Munique

13/03/2007 | Categoria: Críticas

Spielberg realiza thriller complexo e pessimista que reflete sobre a violência política

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Steven Spielberg se cercou de todos os cuidados para evitar polêmica sobre “Munique” (Munich, EUA, 2005). Mesmo assim, não conseguiu. O tema é explosivo, pois dramatiza a reação secreta e violenta de Israel ao atentado terrorista cometido durante as Olimpíadas de 1972, na Alemanha. Judeu militante que nunca teve medo de louvar a pátria (“A Lista de Schindler” deixa isso bem claro), Spielberg temia ser acusado duplamente. Por um lado, de fazer um panfleto pró-Israel; pelo outro, de incitar o ódio judeu aos palestinos. Não fez nem uma coisa nem outra, mas um thriller complexo e pessimista, um bom filme de ação que reflete com propriedade sobre o ciclo de violência perpétua enfrentado pelos povos que vivem no Oriente Médio.

Como os melhores trabalhos de Spielberg, “Munique” insere drama humano dentro de uma trama básica de ação. O entretenimento que o diretor proporciona, porém, não é escapista, já que reflete com propriedade sobre uma questão importante da natureza humana – o pendor à reação primitiva, violenta, quando os fatos atingem as pessoas no emocional. Trata-se, ao mesmo tempo, de um thriller de espionagem clássico, com perseguições, explosões e assassinatos cruéis, e também do drama de consciência de um soldado enfurecido que, pouco a pouco, vê seu ponto de vista sobre o conflito abalado. O diretor se sai bem nas duas coisas, embora “Munique” não seja um filme perfeito, inclusive transpirando o medo do cineasta de ser mal interpretado, o que o faz sublinhar ainda mais sua já conhecida veia didática, explicando (às vezes mais do que o necessário) todos os detalhes da trama, tintim por tintim.

Spielberg não esconde que temeu pela repercussão polêmica. Ele mudou o título original (que seria “Vingança”, considerado negativo para os israelenses), pediu a um premiado escritor judeu (Tony Kushner, da série “Angels In América”) que suavizasse o roteiro original de Eric Roth, mais cru e violento, e até adotou a estratégia de não falar sobre o filme, aconselhado por assessores experientes na questão do Oriente Médio. Mesmo assim, não foram poucos os israelenses que reclamaram de “Munique”, acreditando que a obra vende a imagem de Israel como uma nação rancorosa e violenta. Não deixa de ser verdade, embora o enfoque de Spielberg deixe claro que a ação violenta patrocinada por Israel se insere dentro de uma espiral de violência que não começou ali e não tem um fim à vista no horizonte. Nesse sentido, o filme adota um tom pessimista que é novidade na obra do diretor.

“Munique” não deve mudar o ponto de vista de ninguém sobre os conflitos no Oriente Médio. Afinal, tudo depende da maneira como cada espectador interpreta a realidade (e, no caso do cinema, como cada membro da platéia interpreta a visão pessoal de um cineasta que já está interpretando a realidade à sua maneira). É fato, porém, que “Munique” supera a média do já excelente trabalho de Spielberg, algo que pode ser percebido na jornada madura e complexa do protagonista e, sobretudo, nos pequenos detalhes. Quer um exemplo? Quando foi a última vez que você viu, no cinema, uma cena de sexo tão delicada e de bom gosto envolvendo uma mulher grávida?

Como não poderia deixar de ser, a dramatização da reação israelense ao atentado das Olimpíadas de Munique não segue uma linha documental. Spielberg narra os fatos sob uma ótica subjetiva, do ponto de vista de um único homem. Ele é Avner (Eric Bana), ex-guarda-costas da primeira-ministra israelense Golda Meir. O agente secreto recebe uma proposta inusitada, dias após o atentado em Munique, quando membros da facção terrorista Setembro Negro invadiram o alojamento dos atletas, seqüestrando e depois matando onze atletas da delegação de Israel. O Mossad, serviço secreto de Israel, quer utilizá-lo como líder de uma célula, montada à semelhança de uma organização terrorista (ou seja, sem laços com a base planejadora), que terá a missão de caçar e executar onze palestinos, identificados como planejadores da ação em Munique. O filme acompanha a trajetória dos cinco homens selecionados para a missão durante dois anos.

Avner é um típico herói de Spielberg. Ele é um homem essencialmente bom; mais do que isso, é intensamente dedicado à família. Craque na cozinha e marido apaixonado, ele deixa a mulher, grávida de sete meses, movido por um senso inabalável de patriotismo. Como todo soldado, não questiona a missão. Ele é avesso à violência (quando precisa apertar o gatilho pela primeira vez, titubeia), mas entra de cabeça erguida na vida clandestina de caçador de terroristas, o que o leva a lugares díspares como Paris, Londres, Nova York, Genebra, Tel-Aviv e Beirute, em uma caçada humana que possui momentos de alta voltagem dramática. Como thriller de espionagem, “Munique” funciona muito bem, especialmente rumo ao final, mais amargo, dramático e reflexivo do que o habitual.

