Na Cama

24/04/2008 | Categoria: Críticas

Filme chileno tranca rapaz e garota num quarto de motel por 80 minutos e filma o papo e o sexo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

É difícil imaginar um filme de custo mais baixo do que o chileno “Na Cama” (Em La Cama, Chile/Alemanha, 2006). São apenas dois atores desconhecidos, contracenando o tempo todo no quarto de um motel vagabundo, com uma única cena passada em outro ambiente – o banheiro anexo, tão sujo e kitsch quanto o próprio quarto. Ao contrário do que se pode crer, porém, “Na Cama” não tem nada de minimalista: é colorido, fogoso, latino, vigoroso e sensual. Ou seja, um longa-metragem de alma jovem, filmada com o tesão da juventude, com todas as virtudes e defeitos que isto significa – dá até para dizer quem, em certa medida, virtudes e defeitos se confundem.

A seqüência de abertura dá o tom. Durante alguns minutos, vêem-se apenas sombras e pedaços de dois corpos entrelaçados em pleno ato sexual (o sexo não é explícito, mas chega perto), filmados em closes fechados, quase expressionistas. A câmera vai se afastando da ação aos poucos, até revelar Daniela (Blanca Lewin) e Bruno (Gonzalo Valenzuela). A platéia descobre aos poucos quem são eles: dois jovens de Santiago, no Chile, que acabam de se conhecer em uma festa e mal sabem o nome um do outro. A atração física, imediata, os mandou para o motel mais próximo. “Na Cama” é basicamente o relato da madrugada que eles passam juntos, intercalando transas tórridas e bate-papo manhoso para matar o tempo.

A conversa entre os dois, pontuadas por momentos embaraçosos de silêncio e discussões descontraídas sobre amizade, namorados do passado, camisinhas e lendas urbanas que envolvem quartos de motel, é o ponto alto do filme. A empatia é instantânea para qualquer espectador que já tenha vivido uma noite de sexo com pessoa desconhecida – as hesitações, as tentativas canhestras de descobrir mais sobre o parceiro, a vontade de saber se ele(a) vai ligar no dia seguinte, o medo de uma gravidez indesejada, está tudo lá.

Em certo momento, depois de duas transas praticamente ininterruptas, e diante do fogo de Daniela (além de linda, Blanca Lewin chama a atenção pela naturalidade da atuação), Bruno até mesmo explica para ela, naquela típica e machista linguagem obscura de quem diz sem pronunciar as palavras claramente, que precisa de algum tempo para conseguir ficar novamente em ponto de bala (“leva de 15 minutos a uma hora”), no que a garota responde fazendo um hilário e ao mesmo tempo excitante strip tease. Nos melhores momentos, e eles incluem as tomadas ardentes de sexo quase explícito, a impressão é de que estamos observando uma noite real de dois amantes que acabaram de se conhecer, estão prestes a se apaixonar, mas têm medo de entregar o jogo cedo demais e gerar desinteresse no outro.

O que atrapalha um pouco a sensação de espontaneidade que emana do filme é o excesso de estilo, tanto na fotografia quanto na edição. A câmera de Matias Bize se recusa a simplesmente registrar a ação, procurando sempre colocar um efeito mirabolante a mais. O diretor usa enquadramentos bem fechados, utiliza o close de maneira abrupta, brinca com o foco e abusa de efeitos de split screen (tela dividida em duas), chamando demais a atenção para si mesmo. A estetização excessiva é amplificada pela edição picotada, que insiste em trocar de ângulo com velocidade, como se os cinegrafistas estivessem entediados com a mesmice do cenário e tentassem compensar isso com múltiplos cortes e movimentos de câmera. Com uma direção menos intrusiva, teríamos aqui um belo filme jovem sobre paixão que não deixaria nada a dever a longas como “Antes do Amanhecer” (1995) ou “Albergue Espanhol” (2002).

– Na Cama (Em La Cama, Chile/Alemanha, 2006)
Direção: Matias Bize
Elenco: Blanca Lewin, Gonzalo Valenzuela
Duração: 85 minutos

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