Mundo Perfeito, Um

29/09/2005 | Categoria: Críticas

Melodrama sobre a amizade entre um assassino e uma criança é ponto forte da obra de Clint Eastwood

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Quando saiu das filmagens do consagrador e tardio faroeste “Os Imperdoáveis”, o ator e diretor Clint Eastwood embarcou sem pausas num projeto que, para o público, marcou a grande virada de sua carreira. O sensível melodrama “Um Mundo Perfeito” (A Perfect World, EUA, 1993) foi recebido com choque genuíno pela platéia, uma reação que algumas pessoas podem ter dificuldade de compreender, caso não conheçam o contexto do lançamento. O fato é que, em 1993, Eastwood ainda não era visto como um autor maiúsculo, mesmo tendo ganho o Oscar de direção pelo longa-metragem anterior. Dele, as pessoas sempre esperavam mais um filme violento, jamais uma obra madura e sutil.

Dessa forma, no momento em que Clint apareceu com um filme sobre a relação de amizade entre uma criança e seu seqüestrador, ninguém conteve um esgar de surpresa. A maioria das pessoas considerava “Os Imperdoáveis”, uma obra iconoclasta capaz de destruir mitos sobre o faroeste que Eastwood ajudara a criar, como um evento isolado na carreira do cineasta, uma obra fechada em si mesmo. Pouca gente percebeu que Eastwood estava progressivamente se dedicando a temas mais sérios, e construindo personagens cada vez mais ricos, complexos e humanos. As pessoas ainda o viam como um brutamonte. Imaginar que Eastwood seria capaz de dirigir um filme de olhar tão singelo como “Um Mundo Perfeito” seria, em 1993, o mesmo que apostar em Bruce Willis dirigindo “Love Story”. Daí o choque.

Talvez influenciados pela surpresa, os cinéfilos cometeram um duplo erro de julgamento. Em 1993, Clint Eastwood também era visto como representante da mentalidade mais tacanha e conservadora dos EUA, em parte devido aos filmes violentos que fazia. A persona projetada pelo ator nos longas de Don Siegel era mais ou menos a de um integrante do Partido Republicano. “Um Mundo Perfeito” foi, então, saudado como o filme liberal, democrata, de Clint. E isso também não é inteiramente verdade. Em última instância, uma análise mais apurada da moral que guia os personagens principais da película, inclusive o seqüestrador, revela uma indisfarçável defesa dos valores familiares, algo bem ao gosto do pensamento do americano médio.

Isso não é bom nem ruim; é um fato. As pessoas não precisam necessariamente concordar com a visão de mundo de um cineasta para apreciarem os filmes que ele concebe. Ademais, Eastwood comprova, de uma vez por todas, que não segue normas, já que critica abertamente o conservadorismo feroz, por exemplo, das correntes religiosas mais conservadoras. O garoto Phillip (T.J. Lowther), que tem 7 anos, se apega ao ladrão e assassino Butch (Kevin Costner) porque vê nele a figura paterna que nunca teve, mas ajuda o fato de que Butch lhe dá a liberdade de vestir uma fantasia de Gasparzinho, comer doces e beber Coca-Cola, prazeres mundanos que o credo da família (eles são testemunhas de Jeová) não lhe permite no dia-a-dia.

O filme se passa em meados da década de 1960. Butch é um fugitivo da prisão que seqüestra o menino porque não tem alternativa, depois de impedir que o parceiro de fuga estupre a mãe do garoto. Mas, desde a primeira cena com os dois juntos, fica evidente que há uma empatia. Phillip é tímido e introvertido, e se ressente da falta do pai; Butch vê nele o reflexo de si mesmo, já que foi abandonado pelo pai aos 6 anos de idade. Nesse ponto, a psicologia do filme é bem simples, até um pouco simplista mesmo. Tudo bem: funciona.

