Morte Pede Carona, A

06/05/2004 | Categoria: Críticas

Presença do holandês Rutger Hauer garante a qualidade do suspense eficiente e cultuado da década de 1980

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

A canção “Riders on the Storm”, do grupo The Doors, apresenta algumas imagens perturbadoras. “Há um assassino na estrada”, canta Jim Morrison, a certa altura da letra, cujo título poderia ser traduzido como “Viajantes na Tempestade”. A canção é a inspiração, assumida pelo roteirista Eric Red, de um dos filmes de terror B mais cultuados da década de 1980: “A Morte Pede Carona” (The Hitcher, EUA, 1986). O DVD brasileiro do longa-metragem comprova que ele resistiu à passagem do tempo e continua eficiente.

O filme do diretor Robert Harmon recicla uma idéia que já havia sido explorada muito bem por um jovem Steven Spielberg, no segundo filme com a assinatura do futuro Midas de Hollywood, chamado “Encurralado”. Naquele exercício de suspense, Spielberg havia colocado um misterioso caminhoneiro, cujo rosto jamais aparecia, para perseguir incansavelmente um assustado motorista, pelas estradas desertas dos Estados Unidos. Harmon faz a mesma coisa, com duas diferenças: põe o psicopata a pé e não faz nenhum mistério quanto ao rosto dele.

A abertura de “A Morte Pede Carona” é simples e direta. O jovem Jim Halsey (C. Thomas Howell, na época um dos mais promissores astros juvenis) transporta um carro de Chicago para San Diego (Califórnia), através de milhares de quilômetros de deserto. Jim está cansado. Ele está cochilando na direção e luta para se manter desperto, enquanto trovões ao longe anunciam a iminente chegada de uma tempestade. No meio da chuva, Halsey passa por alguém que pede carona. O rapaz engata marcha à ré e apanha o ensopado sujeito, na esperança de ter alguém com quem bater papo.

John Ryder (Rutger Hauer) se revela apavorante desde o primeiro cigarro. Quando Jim faz menção de parar ao cruzar com um carro que parece abandonado, ele age de modo estranho: aperta a perna do motorista e o faz acelerar. Logo, os dois brigam. Ryder ameaça Halsey com um canivete e afirma ser o assassino em série que vem matando motoristas ao longo das estradas da região. O garoto consegue escapar com uma manobra ousada que atira o carona para fora do veículo. Mas o filme está apenas começando.

John Ryder é a figura-chave do filme, e Rutger Hauer o interpreta de modo que ele personifique à perfeição o medo irracional que todos temos do desconhecido. Se analisado com calma, o enredo de “A Morte Pede Carona” é um arquétipo do conto adolescente de terror, daquele tipo que é narrado em volta de fogueiras nos acampamentos. Os vazios olhos azuis e o sorriso cínico do holandês de rosto de pedra fornecem a máscara que personifica o medo da morte. Aperfeiçoando a persona gélida que fizera sua fama no clássico “Blade Runner”, Hauer é capaz de assustar tanto o protagonista quanto o espectador apenas com olhares e sorrisos.

A performance do ator funciona tão bem que corrige o maior erro do roteiro: mostrar constantemente onde o assassino se encontra e quais as próximas ações que fará contra o assustado Jim Halsey. Afinal, o que fazia o “Encurralado” de Spielberg manter o espectador grudado na cadeira era exatamente o fato de que jamais podíamos adivinhar de onde, e em que momento, o assassino iria surgir; isso mantinha a platéia em permanente estado de tensão. É o olhar psicopata de Rutger Hauer que conserta o equívoco e gera a tensão necessária para o filme funcionar.

Para completar, “A Morte Pede Carona” dá de brinde ao espectador uma fotografia desoladora, que explora muito bem os imensos espaços desertos da planície californiana para transmitir uma sinistra sensação de solidão. John Seale, o homem responsável por essas imagens, foi o único envolvido na produção cuja carreira seguiu em ascendência. Ele ganhou o Oscar por “O Paciente Inglês” em 1997 e continua mostrando talento em produções classe A, a exemplo de “Cold Mountain”.

Uma das melhores imagens do filme, em particular, resume e transmite o motivo pelo qual “A Morte Pede Carona” continua eficiente: o apavorado Jim Halsey correndo pela estrada, numa enorme tempestade de poeira, gritando e tentando evitar que John Ryder apanhe uma carona com outro carro. Junto com a clássica cena cultuada em que Halsey come um prato de batatas fritas com uma guloseima inesperada dentro, esse momento sozinho já valeria o filme inteiro. O DVD nacional tem som Dolby Digital 5.1 e dublagem original de 1986 em português, mas nenhum extra digno de nota.

– A Morte Pede Carona (The Hitcher, EUA, 1986)
Direção: Robert Harmon
Elenco: C. Thomas Howell, Rutger Hauer, Jennifer Jason Leigh
Duração: 97 minutos

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