Mouchette – A Virgem Possuída

24/09/2008 | Categoria: Críticas

Longa de Bresson observa, impassível, o sofrimento de uma adolescente desprezada por todos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

A cena de abertura de “Mouchette – a Virgem Possuída” (França, 1967) mostra um caçador, na floresta, preparando armadilhas para pássaros. Ele consegue capturar um, o bicho se debate em desespero, e o homem o solta. Trata-se de uma metáfora quase óbvia para o que a platéia verá nos 75 minutos a seguir: os moradores de uma aldeia rural no interior da França, tratando com desprezo e crueldade uma adolescente de 16 anos – a menina do título – cuja mãe está à beira da morte. O filme, sempre citado como um dos mais importantes entre os treze que Robert Bresson dirigiu, oferece uma experiência perturbadora.

A narrativa é estruturada como uma série de incidentes em que Mouchette (Nadine Nortier) sofre todo tipo de abuso dos aldeões – o filme inspirou o dinamarquês Lars Von Trier a escrever o polêmico “Dogville” (2003). As colegas de colégio riem dela, os adultos a tratam com agressividade. O pai de Mouchette não lhe dirige um único olhar. Apenas uma pessoa na vila gosta dela: a mãe. Só que a mulher sofre com um câncer terminal, e passa todo o tempo deitada na cama, gritando de dor. Mouchette estuda, precisa ganhar dinheiro, e quando chega em casa nada de descanso, pois é obrigada a cuidar da mulher enferma e do irmão recém-nascido.

Há um paralelo bíblico evidente entre a história de Mouchette e a parábola de Jó, narrada no Velho Testamento. Ele é um homem obrigado a suportar sofrimentos infindáveis em uma série de tentações demoníacas. A inspiração bíblica fica ainda mais clara quando se sabe que Bresson era um diretor profundamente católico, que seguia os ensinamentos de uma corrente religiosa chamada jansenismo. A doutrina prega a disciplina rígida de corpo e espírito para alcançar a iluminação, tendo alguma semelhança com o budismo. Em “Mouchette”, Bresson parece nos dizer que a vida é uma prisão, e que somente a morte liberta.

Ao provocar uma constante sensação de incômodo no espectador, por obrigá-lo a testemunhar o sofrimento permanente de uma adolescente atormentada, “Mouchette” acaba por se mostrar um dos melhores trabalho do diretor francês. Neste filme, Bresson constrói uma situação-limite, mas nem assim abandona o impressionante rigor formal e a abordagem distante, impassível e objetiva, das ações que observa. O longa-metragem poderia fornecer farto material para um melodrama, mas a secura da narrativa afasta as emoções. Se parece uma história triste, é porque o espectador desenvolveu por ela um sentimento que é só dele, e não está no filme.

Em “Mouchette”, a orientação que o diretor gostava de dar aos atores – atuar sempre com o rosto neutro, sem expressões faciais que possam sinalizar ao público o que se deve sentir – causa um efeito perturbador. Nós assistimos à crueldade com que todos os personagens do filme tratam a jovem protagonista, e sentimos raiva por ela, porque a face dela não demonstra reação. Nada. O resultado disso é uma sensação de desorientação, de vazio, de não saber o que está ocorrendo. Bresson exige que o espectador reaprenda a olhar. Um filme do diretor francês desarma a platéia, e “Mouchette” é um dos melhores nesse sentido.

O filme ganhou lançamento no Brasil em DVD pela Silver Screen Collection. O disco é simples e contém apenas o filme, restaurado, com boa qualidade de imagem (wide 1.77:1) e som (Dolby Digital 2.0). E vale ainda abominar o ridículo subtítulo nacional.

– Mouchette, a Virgem Possuída (França, 1967)
Direção: Robert Bresson
Elenco: Nadine Nortier, Jean-Claude Guilbert, Maria Cardinal, Paul Hebert
Duração: 78 minutos

| Mais


Deixar comentário