Mosca, A

19/12/2007 | Categoria: Críticas

Cronenberg funde enredo simples e funcional com imagens grotescas de impacto, e mantém intactas características autorais

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

David Cronenberg já era cultuado por uma pequena parcela de admiradores quando foi contratado, pelo belo salário de US$ 1 milhão, para dirigir “A Mosca” (The Fly, EUA/Canadá/Inglaterra, 1986), refilmagem de uma ficção científica classe B de 1958. Muita gente não entendeu. Ficava a dúvida: como é que um cineasta obscuro, amante de narrativas labirínticas, climas oníricos e experiências de desconstrução do corpo humano, iria se sair no comando de um blockbuster? A resposta veio com um longa-metragem esquisito, perturbador, que mostrava ser possível fundir um enredo simples e funcional com imagens grotescas de impacto, e ainda manter intactas algumas características autorais.

A presença de Cronenberg no comando da produção, de fato, não foi uma escolha óbvia da Fox. O diretor canadense, que faz uma ponta como um ginecologista, era considerado uma aposta quente em Hollywood, mas na época negociava a direção de “O Vingador do Futuro” (que seria feito alguns anos depois, com o holandês Paul Verhoeven no comando). Curiosamente, foi o comediante Mel Brooks quem atuou como produtor, conseguindo persuadir Cronenberg a aceitar o trabalho. Depois, com o filme já pronto, Brooks pediria para ser retirado dos créditos iniciais, pois acreditava que a simples presença do seu nome faria o público pensar que o filme era uma paródia cômica, o que poderia resultar em risos involuntários e fracasso de bilheteria.

A grande sacada de Cronenberg, que reescreveu completamente o roteiro de Charles Edward Pogue, foi utilizar a jornada trágica do cientista solitário Seth Brundle (Jeff Goldblum) como uma metáfora inteligente para a AIDS, que começava na mesma época a se alastrar. Mesmo assim, a degeneração física irreversível do protagonista, que começa justamente após um ato irresponsável durante uma bebedeira, podia ser lida como uma interpretação preconceituosa do drama da doença, que então afetava principalmente o público homossexual. Cronenberg sofreu algumas críticas por causa disso, mas o tempo mostraria que o diretor canadense nada tinha de conservador.

A história é uma variação sci-fi do arquétipo da Bela e da Fera. Brundle é um típico cientista, daqueles que mantém sete ternos idênticos no armário para não ter problemas na hora de escolher o que usar numa ocasião solene. Veronica (Geena Davis), por sua vez, também é uma jornalística típica de Hollywood, uma mulher ambiciosa e batalhadora. Os dois se conhecem numa festa, e ela decide acompanhar o progresso do trabalho de Brundle, que inventou uma máquina capaz de teletransportar objetos inanimados, mas ainda não consegue fazer o mesmo com seres vivos. Eles se apaixonam e iniciam um tórrido romance, interrompido depois que o cientista faz uma experiência de teletransporte consigo mesmo, após uma briga, carregando sem saber uma pequena mosca, cujo DNA se funde com o dele.

A partir daí, o filme envereda pela seara do horror fantástico, com um brilhante trabalho de maquiagem (Jeff Goldblum passava até cinco horas por dia nas mãos dos maquiadores) e muitas imagens grotescas, uma especialidade de Cronenberg. O resultado final, embora eficaz e assustador em muitos momentos (a saída com a prostituta, o bebê-mosca), não chega a ser tão bom quanto os melhores trabalhos autorais de Cronenberg (“Existenz”, “Videodrome”). Mesmo assim, o canadense deve ser respeitado por conseguir inserir elementos autorais dentro de uma grande produção, algo não muito comum. É preciso observar, também, que o diretor jamais se aventurou novamente a trabalhar em Hollywood, preferindo trabalhos independentes, com narrativas mais arrojadas. Sujeito inteligente.

Há duas versões em DVD no Brasil, ambas lançadas pela Fox. A primeira, simples, contém o filme com qualidade razoável de imagem (widescreen 1.85:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1), mais um pequeno making of. A segunda edição, dupla, traz comentário em áudio do diretor, um enorme documentário de bastidores (140 minutos), galeria com seis cenas cortadas (uma delas, lendária, traz a fusão entre um gato e um macaco) e quatro featurettes com perfil do diretor e detalhes da produção, tudo legendado em português.

– A Mosca (The Fly, EUA/Canadá/Inglaterra, 1986)
Direção: David Cronenberg
Elenco: Jeff Goldblum, Geena Davis, John Getz, Joy Boushel
Duração: 95 minutos

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