Morte do Sr. Lazarescu, A

04/01/2007 | Categoria: Críticas

Filme romeno é excelente exemplo de cinema econômico e minimalista, contando histórias reais de gente miúda

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Todos os anos, uma série de filmes obscuros, feitos com orçamentos minúsculos e atores desconhecidos, ganham a atenção de cinéfilos do mundo inteiro quando conseguem se destacar no Festival de Cannes, o mais glamouroso da temporada européia de prêmios. Em 2005, uma pequena comédia de humor negro romena alcançou notoriedade ao vencer a segunda mostra mais importante da competição, Un Certain Regard. “A Morte do Sr. Lazarescu” (Moartea Domnului Lazarescu, Romênia, 2005) é um excelente exemplo de cinema econômico e minimalista, em que histórias miúdas de gente anônima oferecem um sensível e poderoso retrato da condição humana, com todas as suas idiossincrasias.

Antes de aportar em Cannes, o diretor Cristi Puiu era um ilustre desconhecido oriundo de Bucareste, capital romena e território virtualmente invisível no mapa do cinema internacional. O cineasta saiu do festival não apenas respeitado, mas com chances reais de fazer carreira em algum mercado mais importante, como França ou mesmo EUA. Não quis. Preferiu voltar à Romênia para dar seqüência ao projeto de filmar seis longas-metragens pequenos e despojados, enfocando histórias de gente comum nos subúrbios de Bucareste, com um estilo naturalista que evoca nuances do cinema de Krysztof Kieslowski, mas com uma dureza que o diretor polonês nunca teve.

“A Morte do Sr. Lazarescu” abre a referida série com propriedade, oferecendo um panorama tragicômico do sistema de saúde do país do Leste europeu, e encontrando ainda espaço para tecer comentários sócio-políticos sobre a solidão na velhice e a couraça de brutalidade que a Medicina parece ter o poder de criar em pessoas que travam contato diário com a morte. É algo que parece tão natural para médicos e enfermeiros, e tão cruel para o resto de nós. Descrito como comédia de humor negro pelo próprio realizador, o filme não parece uma. Há uma fina camada de humor tipicamente europeu que cobre o enredo como verniz, um humor negro sofisticado, mas o impacto do filme é muito mais social do que cômico.

Em estética, “Lazarescu” é puro Dogma 95: inteiramente filmado com luz natural (a tonalidade imperfeita das imagens amareladas fornece um degrau a mais de urgência e realismo à história), em longas tomadas sem cortes, com câmera na mão. Não existe trilha sonora – só ouvimos música duas vezes, durante os créditos de abertura e encerramento. É um filme duro, simples, despojado, em que a estética não possui qualquer significado especial, sendo ditada unicamente pelas condições de produção. A atuação conjuntamente fabulosa do elenco inclusive sugere a impressão de que se trata de um documentário.

A história se passa em uma única madrugada, praticamente em tempo real. A câmera segue Lazarescu, um velho aposentado de 62 anos, em uma odisséia por quatro hospitais públicos de Bucareste. Lazarescu (Ion Fiscuteanu) vem sofrendo com dores de cabeça há quatro dias, e a coisa fica realmente ruim depois que ele, numa noite especialmente solitária, decide tomar um porre de bebida feita em casa – uma escolha terrivelmente errada, como ele logo vai perceber. Aos poucos, entre um telefonema e outro, vamos captando fragmentos da vida daquele senhor: é viúvo, tem uma filha adulta que mora no Canadá e não fala mais com ele, não possui amigos e é refém de um sistema de saúde falido.

O elenco, quase todo formado por atores amadores de meia idade, é simplesmente fantástico. Graças aos atores, parece que Lazarescu é um homem de carne e osso, existe de verdade, e está mesmo ali, morrendo aos poucos, na nossa frente. As atuações espontâneas ajudam a criar uma galeria fascinante de personagens muito humanos, como a paramédica que fica tocada com a situação cada vez pior de Lazarescu (e sua solidão), o médico nervoso que grita com os pacientes da emergência lotada e o casal de jovens doutores que parece mais interessado em encontrar um carregador de celular do que em atender o pobre coitado com incontinência urinária. Enfim, um filme impressionante.

O longa não foi lançado comercialmente no Brasil, embora tenha sido exibido nas mostras de São Paulo e Rio de Janeiro, no segundo semestre de 2005. Em DVD, é possível ter acesso ao disco da Região 1 (EUA). A qualidade do filme é excelente, com imagem correta (widescreen anamórfica) e som OK (Dolby Digital 5.1). O único extra é uma entrevista com o diretor.

– A Morte do Sr. Lazarescu (Moartea Domnului Lazarescu, Romênia, 2005)
Direção: Cristi Puiu
Elenco: Ion Fiscuteanu, Luminita Gheorghiu, Gabriel Spahiu, Doru Ana
Duração: 153 minutos

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