Múmia, A (1932)

15/07/2004 | Categoria: Críticas

Feições duras de Boris Karloff e fotografia refinada criam clássico do horror B

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Boris Karloff começava a desfrutar, em 1932, do status de rosto mais famoso do cinema de horror mundial. Na época, o gênero vivia um momento favorável, arrastando multidões aos cinemas para ver filmes de custo relativamente baixo. Karloff havia acabado de criar um magnético Frankenstein para o mítico cineasta James Whale, e os estúdios Universal queriam aproveitar a maré e capitalizar em cima das feições quadradas e marcantes do novo ídolo. Por isso planejaram “A Múmia” (The Mummy, EUA, 1932).

Essa é uma história perigosa, porque destrói a mitologia a respeito dos méritos artísticos do projeto, mas também é verdadeira. “A Múmia” não surgiu da mente privilegiada de nenhum esteta do cinema, mas da vontade de um estúdio que começava a se especializar em filmes baratos e lucrativos. A Universal, então, economizou ainda mais no orçamento, promovendo o fotógrafo alemão Karl Freund ao posto de diretor e rodeando Karloff de candidatos a astros ainda desconhecidos, como a atriz Zita Johann. O estúdio não sabia, mas estava preparando terreno para um dos filmes de horror mais influentes da história.

Não seria justo apontar um único responsável pelo feito, mas muito do mérito pertence a Freund, um dos pais da estética do impressionismo alemão (leia-se cenários opressivos, associados ao uso de contrastes fortes entre claros e escuros). Freund havia fotografado obras-primas como “Metropolis” (1927), de Fritz Lang, e “O Golem” (1920). Também tinha experiência com o horror, já que fizera a câmera de “Drácula” (1931), de Tod Browning, para a mesma Universal. Em “A Múmia”, ele foi responsável pela criação visual de seqüências extraordinárias, que iam de encontro a uma tradição do estúdio: sugerir, e não mostrar explicitamente, os acontecimentos macabros do filme.

A trama começa em 1921, quando uma expedição inglesa descobre no Egito a múmia de Im-Ho-Tep (Karloff), um sacerdote egípcio enterrado vivo há cerca de 3.700 anos. Na mesma tumba, um pergaminho traz o morto de volta à vida. A múmia, então, desaparece. Dez anos depois, uma outra expedição está prestas a retornar à Inglaterra de mãos vazias quando é procurada por um misterioso comerciante local, Ardath Bey (Karloff de novo). O homem indica aos arqueólogos a verdadeira localização do túmulo da princesa Anckesen-Amon (Johann). Logo os ingleses descobrirão que a múmia está viva e tenta reviver a nobre egípcia, sua amante no passado.

A ressurreição da múmia é uma seqüência que já vale o filme. Freund opta por criar uma cena feita com muitos planos fechados, o que aumenta incrivelmente a tensão, pois a platéia não vê o que está acontecendo. O primeiro plano, aberto, mostra o arqueólogo abrindo e recitando as palavras do antigo pergaminho. Em segundo plano, a múmia. Um corte fecha no rosto da múmia; após longos segundos, ela abre os olhos, no que deve ter sido um susto enorme, em 1932, para uma platéia pouco acostumada. Novo corte, e o espectador passa a ver apenas o outro lado da sala, onde o arqueólogo traduz o pergaminho de costas para o sarcófago. Não se vê mais a múmia.

O poder da sugestão transforma este em um dos grandes momentos do cinema de horror dos anos 1930. Aqui, o espectador não vê o que acontece; ele é obrigado a imaginar o que se passa fora da “janela” da câmera. Depois de alguns segundos, vemos uma mão enfaixada. O arqueólogo vê a mesma coisa, e a câmera se move sutilmente – para a direita, em direção ao homem assustado, e não para o monstro! O enquadramento perde a múmia de novo, e dessa vez não há retorno.

Boris Karloff surge, a partir daí, apenas como a encarnação humana de Im-Ho-Tep, usando uma maquiagem que o envelhece terrivelmente. “A Múmia” é, a rigor, um filme em que a imagem clássica do monstro não aparece, mas é mostrada apenas em segundo plano ou aos pedaços (uma mão aqui, uma perna ali, um rosto acolá). E, mesmo assim, talvez não haja duas seqüências completas com o ser envolto em bandagens que acostumamos a associar a esse tipo de longa-metragem.

Embora muita gente reclame da lentidão da trama, é preciso compreender que os filmes de 1932 não seguiam o mesmo ritmo alucinado da geração MTV. E o passo lento ajuda, ao invés de atrapalhar, na construção do ambiente soturno que a obra exige para poder funcionar. Se somarmos a isso o excelente desempenho de Karloff, cujos maneirismos duros e gestos deliberadamente presos dão um senso de gravidade e longo sofrimento (são 3.700 anos, caramba!) ao personagem, temos um filme antológico. E esse filme está disponível em um caprichado pacote de extras.

O DVD vem acompanhado de um documentário de meia hora, “Querida Múmia”, apresentado pelo historiador Rudy Behlmer. O programa reconstitui os bastidores do filme, mas perde um pouco o foco ao dar ênfase a aspectos que pouco contribuem para analisar o processo de produção, como as brigas homéricas entre o diretor e a atriz principal. O trecho mais interessante mostra o famoso maquiador Rick Baker (“O Planeta dos Macacos”, de 2001) imaginando como teria sido produzida a incrível maquiagem de Karloff.

Além disso, uma galeria de fotos exibe trechos de uma longa seqüência cortada, em que Zita Johann relembra várias de suas vidas passadas. Há ainda um trailer da época e um ótimo comentário sonoro do especialista Paul M. Jensen. Já o trabalho de restauração do filme deixa a desejar. A imagem está arranhada e o áudio, em formato Dolby Digital 1.0, soa como um disco de vinil repleto de chiados. Todos os extras estão legendados em português.

– A Múmia (The Mummy, EUA, 1932)
Direção: Karl Freund
Elenco: Boris Karloff, Zita Johann, David Manners, Arthur Byron
Duração: 73 minutos

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