Morte Passou por Perto, A

27/02/2006 | Categoria: Críticas

Segunda longa-metragem de Kubrick é exemplo de que dinheiro não é tudo no cinema

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

O norte-americano Stanley Kubrick fez parte de um privilegiado grupo de cineastas que teve, durante grande parte de sua carreira, liberdade absoluta para dirigir filmes. Desde meados dos anos 1960, já considerado gênio em Hollywood, ele assinou um contrato com a Warner que lhe dava direito de escolher tema, elenco e equipe técnica dos filmes, além de ter direito ao corte final de cada longa-metragem. Mas nem sempre foi assim. O segundo filme dele, o noir “A Morte Passou por Perto” (Killer’s Kiss, EUA, 1955), é um bom exemplo de como um bom cineasta pode, mesmo com recursos técnicos e orçamentários limitados, criar uma obra de alta qualidade.

“A Morte Passou por Perto” foi concebido pelo cineasta aos 26 anos. Na época, Kubrick era um jovem fotógrafo talentoso que queria migrar para o cinema, mas ainda precisava provar que dominava as técnicas de narrativa cinematográfica. Ele arrecadou com amigos a magra quantia de US$ 40 mil para produzir todo o filme. Por isso, acumulou nele as funções de diretor, produtor, roteirista, fotógrafo, editor de som e imagem. A experiência lhe valeria um conhecimento íntimo das engrenagens que movem o cinema e, apesar de não ter rendido um filme perfeito, mostrou ao mundo que ali estava um cineasta completo, capaz de criar obras-primas se tivesse condições decentes de trabalho. Kubrick vendeu o filme à MGM por US$ 75 mil e levantou as sobrancelhas de muitos executivos. Nascia uma lenda.

Ao criar a história de “A Morte Passou por Perto”, o diretor utilizou os elementos fundamentais do estilo noir. Os personagens são pessoas decadentes e moralmente ambíguas; as imagens utilizam uma iluminação expressionista, cheia de sombras e grandes porções escuras; a narração em off narra o filme como um grande flashback. Alguns pesquisadores recusam ao longa-metragem o rótulo de noir por duas razões: (1) o filme foi produzido após o apogeu do gênero (anos 1930/40), e (2) não existe nele um detetive e nem uma trama de investigação. Bobagem, pois “A Morte Passou por Perto” recende um aroma noir inconfundível.

A história é contada por um boxeador em fim de carreira. Davey Gordon (Jamie Smith) tem 28 anos e um cartel repleto de vitórias, mas com nove derrotas em lutas-chave. E é após outro adversário atingir seu “queixo de vidro”, com diz um locutor, que Davey volta para casa melancólico. Por acaso, quando se prepara para dormir, ele escuta uma briga furiosa entre uma dançarina (Irene Kane) e seu cafetão (Frank Silvera). A garota mora no apartamento em frente, e Davey vai em seu socorro. Ele não sabe, mas está começando a se envolver em um caso amoroso de desenrolar imprevisível.

Os defeitos técnicos são evidentes na obra. O som, por exemplo, não tem profundidade, e a sincronia labial dos atores é terrível. Por causa do orçamento ridículo, Kubrick não pôde gravar os diálogos ao vivo, e todos os atores tiveram que dublar suas partes em estúdio, o que dá a indisfarçável sensação de um filme artificial. A atriz principal, embora bonita, tem uma atuação hesitante, quase amadora. Além disso, os flashbacks constantes interrompem o ritmo do filme, especialmente na longa e desnecessária seqüência de balé envolvendo o passado da dançarina.

Por outro lado, o cineasta faz um trabalho digno de nota na iluminação expressionista, e já apresenta os elegantes travellings laterais que se tornariam uma marca registrada no futuro. A primeira tomada do local de trabalho da dançarina, com a câmera passeando sem pressa pelo salão de dança lotado até encontrar Gloria dançando com um marinheiro, é um excelente exemplo. Para completar, o clímax inclui uma perseguição realista e agitada sobre um telhado, e uma luta coreograficamente irrepreensível, numa sala repleta de manequins humanos, na mais memorável cena do longa..

Existem duas edições brasileiras em DVD. Uma é da Cinemagia, e a outra é da Fox. Nos dois casos, não existem extras dignos de registro. A cópia da Fox, distribuidora oficial do filme, tem melhor qualidade de imagem. As duas mantêm o formato original (full 4:3) e têm som Dolby Digital 1.0.

– A Morte Passou por Perto (Killer’s Kiss, EUA, 1955)
Direção: Stanley Kubrick
Elenco: Frank Silvera, Jamie Smith, Irene Kane, Ruth Sobotka
Duração: 67 minutos

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