Na tarefa de expressar a trajetória emocional do espião israelense, Spielberg opta por não narrar os fatos com frieza e distanciamento emocional, abordagem que poderia deixar o filme mais cru e objetivo. O diretor não consegue se desvencilhar do elemento que marca obsessivamente sua obra – a família. Avner é, acima de tudo, um homem familiar. Ama a esposa, jamais a trai e chora amargamente quando percebe os momentos preciosos do crescimento de sua filha que está perdendo. Nada de errado com isso, se não estivéssemos vendo uma trama de vingança arquitetada minuciosamente por um dos serviços secretos com fama mais implacável do mundo. É difícil acreditar que o Mossad pudesse escolher, para levar a cabo uma tarefa tão violenta, um homem tão doce. Assassinos profissionais precisam ser frios e práticos.

Outros aspectos da narrativa voltam a denunciar a importância da família para o diretor de “A Lista de Schindler”. Um dos alvos da equipe de Avner, por exemplo, é um rico comerciante estabelecido em Paris, que possui esposa e filha. O israelense chega a abortar o plano do assassinato, construído minuciosamente e a alto custo, apenas para poupar a garotinha. Além disso, é interessante perceber como o cineasta mostra os contatos franceses que vendem informações sigilosas sobre o paradeiro dos homens procurados ao espião de Israel. Não formam uma organização rígida e violenta como a KGB ou a CIA, mas uma família de hábitos rurais, acolhedora e calorosa, como os Corleone de “O Poderoso Chefão”. É gente com quem Avner simpatiza, e vice-versa.

Para interpretar as duas dúzias de personagens que se cruzam no decorrer dos dois anos que o filme cobre, Spielberg contou com um elenco formado na maioria por ingleses, franceses, alemães e australianos, boa parte deles desconhecidos para os olhos das platéias dos Multiplex. Isso é um dado positivo, na medida em que conseguimos ver naquelas pessoas não astros de Hollywood interpretando papéis, mas rostos desconhecidos que circulam pelas metrópoles como fantasmas que perseguem outros fantasmas. O trabalho dos atores é uniforme e exemplar, desde o olhar triste e determinado de Eric Bana até o sarcasmo de Geoffrey Rush, no papel do contato de Avner dentro do Mossad.

No aspecto técnico, Spielberg mostra a já lendária competência, com destaque para a fotografia de cores lavadas de Janusz Kaminski, que emula os antigos thrillers de espionagem dos anos 1970 com perfeição, inclusive caprichando em composições excepcionais (um take brilhante mostra um agente procurando uma cápsula da bala, na cena do assassinato, enquanto poças de sangue e leite se unem aos poucos, em uma linda metáfora visual de morte e nascimento) e utilizando iluminação em contra-luz com abundância. Mas o ponto forte de “Munique” está nos diálogos, mais densos e inteligentes do que a média do trabalho de Spielberg. Talvez o mais interessante deles aconteça entre Avner e um terrorista árabe que ele conhece numa base operacional; os dois se revelam homens inteligentes e sensíveis, capazes de compreender as respectivas causas que defendem, sem alimentar ilusões sobre sonhos de paz. A seqüência tem sido uma das mais criticadas de “Munique”, por supostamente mostrar que os terroristas também têm famílias e são homens capazes de atos bondosos.

O balanço final de “Munique” é amplamente positivo, inclusive reconhecendo os momentos de melodrama que a platéia pode considerar exageros dramáticos (“sabe como foi difícil para mim dizer um negócio ridículo como esse?”, diz Avner à esposa que sorri cinicamente, depois de uma declaração de amor que, se tratada com tom sério, poderia soar mesmo ridícula). Na galeria dos filmes sérios do cineasta norte-americano, “Munique” é superior a “O Resgate do Soldado Ryan” e fica bem perto da excelência de “A Lista de Schindler”.

O melhor de tudo é que Spielberg consegue capturar a tortuosa e complexa jornada emocional do espião israelense, com sutileza e riqueza de detalhes. O filme ilustra muito bem a progressiva mudança na consciência do agente secreto, no decorrer da missão. Alguém que entra em uma guerra não sai dela incólume, e “Munique” exibe isso com firmeza. Aos poucos, o homem hesitante vai dando lugar a um soldado determinado, progressivamente mais e mais paranóico, e por fim amargo, ao compreender que o ciclo de violência não vai terminar com a execução das 11 mortes para as quais foi contratado, e que o conceito de pátria é bem mais complexo do que jamais imaginara. Ilustrar essa trajetória individual foi o objetivo maior de Spielberg, e nesse aspecto o cineasta fez um grande filme.

O lançamento brasileiro é da Universal. O disco é simples, contém apenas o filme, sem material extra. O enquadramento original foi preservado (widescreen 2.35:1 anamórfico) e som está ótimo (Dolby Digital 5.1).

– Munique (Munich, EUA, 2005)
Direção: Steven Spielberg
Elenco: Eric Bana, Daniel Craig, Mathieu Kassovitz, Geoffrey Rush
Duração: 164 minutos

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