Morte Não Manda Recado, A

06/03/2008 | Categoria: Críticas

Sam Peckinpah chega o mais próximo que consegue da comédia romântica em faroeste leve e poético

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Apesar de a ação se passar na época do Velho Oeste, “A Morte Não Manda Recado” (The Ballad of Cable Hogue, EUA, 1970) é um dos filmes mais diferentes de Sam Peckinpah. Filmado logo após a amargura escancarada do clássico “Meu Ódio Será Sua Herança” (1969), o longa-metragem soa como um refresco, a bonança depois da tempestade, férias após um trabalho extenuante. Lírico e muitas vezes abertamente cômico, “A Morte Não Manda Recado” aborda o tema recorrente da obra de Sam Peckinpah – o fim do Velho Oeste – de um ponto de vista inusitado, leve, ainda que melancólico. Soa como se o diretor estivesse passando por uma fase alegre, bem para cima, durante as filmagens.

Os especialistas em Peckinpah refutam essa tese. Os bastidores de “A Morte Não Manda Recado” continuaram a ser tão tumultuados quanto os de todos os outros filmes do diretor. As gravações, que aconteceram em locações reais no estado do Novo México, foram assoladas por tempestades e longos períodos de mau tempo, e nesses intervalos o diretor e parte da equipe corriam para o bar mais próximo. Ao final dos trabalhos, o boteco registrou uma conta de US$ 70 mil. Além disso, os acessos de fúria de Peckinpah foram responsáveis por diversas demissões na equipe. Tudo isso fez o diretor estourar o orçamento e, mais uma vez, enfurecer a Warner, estúdio que bancava o filme.

Interessante notar que nem uma polegada desse clima hostil vazou para dentro do filme. “A Morte Não Manda Recado” é o mais próximo que um cineasta misógino e amargo como Peckinpah poderia chegar de criar uma comédia romântica. Chama a atenção, sobretudo, pela sinopse genial, que exemplifica, à maneira cínica do diretor, o sonho americano – enriquecer a partir de uma idéia original e muito trabalho duro. O protagonista é um minerador de nome exótico, Cable Hogue (Jason Robards). No início do filme, Hogue é abandonado por dois antigos comparsas no meio do deserto, para morrer de sede. Por sorte, ele encontra água onde menos esperava e consegue sobreviver.

Descobre, então, que está à beira de uma estrada. A via liga duas cidades distantes quase 70 quilômetros uma da outra, ele está no meio desse trajeto, e não existe nenhum local para que diligências que levam pessoas de um lado para o outro possam descansar. Hogue tem a idéia, então, de aproveitar a descoberta de água no local e abrir um entreposto comercial, com restaurante e cocheira, que sirva para que cavaleiros e viajantes em geral possam parar para comer, descansar e alimentar os cavalos. Ele enriquece e fica por lá, com um único objetivo em mente: rever os dois amigos que o traíram e se vingar deles.

Ao contrário dos protagonistas habituais de Peckinpah, Cable Hogue não é um homem amargo e desiludido, mas um sujeito simplório e teimoso como uma mula. Durante visita à cidade mais próxima, ele cai de amores por uma prostituta (Stella Stevens), que também se apaixona por ele. Mas é um amor impossível. Hogue é um homem do campo, um solitário, que gosta genuinamente de morar no deserto, recebendo visitas ocasionais do mulherengo reverendo Joshua (David Warner). O agora comerciante não pensa em nada mais que não seja a futura vingança; tem certeza de que seus inimigos passarão pelo entreposto algum dia. Já Hildy sonha com a cidade grande, é ambiciosa e pretende se mudar para San Francisco.

O amor impossível é filmado por Peckinpah com leveza e poesia. O diretor até arrisca pôr um pé na comédia física, filmando algumas cenas com humor estilo pastelão, inclusive acelerando a imagem para criar um efeito semelhante aos filmes antigos (pense nos curtas de Charles Chaplin). Embora alguns momentos sejam brilhantes – a piada da nota de cinco dólares sorrindo quando Hogue vê Hildy é genial – há outros em que a veia cômica parece desajeitada e capenga. “A Morte Não Manda Recado” soa, aqui e ali, como se uma pessoa sem talento para piadas estivesse contando um caso hilariante – o público sente que por trás do piadista sem graça existe uma boa história.

Para contrabalançar esses momentos irregulares, Peckinpah premia o espectador com uma montagem cuidadosa e cheia de estilo, que inclui o uso de split screen, com tela dividida em até quatro cenas distintas. Também é preciso destacar a qualidade das interpretações: Jason Robards dá show de naturalidade no papel do barbudo Cable Hogue, e David Warner rouba várias cenas como o pastor picareta que só pensa em mulher pelada, estabelecendo-se como o maior destaque da parte cômica do filme. Já a dentuça Stella Stevens não se faz de rogada, tira a roupa em duas seqüências, revela um belo corpo e mantém boa química com o protagonista.

Além de tudo isso, é preciso destacar ainda a importância da música no cinema de Peckinpah, que tinha excelente ouvido para canções. O próprio título original do filme (“A Balada de Cable Hogue”, sendo que baladas, neste sentido, significam longas poesias musicadas em que menestréis narram a vida de uma pessoa) já indica uma tentativa explícita de dar ao longa-metragem um ritmo musical, o que de fato acontece. A maior parte da poesia de “A Morte Não Manda Recado” provém da interação entre imagem e música. Para isso, o compositor Jerry Goldsmith fugiu das habituais orquestrações e preparou uma trilha repleta de baladas rústicas levadas com violão e banjo, que casam perfeitamente com as imagens empoeiradas. Enfim, este é um filme obscuro pelo qual Peckinpah tinha grande carinho, e que possui bom potencial para agradar os admiradores do diretor.

A Warner lançou em DVD simples uma cópia restaurada e muito boa do filme, nos EUA. Os extras incluem um comentário em áudio com quatro especialistas/biógrafos de Peckinpah, e um featurette com uma longa entrevista de Stella Stevens (27 minutos). Já o DVD nacional, da Continental, elimina os extras e mantém a cópia, com enquadramento correto (widescreen 1.85:1 anamórfico) e áudio em dois canais (Dolby Digital 1.0).

– A Morte Não Manda Recado (The Ballad of Cable Hogue, EUA, 1970)
Direção: Sam Peckinpah
Elenco: Jason Robards, Stella Stevens, David Warner, Strother Martin
Duração 121 minutos

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