíbio – jamais solta bolhas de ar pelas guelras, quando está submersa. Para conseguir a proeza e ainda assim ser capaz de produzir longas cenas sem cortes embaixo da água, Arnoldo contratou um mergulhador profissional que pudesse vestir a roupa de borracha do monstro e passar pelo menos quatro minutos sem respirar. A lógica de Arnold era perfeita: se existisse de verdade, o hominídeo não respiraria como um sujeito comum.

O ponto fraco desse legítimo filme B, como praticamente todos os produtos da linhagem Universal, é o enredo, superficial e derivativo em excesso. No filme, uma expedição entra no rio Amazonas para investigar o fóssil de uma pata, encontrado numa região de difícil acesso. Os cientistas acreditam que o achado arqueológico pode revelar uma espécie inédita, uma espécie de elo perdido entre mamíferos e anfíbios. O que não sabem é que um único exemplar da criatura ainda vive, numa lagoa da região – um local cercado de mitos. O que se segue é uma trama a la “King Kong” (1933), conduzida com perícia pelo diretor.

“O Monstro da Lagoa Negra” é um excelente exemplo de como um cineasta pode conseguir, mesmo com limitações (baixo orçamento, uso de clichês em excesso no trama), realizar um filme criativo e com méritos cinematográficos. A fotografia do já mencionado Snyder alcança um alto padrão visual, aproveitando as exóticas locações na selva e unindo-as às cenas subaquáticas de maneira fluida, com iluminação perfeita. A montagem de Ted J. Kent também se destaca por dar o ritmo adequado ao enredo, retardando a aparição da criatura e aproveitando ao máximo os momentos em que ela surge para criar suspense.

O DVD do filme é um produto cuidadoso. O filme é apresentado com imagens restauradas e som Dolby Digital Mono 1.0. Ás imagens estão límpidas, e a banda sonora livre de chiados. O pacote vem acompanhado por um comentário em áudio (legendado em português) extremamente minucioso, em que o pesquisador Tom Weaver detalha o processo de filmagem da obra. Há um ótimo documentário de 40 minutos, também com legendas, com informações sobre a construção da roupa do monstro, a criação da câmera submarina e suas duas seqüências, ambas inferiores. Completam o DVD um trailer oficial e uma galeria completa de imagens estáticas (fotos, pôsteres) da produção. Material de colecionador.

– O Monstro da Lagoa Negra (The Creature From the Black Lagoon, EUA, 1954)
Direção: Jack Arnold
Elenco: Richard Carlson, Julie Adams, Richard Denning, Antonio Moreno
Duração: 79 minutos

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