Montanha dos Sete Abutres, A

24/04/2008 | Categoria: Críticas

Drama de Billy Wilder desnuda, com pessimismo, comportamento mórbido do ser humano diante de grandes tragédias

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

“Eu já menti para homens que usam cinto e também para homens que usam suspensórios, mas não seria estúpido a ponto de mentir para um homem que usa cinto e suspensórios”. Um cinéfilo tarimbado poderia se ver em dificuldades para descobrir em que filme a frase é pronunciada, mas não teria qualquer problema em identificar o autor. O cinismo, as segundas intenções, a inteligência e o bom-humor que encharcam estas palavras são as marcas registradas de Billy Wilder, um dos maiores diretores/roteiristas que já passaram por Hollywood. Ninguém precisa ter visto “A Montanha dos Sete Abutres” (Ace in the Hole, EUA, 1951) para saber que o filme é um dos trabalhos mais pessoais do diretor.

Depois que partiu de Viena, na Áustria, fugindo da perseguição nazista nos anos que antecederam a segunda guerra mundial, Billy Wilder estabeleceu uma das carreiras mais versáteis que a indústria cinematográfica pôde testemunhar. O baixinho falastrão fez obras-primas em diversos gêneros: o suspense (“Testemunha de Acusação”), o noir (“Pacto de Sangue”), a comédia (“Quanto Mais Quente Melhor”), o melodrama (“Crepúsculo dos Deuses”). Uma das características fundamentais que uniam obras de temas tão díspares era o diálogo. Wilder tinha a pena mais ferina de Hollywood. Em termos estritamente dramatúrgicos, isto até pode ser um defeito, já que boa parte dos personagens que ele criou fala da mesma maneira – mas que defeito delicioso, hein?

Recebido a pontapés por crítica e público, na época do lançamento original, “A Montanha dos Sete Abutres” acabou por se tornar um clássico sobre ética e Jornalismo. O filme ocupa um lugar pioneiro na longa linhagem de obras que versam sobre a falta de escrúpulos da imprensa, sempre pronta a explorar uma tragédia em busca de audiência. Algumas das reflexões de Charles Tatum (Kirk Douglas), o jornalista canalha que descobre um humilde mineiro soterrado numa mina e atrasa propositalmente o resgate para poder criar uma comoção nacional em torno do caso, são proféticas. “Um homem preso numa mina é melhor do que 84. Você lê sobre 84 pessoas, ou sobre um milhão, como na fome da China, e esquece. Mas um homem é diferente: você quer saber tudo sobre ele”. É o tipo de lição valiosa que não se encontra todos os dias, em salas de aula de cursos de Jornalismo.

A composição dos personagens deixa evidente que se trata de um roteiro de Billy Wilder. Tatum, o personagem principal, é um escroque inescrupuloso com tremendo faro para notícias. Ele não precisa de mais do que alguns segundos para reconhecer o potencial noticioso do caso, ao parar para abastecer o carro durante uma viagem longa e chata. Enquanto manipula o xerife e a esposa interesseira (Jan Sterling) do mineiro soterrado, ele é corroído lentamente pelo remorso. Wilder ilustra este remorso de forma magistral, visualmente, através do figurino. Tatum passa a usar simultaneamente, da metade do filme em diante, cinto e suspensórios, fazendo uma relação direta com a frase que pronuncia para convencer o chefe honesto a contratá-lo, logo na primeira cena.

O uso dos dois utensílios demonstra que ele, aos poucos, se tornou um sujeito precavido e com algum senso moral. O personagem passa por uma transformação, ao contrário do que ocorre com a principal personagem feminina (“eu nunca rezo, porque isso desfia minhas meias”). A mulher da vítima do soterramento mais parece um filhote de Barbara Stanwyck em “Pacto de Sangue” (1944) – até mesmo a peruca barata e o olhar, frio e insidioso, são idênticos. As damas fatais de Wilder são megeras até o fim, em todos os filmes dele. Para os homens, a salvação chega sempre tarde demais; para elas, nem isso. “A Montanha dos Sete Abutres” seria, portanto, uma espécie de noir torto, ambientado na poeira ensolarada – filmada, mesmo assim, em ambientes cheios de sombras e espaços largos que simbolizam o vazio moral do protagonista – do deserto norte-americano.

Além disso, demonstrando uma visão arguta sobre a natureza humana, Wilder ataca de frente o comportamento da multidão diante das grandes tragédias. A reação das pessoas às primeiras reportagens sobre a tragédia do mineiro soterrado é histérica e absolutamente realista (basta lembrar de qualquer caso rumoroso coberto de forma sensacionalista pela imprensa, como as mortes dos meninos João Hélio e Isabella Nardoni, respectivamente em 2007 e 2008): elas montam uma espécie de circo em torno do local do desabamento, um circo desnudado de forma magnífica em duas impressionantes tomadas panorâmicas, uma delas mostrando uma multidão descendo de um trem em movimento para se juntar à turba que aguarda por notícias, do lado de fora da mina.

Embora Billy Wilder já fosse um grande nome de Hollywood em 1951, o filme foi fracasso de público e crítica. A grande imprensa, compreensivelmente, caiu de pau em cima da obra, chamando-a de anti-americana e mentirosa. A Paramount, que distribuía o filme, tentou a estratégia de retirar os filmes das salas de cinema, relançando-os meses depois, com outro nome (“The Big Carnival”). Não funcionou. Alguns estudiosos atribuíram o fracasso à ausência de personagens mais agradáveis, já que todos os protagonistas são canalhas monstruosos. Foi o próprio Wilder, porém, quem matou a charada: a platéia havia rejeitado o filme porque, afinal de contas, é ela o grande vilão da trama.

“Disseram que o filme foi um fracasso, porque a esposa se revela como um monstro frio – nenhuma mulher convidaria o marido para ver esse filme. Acredito mais numa outra razão para o fracasso, a de que o verdadeiro canalha não seja nem Kirk Douglas no papel do repórter, nem Jan Sterling no papel da esposa, mas o público. O jornalista é aquele que dá comida à fera, mas não é ele mesmo a fera. É está a causa do fracasso: ninguém quer ver a si mesmo no papel de canalha. Como é que se pode despertar a curiosidade das pessoas para ver o filme, se o que se mostra a elas é a que bestiais conseqüências a curiosidade leva?”. Mais uma vez, palavras proféticas.

O longa-metragem nunca foi lançado no Brasil em DVD. A versão digital mais completa está disponível nos Estados Unidos com o selo da Criterion Collection. Vídeo (fullscreen 1.33:1, formato original) e áudio (Dolby Digital 1.0) estão restaurados e têm ótima qualidade. Os extras incluem documentário sobre a carreira de Wilder (58 minutos), entrevista com Kirk Douglas (14 minutos), trechos de um discurso de Wilder (23 minutos) e até mesmo uma análise do filme feita por Spike Lee (6 minutos).

– A Montanha dos Sete Abutres (Ace in the Hole, EUA, 1951)
Direção: Billy Wilder
Elenco: Kirk Douglas, Jan Sterling, Robert Arthur, Porter Hall
Duração: 111 minutos

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