Mosconautas no Mundo da Lua, Os

09/10/2008 | Categoria: Críticas

Primeira animação computadorizada feita para 3D digital tem narrativa frágil e qualidade visual bastante sofrível

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Uma das principais respostas dos estúdios para a crise em que o cinema mergulhou após o ano 2000, com arrecadações de bilheteria despencando ano a ano, foi o investimento maciço em novas tecnologias de projeção. Para investir grana nisso, cineastas e executivos se basearam no seguinte raciocínio: se o espectador prefere ver filmes em casa, é preciso dar a ele uma experiência inteiramente nova, impossível de reproduzir no conforto do lar, quando ele entrar em uma sala de exibição. Só então ele vai se animar a voltar. A animação belga “Os Mosconautas no Mundo da Lua” (Fly me To the Moon, Bélgica, 2008) está inserida no esforço multinacional para evitar o colapso do cinema como experiência coletiva. O filme foi um dos primeiros a apostar na tecnologia de projeção digital em três dimensões.

O diretor responsável, Ben Stassien, é um veterano egresso de filmes feitos para IMAX, outra tecnologia que busca uma experiência de fruição de filmes que esteja próxima da imersão total do espectador dentro do mundo ficcional. Ele desenvolveu todo o projeto com a tecnologia de projeção 3D em mente. Do ponto de vista tecnológico, este é o grande mérito de “Os Mosconautas no Mundo da Lua”. A animação infanto-juvenil foi o primeiro longa-metragem concebido para explorar toda a potencialidade do sistema, ao contrário de outros filmes, imaginados como produções normais e posteriormente adaptados para 3D. Talvez por conta do desafio tecnológico, Stassien deixou meio de lado aspectos estritamente cinematográficos do projeto, de forma que o filme tem narrativa frágil e qualidade de animação computadorizada bastante sofrível.

De certa forma, não é difícil explicar os problemas com a animação. Além de estarem lidando com uma tecnologia ainda incipiente, os artistas gráficos envolvidos no projeto tiveram que lidar com um orçamento bem inferior às maiores produções do gênero. Uma animação computadorizada tradicional, como aquelas desenvolvidas pela Pixar, ultrapassa facilmente a barreira de US$ 100 milhões. Bancada pelo estúdio belga nView, porém, “Os Mosconautas no Mundo da Lua” teve que ser inteiramente finalizado com US$ 25 milhões. É por isso que a animação apresenta falhas de execução. As texturas são pobres e o nível de detalhes dos personagens decepciona.

Deste problema fica especialmente visível quando os artistas precisam animar situações que envolvam água, fogo e gelo, reconhecidamente um desafio para longas-metragens do gênero. Observe, por exemplo, as cenas noturnas no primeiro ato, em que os personagens principais conversam, sob a luz do luar, diante do pântano onde moram. Os raios de luz refletem na água e fazem o leve movimento do vento, batendo na superfície do lago, parecer falso e artificial. A mistura de fogo e gelo que envolve o lançamento de um foguete espacial também não soa crível. Além disso, quando os personagens se movimentam de forma perpendicular em relação à câmera – um movimento que envolve a operação do foco do equipamento – os animadores têm dificuldades em manter as proporções corretas deles em relação aos objetos cênicos.

Estes problemas são consideravelmente minimizados se você assistir ao filme da forma em que ele foi concebido. Em uma sala equipada com projeção digital 3D, espectadores mais animados poderão experimentar uma sensação de imersão na história bastante convincente. Além disso, são observações técnicas que em nada interessam ao público-alvo, formado por crianças pequenas. Só que “Os Mosconautas no Mundo da Lua” deu o azar de ganhar lançamento na mesma temporada de outra animação que envolve viagens espaciais: a obra-prima “WALL-E”, da Pixar. Contrapor os dois filmes faz a obra belga empalidecer em todos os aspectos. Os personagens são mais rasos e batidos, provocando muito menos empatia do que os robôs de Andrew Stanton. A história contém problemas de lógica e recorre com freqüência a clichês narrativos, e a qualidade técnica deixa muito a desejar.

De qualquer forma, o enredo guarda alguns encantos para a criançada. Ele se passa em 1961 e tem como pano de fundo um dos momentos históricos mais importantes do século XX: a viagem da nave Apolo 11 à Lua, onde o ser humano pisou pela primeira vez. Incomodadas com as gracinhas soltadas por amigos mais velhos, três moscas adolescentes decidem embarcar na nave espacial, para viver uma grande aventura, o que provoca a ira das moscas russas, do outro lado do mundo. A viagem espacial, em si, contém os melhores momentos, inclusive uma cômica valsa em gravidade zero das moscas, ao som de Strauss (referência óbvia a “2001 – Uma Odisséia no Espaço”), e a divertida seqüência em que as moscas corrigem um defeito técnico da nave que poderia ter impedido Neil Armstrong de pisar em solo lunar. Já a subtrama envolvendo a sabotagem russa destoa no tom geral e apenas desvia a atenção dos pequenos espectadores daquilo que eles realmente estão a fim de ver: as mosquinhas aventureiras.

O DVD nacional carrega o selo PlayArte. O filme aparece com enquadramento correto (widescreen anamórfico) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1).

– Os Mosconautas no Mundo da Lua (Fly me To the Moon, Bélgica, 2008)
Direção: Ben Stassien
Animação (vozes de Tim Curry, Christopher Lloyd, Adrienne Barbeau)
Duração: 84 minutos

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