Mulher-Gato

18/01/2005 | Categoria: Críticas

Aventura do francês Pitof não tem nada além de Halle Berry vestida de mendiga dominatrix

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★☆☆☆☆

“Mulher-Gato” (Catwoman, EUA, 2004) é um filme que não tem a mínima vergonha de mirar em um público pouco habilitado para distinguir um filme bom de um ruim: rapazes na faixa dos 14 anos. Nessa idade, com os hormônios entrando em ebulição, os garotos aproveitam qualquer oportunidade que tenham para ver mulheres de corpo perfeito vestidas com pouca roupa. Para essa turma, “Mulher-Gato” pode até cumprir seu objetivo básico, que é intercalar cenas de pancadaria com outras de sexo softcore.

A atriz Halle Berry comprova, de novo, que é linda e tem a barriga mais malhada de Hollywood. Pena que o filme não vai além disso. O filme do cineasta francês Pitof copia “O Corvo” sem cerimônia, mas abandona os quartos imundos da obra que o inspirou e promove um desfile de moda yuppie cercado de merchandising por todos os lados.

O fato de estar sendo lançado nos cinemas no mesmo ano de “Homem-Aranha 2” atinge em cheio a credibilidade de “Mulher-Gato”. O filme de Sam Raimi já provou que longas-metragens de super-heróis podem divertir sem desprezar a inteligência. Pitof, no entanto, deve acreditar que dar a Halle Berry um visual estonteante já seria suficiente para criar um bom filme. Não é. “Mulher-Gato” talvez seja um dos maiores fiascos da temporada 2004, um trabalho que precisa ser examinado com lupa para que se possa encontrar algum ponto positivo.

Para começar, “Mulher-Gato” provavelmente bate o recorde do ano em quantidade de merchandising. Até uma certa marca de água mineral aparece em close e bate ponto na trama. Além disso, Pitof dá uma demonstração inequívoca de que não sabe dirigir atores, pois há nomes competentes no elenco. Halle Berry não faz nada além de rebolar vestida de dominatrix, estalando um chicote, e depois dá lugar a um dublê digital que saltita pelas paredes. Ela interpreta Patience Phillips, uma tímida designer encarregada de entregar, em prazo recorde, a campanha publicitária de um creme facial.

Na data marcada, a garota comparece ao escritório do chefe, George Hedare (Lambert Wilson, repetindo caras, bocas, sotaque e até entonação de Merovingian, que interpretou na série “Matrix”). Acaba descobrindo um plano maligno de dominação do mundo, perpetrado pela esposa desprezada do mandão, a modelo quarentona Laurel Hedare (Sharon Stone, mais canastrona do que nunca e a cara de Ana Maria Braga!). Patience é descoberta e assassinada, mas volta à vida graças aos poderes sobrenaturais de um gato egípcio que ela salvou no dia anterior. Ou seja, a trama é um arremedo de “O Corvo”, trocando apenas o sexo do protagonista e a raça do bicho mágico.

Se a trama faz algum sentido? Infelizmente, não faz. Desde o protagonista, os personagens são rasos, frouxos e paradoxais. Patience, por exemplo, se transforma não em uma super-heroína, mas em uma bandida capaz de assaltar uma joalheria apenas para resgatar um colar antigo que achou bacana – arrebentando a fuça de alguns ladrões no processo. No dia seguinte, quando acorda, está arrependida. A explicação do filme é que a Mulher-Gato e Patience são duas personalidades distintas, convivendo no mesmo corpo. Só que Pitof não sabe lidar com a idéia de personagens com dupla personalidade. Da maneira que o roteiro coloca a situação, o filme simplesmente desaba em contradições.

Quando a heroína está em cena, “Mulher-Gato” vira um verdadeiro desfile de moda, com diálogos que beiram o histérico (“Miau!”) e uma overdose de cores e arquitetura yuppie de dar ânsias de vômito em um ser humano normal. A montagem hiperacelerada também é capaz de causar confusão mental nos espectadores mais sensíveis; o diretor se mostra incapaz de segurar uma imagem que seja por mais de dois segundos na tela, o que obriga os nossos olhos a saltarem a todo instante, procurando o foco da nova cena. Isso cansa!

A salvação do filme de Pitof está nas seqüências de ação, que são interessantes. Tudo bem que o cineasta não desiste de fazer a câmera girar, mas ver a dublê digital de Halle Berry em ação é até melhor do que a própria atriz, nitidamente desconfortável dentro do figurino de mendiga dominatrix (o couro preto é todo rasgado, até no bumbum) que arrumaram para ela. Aliás, até o figurino é derivativo, uma mistura de “Matrix” (Trinity, alguém lembra?) com, novamente, “O Corvo”.

Para os meninos interessados em sexo, a má notícia é que a censura nos Estados Unidos não perdoa. Por isso, retalhou a única cena de sexo do longa-metragem. Aliás, o personagem do detetive Tom Lone (Benjamin Bratt) é tão estéril que ia esquecendo de mencioná-lo; ele é o encarregado de investigar as aparições da Mulher-Gato e, claro, clichê dos clichês, também engata um romance com Patience. Pois Tom e Patience vão para a cama, mas Pitof teve que cortar a transa inteira para não correr o risco de ver a censura subir, o que impediria a rapaziada menor de 14 anos de ver o filme. Sobram apenas os arranhões nas costas do rapaz, quando ele acorda no dia seguinte. Se isso é suficiente para você, encare.

Como DVD, o produto é convencional, mas caprichado. O filme tem transferência de imagem no corte original, e som Dolby Digital 5.1. Entre os extras, documentário de bastidores, cenas deletadas e um final alternativo.

– Mulher-Gato (Catwoman, EUA, 2004)
Direção: Pitof
Elenco: Halle Berry, Sharon Stone, Benjamin Bratt, Lambert Wilson
Duração: 91 minutos

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