Mundo em Guerra, O

21/08/2007 | Categoria: Críticas

Série inglesa de 1973 é o documento histórico mais importante sobre a II Guerra Mundial

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Era 1969 quando um dos produtores de uma pequena rede de TV na Inglaterra, chamada Thames Television, entrou na sede da emissora com uma folha de papel ofício. No rascunho, algumas frases datilografadas. Jeremy Isaacs se reuniu com executivos da rede e entregou o pedaço de papel que resumia o ambicioso projeto – Isaacs queria produzir simplesmente o programa definitivo sobre a II Guerra Mundial. Foram precisos cinco anos de trabalho duro e um orçamento de quatro milhões de libras para alcançar o objetivo. Aquele simples pedaço de papel se tornaria o megadocumentário “O Mundo em Guerra” (The World at War, Grã-Bretanha, 1974), referência obrigatória na área e documento histórico mais completo sobre o conflito mais sangrento do século XX.

Narrado pelo ator Laurence Olivier, em linguagem simples e didática, a série documental impressiona pelo olhar frio, rigoroso, quase clínico, que dedica à guerra mais violenta da história. De 1939 a 1945, o conflito ceifou mais de 55 milhões de vidas e produziu cenários desoladores, com metrópoles reduzidas a escombros e milhares de mortos. A série concebida por Isaacs tece uma espécie de homenagem às vítimas desta catástrofe produzida pela intolerância humana. Trata-se de um programa completo, em que as minúcias da guerra são vasculhas sob todos os pontos de vistas possíveis – a luta dos anônimos pela sobrevivência, as experiências dramáticas dos soldados, os bastidores políticos, as estratégias militares, tudo esclarecido em detalhes.

O maior trunfo de “O Mundo em Guerra” está na gigantesca e impecável coleção de imagens de arquivo coletada pelos pesquisadores contratados pelo produtor. Sabendo que literalmente todos os momentos importantes da guerra – bombardeios, reuniões secretas, batalhas no ar, no mar, na selva ou no deserto, destruição em massa de cidades e pessoas – haviam sido documentados por cinegrafistas militares, Isaacs despachou historiadores para arquivos e museus em 18 países. Essa turma assistiu a nada menos que 1.228 quilômetros de filmes, muitos deles jamais vistos por ninguém. A coleção de imagens conseguida é impressionante, e incluem até mesmo filmes caseiros de Hitler, feitos pela namorada Eva Braun.

Ao mesmo tempo, outro time de pesquisadores ia atrás de entrevistas com personagens que viveram cada uma das passagens importantes da guerra. A idéia de Isaacs era mesclar anônimos e famosos na mesma proporção, dando chance para que o espectador penetrasse tanto nos círculos íntimos do poder quanto na periferia atônita daqueles que lutavam sem saber o porquê. Novamente, um sucesso: medalhões como Albert Speer (ministro da Guerra de Hitler) e o almirante Karl Döenitz (último líder do império nazista, signatário da rendição do país) narraram, pela primeira vez, suas experiências na guerra. Até mesmo Karl Wolff, o sanguinário braço direito de Himmler na SS, topou falar, após um ano de insistentes encontros com uma das produtoras do programa.

Ministros e militares da alta hierarquia dos países envolvidos – Inglaterra, EUA, Japão – também comparecem com uma visão completa dos bastidores e das decisões mais difíceis da guerra. Intercaladas com os fatos contados pelos poderosos, histórias incríveis de personagens anônimos do conflito, como a do soldado que pegou malária 17 vezes na Birmânia, ou o drama maiúsculo dos sobreviventes ao cerco de Leningrado (Rússia), que passaram dois anos comendo um pão de 130 gramas por dia, um alimento feito de trigo misturado com pedaços de serragem e estuque.

A série foi ao ar entre outubro de 1974 e maio de 1975. A repercussão foi instantânea e avassaladora: os documentários ganharam um Emmy e diversos prêmios internacionais, enquanto Jeremy Isaacs acabou agraciado com o título de Sir. O sucesso foi tão grande, e tanto material interessante havia sido deixado de lado, que dois anos depois os produtores voltaram ao filmes de arquivo, realizando mais oito episódios que ampliavam alguns temas abordados antes. No total, são 32 horas de documentários que abordam tudo, da bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki aos campos de concentração europeus, da destruição em massa da Polônia aos ataques em Pearl Harbor, da guerra na poeira do norte da África à guerra na lama da Birmânia.

Em DVD, a coleção pode ser encontrada em vários formatos. A melhor caixa disponível, lançada nos EUA e na Europa, possui onze discos. Cada episódio aparece acrescido de depoimento em vídeo de Jeremy Isaacs, e há ainda um documentário adicional sobre os bastidores do programa. Os episódios também podem ser adquiridos em discos isolados. De uma forma ou de outra, trata-se de uma lição de História e de Jornalismo.

– O Mundo em Guerra (The World at War, Grã-Bretanha, 1974)
Documentário (produtor: Jeremy Isaacs)
Duração: 1.352 minutos (média de 52 minutos para cada um dos 26 episódios)

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