Na Mira do Chefe

21/01/2009 | Categoria: Críticas

Estréia de Martin McDonagh na direção é comédia de humor negro repleta de personagens divertidos e situações insólitas

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

A cidade de Bruges, no norte da Bélgica, possui um dos mais bem preservados casarios da Idade Média de toda a Europa. Graças às dezenas de residências que datam dos séculos XII e XIII e a uma rede de canais construída na mesma época, o pequeno centro comercial de 110 mil habitantes se transformou num destino turístico importante para aqueles que visitam os Países Baixos. É para lá que dois assassinos profissionais ingleses são enviados pelo chefe, depois que um serviçinho encomendado a eles termina de modo bombasticamente trágico. O mais experiente deles, Ken (Brendan Gleeson), fica encantado com a idéia de tirar uns dias de folga e passear pela região. O problema é o mais jovem dos dois, Ray (Colin Farrell), que não saca bulhufas de História e não tem o menor interesse em aprender, simplesmente detesta a cidade. Ou seja, a temporada promete ser cheia de conflitos.

O conflito dramático que move a ação de “Na Mira do Chefe” (In Bruges, Reino Unido, 2008), portanto, é de ordem íntima. Apesar de terem gostos pessoais muito diferentes, os dois são grandes amigos – e a reação oposta da dupla à situação cria a primeira de uma série rusgas entre eles, que vai ser amplificada quando o verdadeiro motivo para o qual eles estão ali vier à tona. “Na Mira do Chefe” é a promissora estréia cinematográfica do dramaturgo Martin McDonagh, mais afeito a escrever e dirigir espetáculos teatrais em Londres. Trata-se de uma brilhante comédia de humor negro, povoada de situação insólitas, personagens divertidos e um roteiro afiado, que constrói com fluidez situações dramáticas improváveis, criando generosas guinadas inesperadas, e traz um subtexto despretensioso, que brinca com a indústria do turismo europeu.

É curioso que “Na Mira do Chefe” só tenha ganhado respeito quase um ano depois de seu lançamento oficial, em janeiro de 2008. A obra abriu o tradicional Festival de Sundance (EUA), garantindo aplausos mas despertando pouco interesse dos grandes estúdios. Esse desinteresse, aliás, é explicável com certa facilidade, já que o humor do longa-metragem é bem britânico (ou seja, sofisticado e pouco popular), e a ausência quase completa de cenas de ação física, apesar de o ritmo ser dinâmico e bem resolvido, representa uma barreira para o público norte-americano. Alheio a esses detalhes comerciais, o elenco faz a festa em “Na Mira do Chefe”. Todos os atores – inclusive Ralph Fiennes, que entra na trama a partir da metade – entregam interpretações espontâneas e perfeitamente adequadas, algo que ficou bastante claro com o prêmio de atuação entregue a Colin Farrell no Globo de Ouro do ano seguinte. Foi justamente aí, quando o título já tinha até saído em DVD, que “Na Mira do Chefe” chamou a atenção do grande público.

Para os admiradores do estilo satírico da comédia inglesa típica, o longa-metragem é um prato cheio. Confira, por exemplo, a seqüência impagável em que Ray tenta levar para a cama uma garota belga (Clémence Poésy) que está trabalhando como assistente de produção de um filme de baixo orçamento que está sendo rodado na cidade (na verdade, a tarefa dela é arrumar drogas lícitas e ilícitas para os atores), e arruma briga com um ex-namorado dela. Não achou muito engraçado? Então tente não rir com o mau-humor insuportável apresentado pelo rapaz, enquanto o colega Ken tenta visitar os pontos turísticos mais interessantes da bela cidade medieval (“Para quê tenho que subir nessa torre? Ficar cansado só para ver o que eu já consigo ver aqui de baixo? Não, obrigado”).

Um dos méritos do filme é trafegar com desenvoltura por gêneros distintos, ao invés de fincar as garras num estilo de comédia mais pastelão. Se assim fosse, até poderia haver mais gargalhadas, mas a troco do sacrifício da trama, que não apenas existe, mas é sólida e imaginativa. Há momentos dramáticos interessantes e também um flerte explícito com o suspense/horror, através de uma série de citações visuais ao maravilhoso “Inverno de Sangue em Veneza”, thriller de Nicolas Roeg cujo visual – tomadas sombrias de pontes, canais e construções antigas – é emulado com inteligência. Para que fique bem clara a inspiração, McDonagh faz com que o “filme dentro do filme”seja justamente uma refilmagem da obra de Roeg, inclusive com um anão (Jordan Prentice) viciado em tranqüilizante para cavalos no papel principal. Para finalizar, o belo casario de Bruges garante paisagens de sonho. Delícia de filme.

O DVD nacional tem o selo da Europa Filmes. O longa aparece com enquadramento original (widescreen anamórfico) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1). Os extras incluem making of (14 minutos), featurette sobre Bruges (7 minutos), passeio de barco pelos canais da cidade (6 minutos de imagens sem texto), cenas cortadas (13 delas, totalizando 18 minutos) e erros de gravação (6 minutos), tudo com legendas em português.

– Na Mira do Chefe (In Bruges, Reino Unido, 2008)
Direção: Martin McDonagh
Elenco: Colin Farrell, Brendan Gleeson, Ralph Fiennes, Clémence Poésy
Duração: 107 minutos

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