Morte de um Bookmaker Chinês, A

01/09/2009 | Categoria: Críticas

Filme de Cassavetes registra com naturalismo excruciante o submundo boêmio de uma grande metrópole

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Embora não costume ser citado como um dos pontos altos da carreira de John Cassavetes, “A Morte de um Bookmaker Chinês” (The Killing of a Chinese Bookie, EUA, 1976) reúne não apenas as melhores características do cinema despojado e vigoroso do diretor, mas também é legítimo representante da crueza urbana que caracterizou as melhores produções norte-americanas da década de 1970. Em um filme noturno, cujos personagens insones parecem estar permanentemente de ressaca, Cassavetes registra com naturalismo excruciante a fauna que habita o submundo boêmio da noite de uma grande metrópole: prostitutas, cafetões e mafiosos, quase todos vivendo como se o dia seguinte não existisse.

O projeto do longa-metragem foi desenvolvido a seis mãos. A idéia original veio do ator Ben Gazzara, com quem o cineasta vinha trabalhando desde “Os Maridos” (1970). Gazzara tinha desenvolvido o personagem principal – o dono de um clube vagabundo de streap tease, viciado em jogo e apreciados de charutos cubanos – e propôs a Cassavetes que o utilizasse em um filme. Para fazê-lo, o grande cineasta independente recorreu a um grande conhecedor da noite de Nova York, o colega Martin Scorsese, que ajudou a delinear o argumento e deu dicas preciosas sobre locações. A influência de Scorsese no filme é evidente, já que “A Morte de um Bookmaker Chinês” tem a mesma atmosfera decadente e a estética suja de obras como “Caminhos Perigosos” (1973) e, principalmente, “Taxi Driver” (1976), que Scorsese filmou ao mesmo tempo.

Há diferenças, claro. Por trás da aparência suja e granulada do filme de Scorsese há um estilo visual sofisticado, cheio de movimentos complexos e bem planejados de câmera, enquanto Cassavetes aplica à mesma estética um tratamento muito mais despojado, “qualquer nota”, bem realista e espontâneo. O elemento mais importante de uma tomada, para Scorsese, é a câmera, enquanto para Cassavetes é o ator. No geral, “A Morte de um Bookmaker Chinês” usa takes longos e poucos cortes, freqüentemente com a câmera posicionada à distância. A Cassavetes, interessa aproveitar as nuances da interpretação dos atores (as pausas, as hesitações, as inflexões, os diálogos com vozes que se sobrepõem e frases que não terminam), e não apenas registrar as falas. O que emerge desta técnica é um filme que parece improvisado, embora não seja – Cassavetes gostava de ensaiar exaustivamente cada cena, antes de registrá-la em película.

O estilo casual fornece ao longa-metragem uma energia assombrosa. “A Morte de um Bookmaker Chinês” é um filme sobre gente de verdade, gente que existe (ou que poderia existir), que vive nas entrelinhas das cidades grandes. Não há heróis e nem vilões, apenas pessoas de carne e osso tentando sobreviver. Cosmo Vitelli, o empresário da noite, é um sujeito ao mesmo tempo sofisticado (tem uma limusine e bebe champanhe de primeira qualidade) e vulgar (namora uma prostituta e usa ternos de cores berrantes aberto no peito). Ele é atencioso com suas dançarinas, mas sabe muito bem usá-las como objetos sexuais quando lhe convém. A interpretação de Gazzara, com um sorriso perene no canto da boca, é perfeita.

A história tem um molho noir, mas como é normal em Cassavetes, não segue estritamente as regras clássicas da narrativa de Hollywood (três atos, clímax no final etc.). A impressão é que Cassavetes recortou um pedaço qualquer da vida de Vitelli e o transformou em filme. O empresário da noite aparece, numa das primeiras cenas, livrando-se de uma dívida, e contraindo outra no mesmo dia. Pela reação dele e da namorada (um branco saindo com uma negra seria um casal impensável em um grande filme de Hollywood da época, mas não numa produção independente), percebemos que dívidas fazem parte do cotidiano de Vitelli. Só que desta vez ele pode ter passado do limite.

Logo, Cosmo descobre que os mafiosos a quem deve dinheiro querem que ele mate um concorrente em troca do perdão da dívida. E o pior é que ele não terá exatamente a chance de fazer uma escolha sobre a melhor maneira de lidar com o problema. Por vezes, Cassavetes se desvia do fio narrativo principal para se concentrar na rotina da boate de terceira categoria: os bêbados impertinentes, os garçons meio burros, as garotas seminuas em estado de tédio, a fauna boêmia que vira as noites acordada e dorme durante o dia, quando o sol está alto e as pessoais normais estão trabalhando. O saudável desprezo do cineasta por narrativas fechadas, com começo, meio e fim, faz de “A Morte de um Bookmaker Chinês” uma experiência estimulante para qualquer cinéfilo que deseja fugir da mesmice.

Vale observar, ainda, que existem duas versões bem diferentes da película. O filme original, de 1976, era um trabalho de 135 minutos. Após um lançamento fracassado nos cinemas, Cassavetes retornou à sala de montagem e editou um trabalho completamente diferente, eliminando um monte de seqüências (a maior parte delas mostrando a rotina do clube de streap tease), alterando a ordem de outras e inserindo trechos novos. A chamada “versão do diretor” saiu em 1978 e é bem mais conhecida. Os dois cortes podem ser atualmente encontrados no formato digital.

De fato, as duas versões do filme de Cassavetes estão disponíveis no disco duplo lançado nos EUA pela Criterion Collection. Cada versão ocupa um disco, com qualidade excelente de imagem (widescreen 1.85:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 2.0). A versão mais curta também pode ser encontrada em um DVD simples, com formato alterado de imagem (1.33:1). No Brasil, a versão do diretor (a de 135 minutos) saiu em DVD em versão simples, com o selo da Cinemax, sem extras.

– A Morte de um Bookmaker Chinês (The Killing of a Chinese Bookie, EUA, 1976)
Direção: John Cassavetes
Elenco: Ben Gazzara, Timothy Carey, Seymour Cassel, Robert Phillips
Duração: 108/135 minutos

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