Mulher Sob Influência, Uma

01/09/2009 | Categoria: Críticas

Cassavetes filma crise emocional de uma dona-de-casa com intensidade quase insuportável

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Sob um ponto de vista exclusivamente técnico, John Cassavetes não era um bom cineasta. Ele não nasceu diretor, mas ator. Não tinha paciência para os aspectos técnicos da atividade de filmar, que freqüentemente tomam a maior parte do tempo de um diretor. Gostava de trabalhar horas a fio com os atores, e deixava detalhes como enquadramentos e som a critério exclusivo dos colaboradores. Para Cassavetes, filmes não devem ser esteticamente bonitos; eles precisam explorar territórios desconhecidos da condições humana. Cassavetes dizia ter uma mente monotemática, tendo virtualmente um único tema de interesse: o amor. Dentro os doze filmes que dirigiu, é “Uma Mulher Sob Influência” (A Woman Under the Influence, EUA, 1974) que melhor resume todas essas características.

O crítico americano Roger Ebert tem uma metáfora perfeita para a obra do cineasta nova-iorquino. Para ele, os filmes de Cassavetes são como peças de teatro que já estão transcorrendo quando a cortina é levantada (passam também a impressão de que continuam acontecendo depois que a cortina se fecha). Intencional ou não, a referência ao teatro é perfeita. Cassavetes veio do teatro, e retornava a ele regularmente, como ator e roteirista. “Uma Mulher Sob Influência” nasceu como roteiro para uma peça. Só não foi para os palcos porque a atriz Gena Rowlands, esposa e musa do diretor, objetou que o papel principal era emocionalmente exaustivo para ser repetido noite após noite. Ela tinha razão. Mabel, a ansiosa dona-de-casa cuja presença histérica domina a tela durante os 147 minutos, é a personagem-síntese da obra de Cassavetes.

O cineasta rodou o filme de forma independente, sem o apoio de estúdios. Os atores e técnicos eram amigos que trabalharam quase de graça, por amor à arte. Graças a eles, a obra-prima de Cassavetes e um dos melhores filmes americanos dos anos 1970 pôde tomar forma. Apesar disso, por pouco “Uma Mulher Sob Influência” não acabou engavetado. Sem a distribuição de um grande estúdio, Cassavetes teve que lutar com vontade para distribuí-lo, percorrendo pessoalmente os complexos de cinema para mendigar um lugar que pudesse exibi-lo. O filme estaria destinado ao esquecimento, se o colega Martin Scorsese – grande admirador do cinema de Cassavetes – não intercedesse em favor do diretor, a quem idolatrava.

Scorsese exigiu que o Festival de Cinema de Nova York incluísse “Uma Mulher Sob Influência” na competição, sob pena de retirar dela o elogiado “Alice Não Mora Mais Aqui” (1974), que acabara de dirigir. O filme de Cassavetes então foi visto, agradou e iniciou uma carreira vitoriosa. Conquistou indicações ao Oscar para marido e mulher, com Gena erguendo em outro prêmio importante, o Globo de Ouro, a estatueta de melhor atriz. Tudo, claro, de forma merecidíssima. “Uma Mulher Sob Influência” não é apenas cinema, é uma experiência emocional tão densa que quase pode ser cortada com uma faca. Trata-se de um filme tão duro que faz o espectador envelhecer um ano em duas horas. Além disso, é impossível não se emocionar com a intensidade da interpretação de Rowlands. Ela solta faíscas na tela.

A história é, como em todos os títulos de Cassavetes, bastante simples. Narra o colapso mental de uma dona-de-casa de classe média, compondo um retrato implacável de um casamento fracassado entre duas pessoas que se amam. Mabel (Rowlands) e o operário Nick (Peter Falk) são claramente apaixonados, mas existe algo de muito errado na relação. Eles não conseguem se comunicar. Nick vive no trabalho. Não tem tempo para a mulher ou para os três filhos, sabe disso e se sente culpado. Vive prometendo a si mesmo que aquilo mudará. Mas o trabalho exige mais e mais dele, e a situação vira uma bola de neve.

Solitária e carente, Mabel vai progressivamente se vergando sob o peso da ansiedade. Fica emocionalmente instável, vaga à noite por bares masculinos, dorme com outros homens e os chama de Nick. Não está louca, como os familiares dos dois querer crer. Apenas não consegue lidar a crise que se avoluma. A tensão sexual entre marido e mulher é quase sólida. Um abismo os divide. Será intransponível? É o que Cassavetes quer investigar: dois seres carentes e cheios de amor para dar, mas sem saber como. Terrível.

O filme é inteiramente composto por longas cenas que se passam quase em tempo real. A cada nova cena, Mabel afunda um pouco mais no abismo da ansiedade. São momentos de alta voltagem emocional, de intensidade quase insuportável. Marido e mulher enfrentam momentos duríssimos, são levados até o limite pela câmera de Cassavetes. A abordagem do diretor é casual, quase indiferente. Não é um ponto de vista impassível e nem caloroso. Apenas registra tudo, deixando a cargo de cada membro da platéia a tarefa de interpretar e incorporar as experiências dos personagens à sua própria. É material pesado para os atores; fica fácil entender porque Rowlands não quis interpretar Mabel no palco, enfrentando tanta dor todas as noites. E se ela está magnífica, Peter Falk não fica atrás: baixinho e meio zarolho, ele encarna o operário, culpado por não ter tempo para a família, mostrando uma dor que é quase física.

Este é o tipo de filme que exige atenção extrema do espectador, porque muito da jornada emocional daquela família está nas entrelinhas, no não-dito, nos longos e incômodos silêncios que pausam as discussões. Tome como exemplo a seqüência em que Nick leva os amigos para jantar em casa, após uma noite de trabalho duro, e Mabel cozinha espaguete para todos. Tomada pela ansiedade, ela só quer agradar. Mas não sabe como fazê-lo, e acaba criando uma situação de tamanha tensão que Nick é obrigado a interferir de forma grosseira, o que só piora tudo. “Uma Mulher Sob Influência” é uma sucessão ininterrupta de cenas perfeitas e traz verdadeiras aulas de atuação. Como se não bastasse, ainda possui um final intenso e maravilhosamente humano. Obra-prima.

O DVD nacional leva o selo da Cinemax e é baseado na edição norte-americana da Criterion Collection, com excelente qualidade de imagem (widescreen 1.85:1 anamórica) e áudio (Dolby Digital 1.0), mas sem os extras desta última.

– Uma Mulher Sob Influência (A Woman Under the Influence, EUA, 1974)
Direção: John Cassavetes
Elenco: Gena Rowlands, Peter Falk, Lady Rowlands, Katherine Cassavetes
Duração: 147 minutos

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