Eastwood também está no longa-metragem como ator, e interpreta Red Garnett, o xerife encarregado de capturar o fugitivo. Ele conta com a ajuda involuntária de uma funcionária do Governo Estadual, Sally Gerber (Laura Dern). A narrativa segue caça e caçador, alternando os dramas dos personagens, mas se detendo bem mais longamente na relação fraternal entre ladrão e garoto. As rugas entre Red e Sally aparecem como um subtema, que evoca o conflito entre técnica e instinto, entre experiência e juventude. O diretor tem experiência bastante para não se deter nesse debate, claramente menos rico e complexo do que o drama humano que se desdobra na narrativa principal.

O personagem de Kevin Costner é fascinante. Ele conversa com Phillip naturalmente, com franqueza e paciência, mas sem mentiras. Muitos adultos costumam tratar as crianças como retardados mentais, mas não Butch. Na primeira vez em que se encontram, o menino acaba de levar um tapa do parceiro de fuga do ladrão. A arma da dupla está caída no chão. Butch não tenta consolar o garoto, como outra pessoa faria. Manda calmamente que ele apanhe a arma, aponte para o outro bandido e o xingue. Phillip o obedece com um sorriso delicioso. A atitude de Butch, o menino sabe disso, é uma atitude confidente, de amizade e respeito. O garoto percebe que finalmente encontrou um adulto que o ouve de verdade, e se enche de admiração.

Uma das melhores cenas acontece algum tempo depois, e é uma pequena seqüência, tão prosaica que um espectador desavisado não percebe sua magia. Depois de viajar muitas horas de carro, ladrão e menino param para descansar numa estrada rural. Eles saem do veículo, e Butch se encosta no carro, os braços cruzados sobre o corpo, as pernas ligeiramente arqueadas. Phillip se coloca ao lado dele, olhando atentamente para o adulto e repetindo sua postura. Butch não percebe a atitude do garoto. A platéia, talvez, também não. É um momento silencioso, que não precisa se palavras, bem ao gosto do estilo discreto de direção adotado por Eastwood.

Um ponto muito bacana do filme é que ele evita qualquer tendência maniqueísta que possa estragar a riqueza do personagem de Kevin Costner. Em um filme normal de Hollywood, Butch seria retratado como um modelo de conduta, um homem justo, altruísta e corajoso. Possivelmente, alguém que tivesse sido preso injustamente, pois não seria capaz de cometer um crime. Butch, ao contrário, não é assim. Ele é frio, violento e impulsivo. Mata dois homens desarmados, a sangue frio, durante a fuga. A primorosa seqüência que se passa dentro da casa do empregado negro de uma fazenda, onde Butch e Phillip passam uma noite, mostra como o ladrão equilibra dois lados distintos, um bom e um mau, no mesmo homem. Ele é capaz de ser carinhoso e compreensivo, especialmente com crianças, mas também pode perder as estribeiras e partir para a fúria irracional. Eis um homem com qualidades e defeitos, um ser humano comum.

Claro que, no final das contas, não existe redenção possível para alguém assim, e o filme encerra com uma nota amarga que é perfeitamente coerente com sua trama. É o final, aliás, que põe em contexto a intrigante seqüência de abertura. A tomada mostra Butch deitado na grama, dormindo, com a maior cara de felicidade, cercado por notas de dólar. Ao final do longa-metragem, você vai perceber que a imagem tem um significado bem diferente dos sentimentos contraditórios (liberdade, ganância) que evoca. “Um Mundo Perfeito” pode até não retratar o que o título promete, mas é um excelente exemplar do cinema adulto, discreto e emocionalmente rico que caracteriza a obra de Clint Eastwood, sem dúvida reconhecido tardiamente como um dos grandes autores do cinema norte-americano.

A Warner lançou o DVD no Brasil em uma edição espartana, bem básica, que contém apenas o filme, sem nenhum extra. O enquadramento original (widescreen 1.85:1) foi preservado, e o som ganhou uma mixagem em seis canais (Dolby Digital 5.1) bem decente.

– Um Mundo Perfeito (A Perfect World, EUA, 1993)
Direção: Clint Eastwood
Elenco: Kevin Costner, Clint Eastwood, Laura Dern, T.J. Lowther
Duração: 139 minutos

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