Morte num Beijo, A

11/02/2006 | Categoria: Críticas

Noir de Robert Aldrich envolve o espectador em atmosfera de desorientação e pesadelo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

A primeira imagem de “A Morte num Beijo” (Kiss Me Deadly, EUA, 1955) é inesquecível. Uma mulher desesperada, descalça e vestida apenas com um roupão, corre à noite no meio de uma estrada. Quem é ela? De que está com medo? As perguntas pipocam na cabeça do espectador, ao mesmo tempo em que os créditos aparecem e provocam mais estranhamento, pois sobem pela tela de baixo para cima, ao invés do contrário, que seria o normal. Combinadas, os dois elementos inovadores anunciam uma obra sombria e impactante, que ousa trabalhar além dos limites do film noir para construir uma atmosfera de pesadelo constante.

Visto em retrospectiva, “A Morte num Beijo” é um audacioso comentário pessimista sobre a paranóia da Guerra Fria e o medo de um Holocausto atômico, fantasmas que assombravam a população norte-americana do período. Seguindo a tradição do noir, Aldrich utiliza personagens ambíguos e amorais, além de um visual repleto de sombras e espaços escuros, para comentar a situação política da época. Talvez por isso, o Congresso dos EUA chegou a colocar o longa-metragem no topo de uma lista de produções não-recomendáveis à juventude, sob a alegação de que a obra propagava valores morais distorcidos.

Uma observação curiosa é que Aldrich parece ter perseguido intencionalmente a sensação de desorientação que a platéia compartilha com o protagonista, o detetive particular Mike Hammer (Ralph Meeker). Na época, por exemplo, não era comum que um personagem secundário fosse apresentado, na primeira cena, de modo tão incisivo. Assim, Hammer pára o carro para dar carona à mulher assustada, imaginamos que o ponto de vista da narrativa será o da moça. Calculadamente, Aldrich dá ao casal o tempo necessário para rápidas apresentações, e para que a platéia imagine que o filme enfocará o relacionamento dos dois. Lego engano.

Pois depois, após uma parada num posto de gasolina, o carro de Hammer é parado e eles são pegos por um bando de sujeitos bem-vestidos. A moça, que não quis explicar de quê estava fugindo, é torturada e morta; Hammer escapa quase por milagre, pulando do carro após ele ser jogado numa ribanceira. Para aumentar ainda mais a desorientação de Hammer (e de nós, do lado de cá da tela), os gângsteres falar de ressurreição. O detetive não entende nada, e nós também não, mas decide investigar o caso. Só então fica claro que o verdadeiro protagonista é Mike Hammer. Com essa extravagância de retardar a anunciação do personagem principal, Aldrich antecipava “Psicose”, de Alfred Hitchcock, em cinco anos.

A investigação de Hammer não é fruto de altruísmo ou preocupação por uma mulher que mal conheceu, mas apenas alimento para o próprio ego; afinal, ele foi espancado e perdeu um carro novinho (“você é o tipo de cara que só olha para si, que malha para não ter barriga”, diz a mulher, quando o vê) por algo que não entende. Sim, Mike Hammer é o mais amoral e desagradável de todos os detetives noir. Investigadores clássicos do estilo, como Sam Spade, são duros e cínicos, mas mantêm um senso claro de justiça, coisa que Hammer não possui. Ele é um homem capaz de mandar a própria amante – a secretária, que ele se recusa a assumir como namorada – sair com outros homens, só para conseguir uma informação.

Utilizando métodos incomuns como esse, Hammer dribla as tentativas de policiais e bandidos para frear a investigação que conduz, e segue rastreando as pistas escassas, que o levam a se deparar com jornalistas desaparecidos, cientistas e barões da máfia, todos envolvidos com um caso complicado, que a envolvente narrativa conduzida por Robert Aldrich jamais explica totalmente. Essa é, afinal, uma característica dos melhores filmes noir: a atmosfera é mais importante do que o enredo, coisa que “A Morte num Beijo” honra com folga. O final é uma pérola que teve grande influência em “Pulp Fiction”, de Quentin Tarantino. Grande filme.

O DVD brasileiro foi lançado pela Continental. A qualidade geral é apenas razoável, com imagem ligeiramente arranhada (formato original 4:3) e som OK (Dolby Digital Mono). O principal extra é a montagem original do final do filme, apresentada em segmento separado de menos de um minuto. Apesar da curta duração, a mudança é considerável – e bastante sombria, ficando claro o motivo de tal montagem ter sido vetada pelo estúdio.

– A Morte num Beijo (Kiss Me Deadly, EUA, 1955)
Direção: Robert Aldrich
Elenco: Ralph Meeker, Albert Dekker, Paul Stewart, Juano Hernandez
Duração: 106 minutos

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