Motoqueiro Fantasma

13/12/2007 | Categoria: Críticas

Filme de Mark Steven Johnson sofre de falta de lógica, interpretações ruins, diálogos bobos e efeitos especiais sofríveis

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★½☆☆☆

O primeiro “X-Men” (2000) inaugurou uma generosa safra de produções de Hollywood baseadas em personagens de quadrinhos. Do ponto de vista da qualidade, todos esses filmes podem ser divididos em dois blocos. O primeiro grupo, formado pelos heróis mais populares (Homem-Aranha, Batman, Super-Homem), gerou longas divertidos e inteligentes, feitos com orçamentos caprichados e diretores de talento. O outro time reúne o segundo escalão dos gibis, e inclui heróis menos conhecidos, como Demolidor, Quarteto Fantástico e Elektra. No cinema, estes personagens foram entregues a cineastas iniciantes, quase sempre filmando com pouca grana. O resultado? Filmes de qualidade duvidosa. “Motoqueiro Fantasma” (Ghost Rider, EUA, 2007) é um dos piores exemplares da segunda categoria.

Mesmo antes de estrear, muitos fãs já viam a produção, capitaneada pelo diretor Mark Steven Johnson (que dirigiu “Demolidor” e escreveu “Elektra”, fazendo péssimo trabalho nos dois casos), com desconfiança. Afinal de contas, as gravações e a primeira fase de pós-produção ocorreram no meio de 2005, e o estúdio Sony anunciou, em dezembro do mesmo ano, que iria adiar a estréia em um ano e meio. Era o prenúncio de que a película estava uma droga. Meses depois, o astro Nicolas Cage – que interpreta o protagonista e ajudou a escrever parte do roteiro – saiu em defesa da produção, dizendo que o adiamento era necessário para melhorar os efeitos especiais de algumas cenas. Se o problema era esse mesmo, o tempo extra de nada adiantou, pois nada em “Motoqueiro Fantasma” se salva. A história é boba e sem lógica, os diálogos soam como se tivessem sido escritos por uma criança de 6 anos, os atores interpretam de forma histérica, e até mesmo os polêmicos efeitos especiais têm sérios defeitos.

A sucessão de equívocos começa pelo público-alvo ao qual o filme é dirigido. O personagem dos quadrinhos, com influências do faroeste e muitos elementos sombrios, era dirigido a um público mais velho, algo que não foi levado em consideração nesta adaptação censura livre. Existem referências discretas ao western, principalmente na trilha sonora, mas elas devem passar despercebidas para o público adolescente, ao qual o filme é claramente dirigido. Na verdade, o que temos aqui é uma variação infanto-juvenil da história de “Hulk” (a produção de Ang Lee é um corpo estranho dentro da safra de filmes de heróis, sendo bem mais amarga e adulta do que o normal), acrescida de elementos sobrenaturais roubados de “Constantine”. Em outras palavras: um homem comum, obrigado a conviver com um Mr. Hyde monstruoso que vive dentro de si, e que o impede de ser feliz com a mulher que ama (Eva Mendes).

Este homem é Johnny Blaze (Nicolas Cage, tão fanático pelo gibi que tem uma tatuagem do personagem), um motoqueiro que venceu a alma ao Diabo (Peter Fonda) para tentar salvar o pai de um câncer. Amaldiçoado pela entidade demoníaca, o rapaz passou a vagar pelos Estados Unidos, fazendo espetáculos de moto e esperando o momento de ser recrutado para um serviçinho no mundo das trevas. Este trabalho aparece quando o filho do demônio, Coração Negro (Wes Bentley), decide procurar um antigo contrato feito 150 anos antes com um vaqueiro que trapaceou o pai e desapareceu. Os dois diabos entram em rota de colisão, e é aí que Blaze é chamado pelo Demônio a cumprir o trato, dando cabo de Coração Negro. Ele passa a se transformar todas as noites no Motoqueiro Fantasma, uma gigantesca caveira flamejante, com a obrigação de combater o adversário.

Esta história faz sentido para você? Para mim, não faz. O filme nunca tenta dizer porque o Demônio desistiu de encontrar o vaqueiro que o enganou no século passado e, pior ainda, não oferece nenhuma explicação decente para a briga entre rei e príncipe do inferno. O personagem de Johnny Blaze, que em teoria deveria ser um cara amargo e solitário, é na verdade uma celebridade, que não hesita em fazer macaquices na motocicleta para provocar sorrisos em mulheres. Ou seja, é um garotão estúpido, um verdadeiro cabeça-de-vento (será que o fogo teria incinerado os miolos do rapaz?), sem nada a ver com o Hulk torturado de Ang Lee – uma referência obrigatória e bem-sucedida para este tipo de personagem. A falta de lógica do roteiro é tanta que Blaze só descobre a verdadeira identidade do vaqueiro que enganou o diabo quase no final do filme, quando a platéia já está cansada de saber quem ele é. Se esses erros não bastam para você, preste bem atenção nas maneiras “criativas” e ilógicas que Johnny Blaze encontra para eliminar os demônios inferiores que insistem em atacá-lo.

O elenco também está muito ruim. Nicolas Cage dá mais atenção aos músculos e à peruca constrangedora (para quê esconder a careca?) do que aos diálogos sem graça, enquanto Wes Bentley tem dificuldades para atuar embaixo de maquiagem pesada, abusando de olhos arregalados e poses homoeróticas. Via de regra, todos os atores atuam de forma histérica, o que deixa evidente que o problema está na direção. Quer um exemplo? Observe a cena em que a personagem de Eva Mendes espera a chegada de Johnny Blaze em um restaurante, onde os dois marcaram um jantar. Ela está nervosa, e mostra isso agarrando a taça de vinho com as duas mãos para bebê-la. Se a intenção era fazer graça, a imagem constrangedora acaba soando patética. A única boa sacada é a escalação de Peter Fonda, mas não pela qualidade do ator em si (Fonda sempre foi canastrão), e sim pela referência engenhosa ao clássico-mor dos motoqueiros, “Sem Destino” (1969), que ele estrelou e co-escreveu.

Por fim, até mesmo os efeitos especiais deixam a desejar, e isto é uma crítica extremamente negativa para um arrasa-quarteirão que foi atrasado em quase dois anos para que esta área fosse aperfeiçoada. Os técnicos de CGI responsáveis pelo desenvolvimento do Motoqueiro Fantasma simplesmente não conseguiram driblar a dificuldade de dotar uma caveira com emoções. OK, sabe-se que o desafio era enorme, já que o modo mais simples de sublinhar os sentimentos de um personagem é utilizando a expressão facial, inexistente no caso. A alegação não serve de desculpa, contudo, para o fato de que o personagem principal jamais provoca empatia na platéia – não é possível sentir afeto por um boneco de plástico que caminha como se tivesse um quilo de merda dentro da cueca, certo? E isto é fatal para qualquer projeto de identificação entre protagonista e espectador.

O DVD simples da Sony tem o filme com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). Como extras, dois comentários em áudio com o diretor, um produtor e membros da equipe técnica. O disco duplo, com versão mais longa do filme, inclui dois documentários (um sobre o filme, outro sobre a HQ).

– Motoqueiro Fantasma (Ghost Rider, EUA, 2007)
Direção: Mark Steven Johnson
Elenco: Nicolas Cage, Eva Mendes, Wes Bentley, Peter Fonda
Duração: 114 minutos

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