Monty Python e o Cálice Sagrado

10/11/2006 | Categoria: Críticas

Trupe de comediantes ingleses brinca até com a falta de orçamento para realizar obra-prima

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

As piadas em “Monty Python e o Cálice Sagrado” (Monty Python and the Holy Grail, Inglaterra, 1975) começam antes mesmo do filme propriamente dito. Os créditos desta anárquica produção inglesa estão repletos de brincadeiras, que incluem mudanças bruscas na trilha sonora e no estilo da apresentação visual, que um letreiro informa ter sido terminada de maneira tosca, por dificuldades no orçamento. É a abertura perfeita para um dos filmes mais engraçados de todos os tempos.

O primeiro longa-metragem do lendário sexteto de comediantes desfila uma torrente alucinada de piadas que não poupa nada e nem ninguém – nem mesmo os próprios comediantes. A brincadeira com os créditos, que rende boas gargalhadas, é a mais pura verdade. O Monty Python (que na época da produção estava encerrando sua carreira na TV) realmente estava sem dinheiro para as filmagens. O grupo teve que contar com a ajuda financeira providencial de músicos como Roger Waters (Pink Floyd), Jimmy Page (Led Zeppelin) e George Harrison (Beatles) para bancar o orçamento de US$ 250 mil. Os roqueiros, fãs de carteirinha do Monty Python, abriram as carteiras sem cerimônia.

O filme segue a mesma linha dos esquetes cômicos que fizeram a fama do Monty Python: uma linha narrativa simples, que abre espaço para seqüências anárquicas e verborrágicas, dessas de provocar câimbras de tanto rir. Os 91 minutos são montados como uma seqüência lógica de pequenos esquetes, que poderiam muito bem ser assistidos de forma independente, sem prejuízo para a compreensão (e para as risadas) do espectador.

No longa-metragem, o rei Arthur (Graham Chapman) recruta cavaleiros para formar a Távola Redonda, até que tem uma visão divina (Deus não passa de uma foto de um jogador de críquete do século XIX!) e decide sair em busca do Cálice Sagrado. Cada cavaleiro, então, segue uma trilha própria e vive uma aventura isolada. É a oportunidade de ouro para que os seis comediantes se revezem em 35 diferentes papéis, e façam troça com a política inglesa, com os intelectuais pomposos da época e com tudo o mais que aparecer pela frente.

Um dos truques favoritos dos integrantes da gangue, aperfeiçoado ao máximo neste filme, é transformar a falta de dinheiro em piada. Uma das marcas registradas do longa (o hilariante cavalgar do séqüito de Arthur, que caminha a pé, com os integrantes batendo duas metades de cocos para produzir o som dos cascos) nasceu do custo alto para o aluguel de cavalos de verdade, o que iria inflar o orçamento a níveis proibitivos.

Em outro momento, quando a trama parece levar a uma encruzilhada narrativa, os alucinados integrantes da trupe dão um jeito de incluir uma animação no filme e “matam” o desenhista com um ataque cardíaco, para poder continuar a história como se nada houvesse acontecido.

Há uma quantidade generosa de momentos memoráveis. Eles incluem um encontro memorável entre o rei Arthur e um Cavaleiro Negro, a engraçadíssima travessia de uma ponte cujo guardião exige que os passantes solucionem uma charada para seguirem caminho, e um final exótico que brinca com a metalinguagem (ou seja, o filme se assume como filme de forma explícita, coisa que poucas produções têm coragem de fazer). E olha que não foram mencionados até aqui os legendários Cavaleiros Que Dizem Ni, sempre lembrados como uma das grandes sacadas da produção.

Dessa forma, “Monty Python e o Cálice Sagrado” confirma seu papel como uma verdadeira aula de comédia e um dos filmes mais influentes, no campo do humor cinematográfico, dos últimos 50 anos. Uma verdadeira obra-prima.

Há duas versões do filme em DVD brasileiro. A primeira, simples e da Columbia, tem trilha de áudio Dolby Digital 2.0 e imagem OK (widescreen anamórfica). A edição especial, da Sony, é dupla e recheada de extras, como dois comentários em áudio reunindo os cinco remanescente da trupe, featurettes que podem ser acessados durante a exibição do filme e, no disco 2, documentários, cenas de bastidores, entrevistas atuais com a gangue toda, trailer e piadas em geral, como um curta feito com peças de Lego. A má notícia é que essa batelada de extras não tem nenhum tipo de legendas.

– Monty Python e o Cálice Sagrado (Monty Python and the Holy Grail, Inglaterra, 1975)
Direção: Terry Jones
Elenco: John Cleese, Eric Idle, Graham Chapman, Michael Palin, Terry Gilliam, Terry Jones
Duração: 91 minutos

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