Na Companhia do Medo

04/10/2004 | Categoria: Críticas

Mathieu Kassovitz falha feio na estréia em Hollywood e entrega suspense sobrenatural bobo e sem graça

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★½☆☆☆

Filmes de terror sobrenatural têm sido uma ótima porta de entrada para cineastas talentosos e novatos em Hollywood. Isso aconteceu com M. Night Shyamalan em “O Sexto Sentido”, e Gore Verbinski experimentou um, grande salto na carreira após o sucesso de “O Chamado”. A bola da vez é o francês Mathieu Kassovitz, que assina “Na Companhia do Medo” (Gothika, EUA, 2003), o primeiro projeto montada para a atriz Halle Berry depois de ter ganho o Oscar.

Kassovitz tinha boas chances de fazer uma entrada triunfal na indústria mais poderosa do cinema, mas falhou feio na tarefa. Autor de obras arrojadas e talentosas na França, como o violento e polêmico “O Ódio” e o bom policial “Rios Vermelhos”, ele já havia colocado um pé no mercado norte-americano ao participar como ator do sucesso de “O Fabuloso Destino de Amèlie Poulain” (Kassovitz, você vai lembrar, fazia Nino, a paixão da protagonista). Em “Na Companhia do Medo”, Kassovitz entrega um filme repleto de clichês, com personagens rasos e mal construídos, direção pesada e burocrática.

A psiquiatra Miranda Grey (Halle Berry) trabalha num manicômio judiciário, onde ficam presos os loucos considerados perigosos. Ela é uma mulher extremamente racional, que tem um casamento sólido com o diretor da instituição, Doug (Charles D. Sutton), e paquera sutilmente um colega de trabalho, Pete Graham (Robert Downey Jr). O mundo de Miranda desaba quando, durante uma noite de tempestade, ela pega um atalho para voltar para casa e sofre um acidente. Ao acordar, três dias depois, descobre que está presa pelo assassinato brutal do próprio marido. O que se segue é uma investigação insólita, em que Miranda Grey começa a desconfiar que está possuída pelo espírito de uma garota morta quatro anos antes.

“Na Companhia do Medo” começa a se perder logo nos minutos iniciais, quando os desejos e traços psicológicos de cada personagem deveriam ser definidos, mas não são. A natureza sobrenatural do mistério também fica clara muito cedo, o que dissipa inteiramente a possibilidade de criação de mistério ou suspense na trama. Assim, os sustos são rasos, superficiais e previsíveis, e duram apenas até a próxima cena, sem terem nenhum tipo de repercussão dentro do enredo, que mais parece um queijo suíço, tantos são os buracos. Repare, por exemplo, na maneira absolutamente inverossímil como Miranda, a certa altura, consegue fugir do manicômio.

Além disso, Kassovitz abusa dos clichês do gênero (sustos envolvendo espelhos, noites de tempestade com trovões, aparições vestidas de branco e com a pele apodrecida) sem o menor traço de sutileza. Os personagens também estão entre os mais fracos e superficiais dos últimos tempos no cinema; nenhum deles tem motivações fortes. Até mesmo a investigação da protagonista em busca da própria inocência possui lances bisonhos: qual o suspeito de assassinato que voltaria, sem razão aparente, à cena do crime, que está sendo vigiada pela polícia?

Por causa de furos como esse, Kassovitz jamais consegue deixar o espectador em estado de medo ou tensão. Nisso, é ajudado pelo fraco elenco, que tem Halle Berry em atuação quase histérica e Robert Downey Jr. com ar de enfado ou ressaca, como se ainda estivesse sob os efeitos de um porre monumental. Considerando os nomes envolvidos, é possível dizer com certeza que “Na Companhia do Medo” seja uma das maiores decepções de 2003. Tomara que Walter Salles, que prepara também sua estréia em Hollywood com uma refilmagem de terror japonês, não caia na mesma armadilha.

– Na Companhia do Medo (Gothika, EUA, 2003)
Direção: Mathieu Kassovitz
Elenco: Halle Berry, Robert Downey Jr, Penélope Cruz, Charles S. Dutton
Duração: 95 minutos

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