Mulher Contra Hitler, Uma

17/03/2007 | Categoria: Críticas

Filme é peça importante da revisão crítica do nazismo executada pela nova geração de artistas alemães

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

A Alemanha levou aproximadamente 60 anos – o espaço de três gerações – para começar o longo e doloroso processo de exorcismo do fantasma do nazismo. O tema, tabu durante três gerações após a Segunda Guerra Mundial, era associado a culpa, vergonha ou no mínimo desconforto para muitos germânicos. Mas a ascensão ao poder político e econômico de uma geração mais jovem, uma geração que não conviveu com Hitler e os nazistas, trouxe a coragem necessária para que o país pudesse começar a digerir o Holocausto. O filme “Uma Mulher Contra Hitler” (Sophie Scholl – Die Letzten Tage, Alemanha, 2005) faz parte de uma boa fornada de obras dedicadas a examinar esta ferida aberta pelo nazismo no povo alemão.

Embora esse movimento corajoso dos alemães aconteça em diversas áreas profissionais, é na arte que ele se revela mais significativo. Desde Joachim Fest, biógrafo de Hitler e historiador respeitado sobre o conflito mais sangrento da história humana, inúmeros pesquisadores, romancistas e cineastas têm mergulhado de cabeça no assunto. Uma das peças mais importantes desta revisão crítica da história alemã apareceu com “A Queda”, filme de 2004 que concorreu ao Oscar de filme estrangeiro e fez enorme sucesso no circuito alternativo brasileiro, ao narrar com objetividade os últimos dias da guerra e apresentar um retrato mais humano do homem que matou seis milhões de judeus.

“Uma Mulher Contra Hitler” enfoca o conflito de um ponto de vista diferente, muito conhecido na Alemanha mas obscuro fora dela, ao dramatizar a história de dois irmãos que morreram lutando contra o regime nazista. É uma história real. Sophie (Julie Jentsch) e Hans (Fabian Hinrichs) Scholl eram dois jovens estudantes católicos, loiros e ricos, que integravam um movimento antifascista chamado Rosa Branca, e se dedicavam a distribuir clandestinamente panfletos mimeografados com textos que incitavam a população a resistir contra a dominação nazista. Presos durante uma panfletagem na Universidade de Munique, em 1943, os dois foram decapitados quatro dias depois pelo governo despótico.

O objetivo da produção é tão simples quanto a estrutura narrativa escolhida pelo cineasta Marc Rothemund: mostrar aos alemães mais jovens, e também ao resto do mundo, que a população do país – pelo menos parte significativa dela – também ficou horrorizada com a destruição sistemática promovida pelo governo nazista, e lutou contra Hitler e demais carrascos da suástica. Ou seja, trata-se de um filme feito para combater um dos mais estúpidos e insistentes preconceitos que rondam milhares de cabeças mundo afora, o de que todo alemão tem algum tipo de relação obscena com o regime nazista. Há até quem pense que os germânicos possuem algum tipo de propensão genética à violência, uma teoria idiota por definição, mas infelizmente presente. “Uma Mulher Contra Hitler” bate forte nesse tipo de pensamento.

Narrada em tom sóbrio pelo cineasta Marc Rothemund, o longa-metragem possui uma estrutura narrativa tão espartana quanto forte. É um filme político, histórico, até mesmo engajado, mas a mensagem principal talvez não seja o antifascismo (até porque não se esperaria outra coisa de uma obra de arte com um mínimo de consciência histórica e humanitária). Ou seja, a importância não existe apenas por causa do resgate histórico de uma bela história de coragem. A atualidade e o frescor do filme provêm da abordagem ética da heroína. Bombardeada por tortura psicológica de todo o tipo durante um interrogatório que parece nunca terminar, Sophie jamais abre a boca para denunciar nenhum colega da Rosa Branca. Delação não faz parte do vocabulário dela.

Um dos trunfos da produção, talvez o principal, é adotar integralmente o ponto de vista da heroína. Ou seja, desde o momento em que Sophie e Hans são presos, logo no início do filme, a câmera esquece o rapaz e concentra-se na garota. A maior parte das quase duas horas de projeção é gasta nos interrogatórios e no julgamento, o que transforma o filme em uma experiência excruciante, quase insuportável, em um crescendo de tensão que nunca alivia. Funciona, pois põe o espectador na mesma posição de pressão que Sophie. Quase chegamos a sentir o embrulho no estômago que a verdadeira Sophie deve ter suportado, à medida que percebia quais seriam as conseqüências do seu ato.

Marc Rothermund filma tudo em tom grave, adotando uma paleta de cores pastéis, mas com uma textura pesada e sombria. Quase não existem cenas externas (curiosamente, o pátio externo da Universidade de Munique, onde a história aconteceu de verdade e que ganhou posteriormente o sobrenome dos dois mártires, aparece na abertura). Um truque visual interessante é a insistência do diretor em mostrar os oficiais nazistas fumando desbragadamente, o que enche os ambientes de fumaça e sombras, tornando o ambiente ainda mais claustrofóbico.

O filme de Rothermund não merece o rótulo de filme de guerra, até porque o diretor evitou mostrar cenas do conflito. As sangrentas batalhas são apenas mencionadas – o noivo de Sophie luta em Stalingrado, e os bombardeios aliados em Munique são vistos pela garota da janela da cela onde se encontra – e isso jamais deixa o espectador se esquecer que o pano de fundo, afinal, é o maior genocídio da história da humanidade. A abordagem recebeu elogios da crítica alemã e rendeu ao filme prêmios no Festival de Berlim, um dos mais importantes da Europa, além de indicação ao Oscar de filme estrangeiro.

Não dá para deixar de mencionar, também, o excelente desempenho da atriz Julia Jentsch (conhecida dos brasileiros pela participação no bom “Edukators”). Julia interpreta Sophie com uma mistura visceral de confiança e medo, o que desnuda aos poucos a personagem à platéia. Traduzir as nuances da personalidade da verdadeira Sophie, aliás, era um desafio grande, já que o filme praticamente inteiro se passa entre interrogatórios, mas a jovem atriz toma a decisão certa: não age, limita-se a reagir – principalmente com expressões faciais – às perguntas, armadilhas, agressões e chantagens dos responsáveis pela prisão. Exatamente como faria uma vítima de tortura na vida real.

É no meio deste caos de tensão e violência reprimida que ficamos conhecendo a personalidade da jovem – teimosa, sincera, ética e muito cristã. Não é um filme biográfico, mas homenageia a estudante de forma sincera. No geral, “Uma Mulher Contra Hitler” tem o único pecado de narrar uma história de modo certinho demais, convencional em excesso, sem qualquer tipo de ousadia, seja formal, estética ou narrativa. Convém observar, no entanto, que as soluções convencionais nem sempre funcionam com a eficiência que “Uma Mulher Contra Hitler” consegue, quando aplicadas com rigor.

O DVD, da Imovision, não tem extras. A qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1) é boa.

– Uma Mulher Contra Hitler (Sophie Scholl – Die Letzten Tage, Alemanha, 2005)
Direção: Marc Rothemund
Elenco: Julia Jentsch, Fabian Hinrichs, Gerald Alexander Held, Johanna Gastdorf
Duração: 117 minutos

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