Monstros S/A

25/09/2003 | Categoria: Críticas

Filme confirma padrão altíssimo de qualidade da produtora Pixar, com trama encantadora para crianças e adultos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

O ano de 2001 vai passar para a história do cinema como um marco da cronologia da animação digital. Além disso, deve entrar firme na disputa pelo título de ano com a safra mais criativa de filmes com temática infantil. Tudo bem, a associação imediata que fazemos na memória do período é com o peso-pesado “Shrek”. Além de conquistar o primeiro Oscar da categoria recém-criada de Melhor Longa de Animação, o bicho-papão da DreamWorks ganhou elogios da crítica e uma porção de fãs ardorosos entre os adultos. Enquanto isso, a empresa pioneira na área, a Pixar, trabalhava na moita. O resultado foi uma obra-prima da animação infantil: “Monstros S/A” (Monsters Inc, EUA, 2001).

Para não entrar em polêmica, basta dizer que o longa da empresa de San Francisco (EUA) atinge, no mínimo, o mesmo patamar de criatividade do concorrente mais famoso. “Monstros S/A” teve menos publicidade e críticas menos entusiásticas. Também atingiu os cinemas com furor menos bombástico. Para compensar isso, fez uma carreira extremamente longa e terminou o ano garantindo um total de espectadores, ao redor do mundo, um pouco maior do que o rival. E a qualidade da animação computadorizada, bem, essa é de arrepiar os cabelos mesmo. Até o brasileiro Carlos Saldanha, co-diretor do desenho “A Era do Gelo” e diretor do estúdio adversário Blue Sky, capitulou, reconhecendo a superioridade da Pixar no terreno da qualidade visual dos produtos.

Sim, mas chega de papo sobre informática e números. O que interessa mesmo é o filme, certo? Então, pode correr para a primeira loja de DVDs (ou locadora) que encontrar aberta. “Monstros S/A” é emocionante e engraçadíssimo, um espetáculo visual encantador para crianças e um filme delicioso para adultos. Sabe aqueles chavões sobre o trabalho que consegue agradar a integrantes de diversas faixas etárias, que desperta a criança dos 8 aos 80 anos, esse tipo de clichê? Aplicam-se perfeitamente ao filme da Pixar, que possui o toque pessoal do gênio John Lasseter (criador de “Toy Story” e gênio da arte computadorizada, babado pelo planeta inteiro) apenas da produção. Dessa vez, Lasseter preferiu entregar a batuta ao colega Pete Docter, que cumpre a função com competência.

Agora, um pequeno parêntese: “Monstros S/A” não é um clássico do cinema de animação, como foram obras inovadoras do naipe de “Fantasia” ou “Branca de Neve”. A rigor, fica difícil analisar a produção contemporânea de filmes infantis sob o prisma do cinema de autor. Não importa o estúdio, as obras sempre parecem ter o mesmo cineasta onipresente por trás das câmeras – ou melhor, das telas de cristal líquido de alta definição. A narrativa desse tipo de filme é extremamente linear e a técnica, muito semelhante. Mas, como diria a crítica de cinema mais polêmica das últimas décadas, a norte-americana Pauline Kael, o público tem todo o direito de buscar diversão sem se preocupar com originalidade, ou mesmo com qualidade artística.

É exatamente essa a grande vantagem de “Monstros S/A”: a despretensão. A Pixar não quis mudar o mundo (nem o cinema) e fez somente um filme brilhante, retrabalhando vários clichês da animação infantil com competência e habilidade técnica invejável. Na realidade, basta dar uma olhada no perfil dos personagens para perceber isso: o filme narra o encontro de dois seres visualmente repugnantes (um monstrengo feioso de coração mole e um baixinho atrapalhado e tagarela) com um ser humano ingênuo e inocente. Não parece com “Shrek”? Ou com “A Bela e a Fera”?

A diferença é que, em “Monstros S/A”, a dupla de protagonistas vive numa dimensão paralela. Eles são monstros que trabalham num fábrica destinada a fornecer energia para toda uma cidade (Monstrópolis). Lá, os funcionários são encarregados de atravessar portas, que dão para os armários de crianças humanas, para assustar os baixinhos e fazê-los gritar. Armazenados, esses gritos são a maior fonte de energia da terra dos monstros. James Sullivan é o gigante peludo recordista de sustos, enquanto o companheiro Mike fica encarregado de cuidar da parte burocrática da tarefa.

Tudo vai bem, até que uma pirralha de dois anos, Boo, entra em Monstrópolis por engano. O detalhe é que, na cidade, todos acreditam que crianças são tóxicas e podem matar os monstros, se encostarem um dedo neles. O filme narra as peripécias da dupla na tentativa de devolver a guria ao mundo humano sem ser contaminada por ela. O roteiro é perfeito, e gruda o espectador (de qualquer idade) na cadeira durante toda a projeção, com direito inclusive a surpresa no final. Além disso, a Pixar recheia o filme de seqüências impagáveis. Numa delas, os monstros vão parar no Pólo Norte e encontram com o Abominável Homem das Neves. Para rir e se emocionar, se você não tiver coração de pedra.

O DVD do filme, em si, segue uma tradição da Disney. Os lançamentos da decana empresa do Mickey em formato digital costumam ser mais episódios, porém caprichados. Este aqui honra a tradição. O disco é duplo e fica bem perto da perfeição. No Brasil, porém, como é costume das distribuidoras em lançamentos maiores, o espectador tem bons motivos para reclamar. O filme chega por aqui em fullscreen (com a imagem mutilada lateralmente para caber na telinha quadrada da TV). Perde, ainda, os comentários em áudio que acompanhavam dois curta-metragens suplementares.

Esses curtas, claro, estão entre as grandes atrações do pacote. Quem viu “Monstros S/A” no cinema deve lembrar bem do engraçadíssimo “For The Birds”, vencedor do Oscar 2001 de Melhor Curta de Animação. Já os personagens do longa voltam numa historinha curta produzida especialmente para este DVD, e chamada “O Novo Carro de Mike”. São cinco minutos interessantes. No disco 1, ainda há um comentário em áudio dos diretores.

O disco 2, muito bem produzido, está dividido em duas partes, o mundo dos monstros e o dos humanos. No primeiro caso há jogos para as crianças, pequenos featurettes explicativos do enredo, comerciais de TV que passam dentro do filme, um videoclipe, muitos erros de gravação hilariantes, informações sobre o universo de Monstrópolis e galerias de personages. É a área certa para os baixinhos completarem a experiência do filme.

Já os adultos devem preferir o mundo dos humanos. Lá, existe uma série de vinhetas e pequenos documentários que exploram a criação do roteiro, dos personagens e do visual encantador do longa-metragem. O design dos monstros, a utilização dos sons, a composição da trilha sonora e o processo de animação digital são focalizados com extrema precisão.

– Monstros S/A (Monsters Inc, EUA, 2001)
Direção: Pete Docter e Lee Unkrich
Elenco: John Goodman, Billy Crystal, Jennifer Tilly, Steve Buscemi (vozes)
Duração: 93 minutos

| Mais


Deixar comentário