Moulin Rouge

28/05/2008 | Categoria: Críticas

Clássicos pop na Paris do século XIX? Claro que pode! Baz Luhrmann mostra como fazer isso de forma original e hipercolorida

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Baz Luhrmann atingiu a maturidade artística no terceiro longa metragem. “Moulin Rouge” (idem, EUA, 2001), uma das histórias de amor mais românticas dos últimos tempos, prova isso. O filme revitaliza um gênero quase morto – o musical – e o reveste de uma energia hipnótica. Tem defeitos: é barroco, exagerado, hipercolorido, kitsh, quase brega mesmo. Mas nada disso está no filme por acaso. Tudo faz parte da opção estética do cineasta, que se propõe a provocar o espectador, exigir dele um mergulho de cabeça no universo onírico da obra.

“Moulin Rouge” pode reivindicar o título de filme mais polêmico de 2001. Se dependesse de Baz Luhrmann, aliás, ele não seria descrito apenas como um filme. “Moulin Rouge” busca uma experiência emocional completa, uma mistura de teatro, dança, música e épico romântico. Ao contrário da cenografia, o enredo do musical é extremamente simples e revisita o mito grego de Orfeu, localizando-o na Paris boêmia do final do século XIX. “O importante em ‘Moulin Rouge’ não é a história, mas a forma como ela é contada”, disse Luhrmann ao Cine Reporter, durante uma série de entrevistas concedidas em agosto de 2001, no Rio de Janeiro.

Logo no início do filme, ficamos conhecendo Satine (Nicole Kidman), prostituta francesa e maior estrela do cabaré Moulin Rouge. A legendária casa de espetáculos é ponto de encontro de intelectuais, burgueses e boêmios da efeverscente Europa de 1899. Um dos freqüentadores é o escritor pobretão Christian (Ewan McGregor), jovem talentoso que deseja virar escritor. No momento em que os olhares dos dois se cruzam, ao serem apresentados pelo pintor e poeta Toulouse Latrec (John Leguizamo), a empatia é imediata. Só que há obstáculos, e eles não são poucos.

O filme de Baz Luhrmann mal dá tempo para o espectador respirar. Após uma abertura estilizada de velocidade estonteante, onde há espaço até mesmo para uma fada verde escapulir cantando de uma garrafa de absinto (aparição rápida da cantora Kylie Minogue), a obra atira o espectador numa ciranda alucinante de referências pop. Sim, “Moulin Rouge” é ultra-pop: quebra as regras que regem a construção de musicais atualmente e usa, para narrar o caso de amor entre Satine e Christian, canções que ainda não haviam sido escritas na época em que o filme se passa.

Os clássicos, de todas as épocas do século XX, foram reconstruídos e entrecruzados livremente. Não dá para enumerar todas as músicas que você vai ouvir, mas estão lá canções de David Bowie, Madonna, Marylin Monroe, Nirvana, Kiss, Beatles, Elton John e muitos outros. Peste atenção, por exemplo, na bela versão de “Roxanne”, do The Police, em ritmo de tango.

Se na parte musical o filme é uma salada, na cenografia não fica muito atrás. Não há cenas realizadas em locações abertas e 100% das seqüências foram criadas em estúdio, na Austrália. Luhrmann arrancou inspiração para o visual espalhafatoso e sedutor nas pinturas do verdadeiro Toulouse Lautrec. Por isso, a fotografia vem carregada de cores fortes e o visual é hiperdetalhado. Para compensar esse excesso de informações, Luhrmann narra o caso de amor de forma básica, desnuda quase, e sem nenhuma pressa. Ele afasta possíveis tramas paralelas e concentra a ação exclusivamente no desenrolar do romance e nas conseqüências dele para com a relação profissional entre ambos.

O roteiro limpo garante que o elenco brilhe em interpretações certeiras. Nicole Kidman comprova de uma vez por todas que é muito mais do que um belo rosto e Ewan McGregor está perfeito. A cena em que ele declara a ela seu amor confirma o talento da dupla também na música. A seqüência é o maior destaque de “Moulin Rouge”: em pouco mais de quatro minutos, a sucessão de referências pop é estonteante e está amparada num diálogo, à moda musical, absolutamente empolgante. Se você já se apaixonou alguma vez na vida, vai morrer de vontade de ter alguém sentado junto para poder abraçar. E isso é ótimo.

De qualquer forma, “Moulin Rouge” é um daqueles fimes que a gente ama ou odeia. Por exigir envolvimento emocional do espectador e carnavalizar explicitamente o espetáculo cinematográfico, o filme é capaz de irritar muita gente. Mas não se engane: foi “Moulin Rouge” que abriu as portas para o ressurgimento do musical. O Oscar de “Chicago”, em 2003, jamais sairia sem esse filme pioneiro. Por tudo isso, o filme de Baz Luhrmann merece toda a pompa de um pequeno clássico contemporâneo.

Só para completar, a edição dupla do filme em DVD é arrasadora. O disco vem lotado de documentários, que detalham o projeto minuciosamente, das reuniões para discussão do roteiro até o uso da computação gráfica nas cenas complicadas, na pós-produção. Isso sem falar das inúmeras cenas não aproveitadas na edição final, dos flagras nos atores gravando as vozes, do trabalho com a sincronia da música e das imagens. Um espetáculo completo que coroa um filme belo e corajoso. A edição que leva o selo Cine Reserve tem capa diferente, mas o conteúdo é o mesmo.

– Moulin Rouge (Moulin Rouge, EUA, 2001).
Direção: Baz Luhrmann
Elenco: Nicole Kidman, Ewan McGregor, John Leguizamo
Duração: 126 minutos

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