Morte do Demônio, A

19/06/2005 | Categoria: Críticas

Primeiro filme de Sam Raimi é exemplo criativo de como fazer bom cinema com pouco dinheiro

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Um clichê comum, quando uma pessoa se refere a jornais populares, diz que se você espremer as páginas da publicação, escorre sangue. Adaptada a alguns filmes de horror cujo público-alvo é formado por jovens, a frase poderia dizer que o sangue escorre do projetor dessas películas. O que pouca gente sabe é que a cena descrita existe de verdade, e é exibida em “A Morte do Demônio” (Evil Dead, EUA, 1981), filme tosco de US$ 50 mil, concebido e rodado por um diretor iniciante, que se tornaria título de referência para nove entre dez produções de terror jovem rodados em Hollywood, a partir dos anos 1980.

Por ter sido produzido de forma saudavelmente distante da indústria de Hollywood, “A Morte do Demônio” (a versão nacional do título original é uma bizarra tentativa de tradução para algo como “Mortos Malignos”) não seguiu fórmulas; pelo contrário, ele ajudou a criá-las. Talvez sem acreditar que pudesse lançar o filme nos cinemas, o diretor Sam Raimi – futuro “dono” da franquia do Homem-Aranha – não obedeceu a nenhuma barreira de censura, realizando um banho de sangue com toques de humor negro que é um verdadeiro show de maquiagem. Sim, “A Morte de Demônio” pode ser descrito como uma aula de dicas para produzir um filme criativo com orçamento vagabundo.

O enredo tem ligeira inspiração na obra do escritor de terror H.P. Lovecraft. O romancista foi o responsável pela criação do Necromicon, ou “Livro dos Mortos”, uma espécie de obra legendária, perdida, que conteria conjurações de demônios e feitiços capazes de fazer os mortos se levantarem dos túmulos. No seu filme, Sam Raimi simplesmente põe cinco jovens para passar um final de semana em uma cabana, no meio do mato, sem saber que uma publicação maldita nos mesmos moldes do Necromicon encontra-se escondida no porão.

No ambiente inóspito, os rapazes encontram o livro, feito com carne e sangue humanos, junto com gravações deixadas pelo arqueólogo responsável por desencavar o volume maligno. Sem entender a maldição, os rapazes cheios de hormônios e loucos por sexo lêem algumas passagens e despertam antigos demônios que vivem na floresta. A partir daí, o filme exibe um verdadeiro show de atrocidades que incluem cenas antológicas, como uma garota arrancando a própria mão a dentadas, uma cena para desviar os olhos envolvendo um lápis enfiado em um tornozelo e um estupro cometido por uma árvore (!).

A direção criativa de Sam Raimi fica evidente quando se sabe um pouco sobre as condições de produção. O cineasta precisou filmar a segunda parte do longa-metragem, por exemplo, sem contar com nenhum ator além do chapa Bruce Campbell, que interpreta Ash, o herói da produção. Os rapazes e moças contratados não puderam esperar que a verba da produção chegasse às locações e debandaram. Por isso, membros da equipe técnica puseram a nauseante maquiagem dos demônios para poder completar as filmagens.

Além disso, Raimi não pôde alugar uma steadycam (equipamento especial, bastante caro, popularizado por Stanley Kubrick em “O Iluminado”) para realizar as apavorantes seqüências da câmera subjetiva do demônio, quando as forças malignar caminham por entre as árvores em direção aos jovens desprevenidos. Para fazer as seqüências, que se tornariam coqueluche nos filmes de terror dos anos vindouros, Raimi construiu e operou pessoalmente uma versão tosca do equipamento, especialmente preparado para operar no bosque, oferecendo assim a perspectiva dos seres sobrenaturais. Essas são as seqüências mais assustadoras do filme.

O que muitos incautos não conseguem perceber é o senso de humor bizarro da produção. O já citado sangue escorrendo do projetor é apenas um dos exemplos, mas há diversas seqüências que, se vistas da perspectiva correta, provocam risos nervosos no espectador. A própria maquiagem exagerada dos demônios, como se a Linda Blair de “O Exorcista” houvesse sido possuída por mais dois ou três seres de igual calibre simultaneamente, não deixa dúvida de que a hiperviolência vista na tela não passa de brincadeira que não pode ser levada a sério.

“A Morte de Demônio” abriu um filão lucrativo para o cinema norte-americano, tornando-se um dos filmes pioneiros do chamado terror adolescente. Além disso, realizou no cinema a revolução “do it yourself” que os Sex Pistols já haviam feito na música, ao provar para todos os aspirantes a cineastas que era possível, sim, fazer filmes criativos e inteligentes sem muito dinheiro. Projetos como “A Bruxa de Blair” devem tudo, e um pouco mais, à exagerada obra de estréia de Sam Raimi.

Jamais lançado no Brasil nos cinemas, “A Morte de Demônio” saiu no Brasil em DVD em uma edição fraca. A Top Tape colocou em bancas de revistas, na verdade, duas edições do disco, com a mesma capa. Uma edição tem uma galeria de cenas cortadas da edição final (20 minutos) e trilha de áudio Dolby Digital 2.0. A outra edição contém um documentário e som mais apurado, no formato DD 5.1. Nos EUA, há várias edições, mas a principal traz o filme restaurado, com documentários, galerias de fotos e comentários em áudio de Raimi e Campbell, em uma embalagem que reproduz o design do Livro dos Mortos. Item de colecionador.

– A Morte do Demônio (Evil Dead, EUA, 1981)
Direção: Sam Raimi
Elenco: Bruce Campbell, Ellen Sandweiss, Hal Delrich, Betsy Baker
Duração: 85 minutos

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