Mutilados

12/04/2007 | Categoria: Críticas

Horror inglês de baixo orçamento ganha pontos extras pelo senso de humor demente

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Funcionários da divisão de vendas de uma multinacional fabricante de armas pesadas são levados a uma remota área montanhosa, no Leste europeu, para um encontro de reciclagem que durará um fim de semana. A premissa inicial de “Mutilados” (Severance, Inglaterra/Alemanha, 2006) dá a senha: estamos diante de mais um slasher movie, mais especificamente um exemplar do subgênero “grupo-de-amigos-é-dizimado-aos-poucos-por-serial-killers-desconhecidos”, na linha de “Sexta-Feira 13” e outras series de baixo orçamento. São filmes famosos pelas quantidades industriais de sangue e peitos femininos desnudos, características que batem ponto aqui, mas não com tanta assiduidade quanto seria de se esperar.

O que agrega pontos extras ao segundo longa-metragem de Christopher Smith (autor de “Plataforma do Medo”, de 2004, com a estrela alemã Franka Potente) é o senso de humor negro, bizarro e cínico, responsável por algumas seqüências realmente divertidas. Ainda não traga nenhum elemento realmente novo ao gênero, Smith pontua a matança desenfreada com detalhes curiosos e impagáveis, chegando inclusive a usar cenas inteiras apenas para construir piadas que atingem pontuação máxima no quesito “bizarrice”. Há material suficiente para enfurecer politicamente corretos, que devem ficar distantes disto aqui.

Como a maior parte das produções dos novos cineastas de horror independentes, “Mutilados” investe em uma galeria de personagens misóginos, machistas e doidões. O grupo de protagonistas é, como sempre, bem diversificado e estranho: tem um maluco comedor de cogumelos, um executivo de meia-idade obsessivo por melhorar o desempenho na empresa, um negro solitário, um nerd gordinho de óculos e barba mal-feita, uma perua loira que anda de salto alto no meio da floresta e uma garota feiosa amante de insetos. Um detalhe interessante é que o filme não assume o ponto de vista de nenhum deles, e desta forma o espectador não consegue antecipar quem será atacado primeiro e quem sobreviverá à matança.

Sem demora, Smith coloca seus peões no tabuleiro (ou melhor, os personagens no meio da floresta), e então se dedica a construir um clima assustador, recorrendo a truques usuais de filmes do gênero, como vultos que passam na frente da câmera sem serem vistos pelos personagens. Quando o sangue começa a escorrer, não pára mais. E aí o cineasta inglês não economiza no humor negro, pontuando cada morte bizarra com pelo menos uma piada hilariante – algumas vezes as próprias agressões dos assassinos já são engraçadas por si mesmo, de um modo saudavelmente demente.

Numa das piadas construídas com mais cuidado, dois personagens caminham pela floresta conversando sobre assuntos macabros, e comentam que uma pessoa decapitada demora de dois a três minutos para perder a consciência, sendo obrigada a contemplar o próprio corpo degolado nestes instantes terríveis. Uns 20 minutos mais à frente, adivinhe o que acontece com um dos dois infelizes? Em outra cena, outro personagem saca um lança-mísseis portátil (lembre-se que todos são empregados de uma firma de armas pesadas) para se defender dos matadores, e o disparo acaba atingindo um alvo, digamos, bem inusitado. O senso de humor pode não agradar a todo mundo, mas dentro da proposta politicamente incorreta do filme, é bem adequado.

De resto, há bem menos nudez feminina do que a prólogo curto e sangrento promete, e os assassinatos em si são bem espaçados. Como ponto negativo, além da previsibilidade natural dos exemplares do gênero, é o retrato algo preconceituoso dos países do Leste europeu, sempre pintados pelos filmes ocidentais como um lugar sinistro, ermo, habitado por loiras gostosas e homens brutos, mal-encarados e de barba rala, onde a violência come solta e sem nenhum controle. Se você curte slasher movies, dê um desconto e encare.

O DVD da PlayArte é simples e não contém extras. O filme tem qualidade de imagem (widescreen anamórfica) boa, e áudio (Dolby Digital 2.0) razoável.

– Mutilados (Severance, Inglaterra/Alemanha, 2006)
Direção: Christopher Smith
Elenco: Danny Dyer, Laura Harris, Toby Stephens, Andy Nyman
Duração: 95 minutos

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