Nação Fast Food

04/12/2007 | Categoria: Críticas

Ambicioso painel multi-personagens traz a verve incendiária do cineasta Richard Linklater

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Na época do colégio, quando os alunos chegavam sonolentos e aborrecidos para uma aula de Química às 7h da manhã, era normal ouvir o professor repetir uma anedota sob o café da manhã (que ninguém havia tido tempo de tomar). Ele recomendava que a gente comesse coalhada, porque era um lanche rápido, mas fazia uma ressalva: jamais olhar uma porção do alimento num microscópio. “Quem sabe o que existe dentro de um copo de coalhada não tem coragem de tomá-lo”, costumava dizer. Troque a coalhada por hambúrguer e você tem a mensagem exata de “Nação Fast Food” (Fast Food Nation, EUA, 2006), ambicioso painel multi-personagens em que o diretor Richard Linklater exercita sua verve panfletária, com resultados discutíveis.

O título original do filme não deixa dúvidas de que o comentário do engajado cineasta texano é politicamente bombástico, e não haveria nada de errado com isto, se tal reflexão não fosse feita num irritante tom de denúncia auto-importante que automaticamente reduz a importância do filme enquanto cinema. “Nação Fast Food” denuncia a indústria de lanches rápidos da mesma forma que “Traffic”(2000), de Steven Soderbergh, discursava contra o tráfico de drogas. Linklater arma um painel de duas dúzias de personagens para mostrar, de todos os ângulos possíveis, o que há de errado com as cintilantes e coloridas lanchonetes que vendem sanduíches gordurosos e, porque não, deliciosos.

A ação é dividida em três núcleos principais. No primeiro, o executivo de marketing de uma rede de lanchonetes (Greg Kinnear) é enviado a uma cidadezinha no interior do Texas, para investigar o motivo de a carne dos hambúrgueres da rede (fictícia, uma mistura de McDonald’s com Bob’s) apresentar altos índices de coliformes fecais. O segundo enfoca o duro cotidiano dos imigrantes mexicanos ilegais, que cruzam a fronteira para trabalhar na fábrica de processamento de carne da tal cidade – a ação acompanha de perto um jovem casal recém-chegado (Catalina Sandino Moreno e Wilmer Valderrama). O terceiro núcleo persegue os estudantes do ensino médio que trabalham nas lanchonetes da rede, com ênfase em Amber (Ashley Johnson), garota esperta que começa a desenvolver uma consciência ecológico-humanística que a faz questionar o próprio emprego.

Um ponto de destaque é o enorme elenco, repleto de estrelas que fazem pontas em uma ou duas cenas cada (Bruce Willis, Patricia Arquette, Kris Kristofferson, Ethan Hawke). A parte jovem do elenco também levanta a sobrancelha de qualquer cinéfilo antenado, incluindo gente talentosa como a colombiana Catalina Sandino Moreno e Paul Dano, que trabalharia novamente com Greg Kinnear no paparicado “Pequena Miss Sunshine” (2006). São tantos personagens que Linklater e o co-roteirista Eric Schlosser não conseguem desenvolver nenhum deles. Um a um, os personagens entram e saem da narrativa sem chamar a atenção, criando um quadro que é tão abrangente e informativo quanto artificial. O executivo interpretado por Kinnear, por exemplo, domina toda a primeira metade, mas some da projeção abruptamente para não mais retornar. E isto é muito ruim.

Por outro lado, não há como negar que Linklater despeja aqui toda a verve incendiária que já demonstrou em tantos outros projetos (“Antes do Amanhecer”, “Escola do Rock”, “O Homem Duplo”). Dono de uma carreira interessante, Linklater cria muitas seqüências que, isoladamente, funcionam bem, pois refletem de forma engajada e corajosa sobre uma enorme miríade de temas – se formam um conjunto irregular é outro problema.

Com economia narrativa, por exemplo, o cineasta traça um retrato seco do problema dos subempregos, reservados (e sutilmente estimulados) aos imigrantes ilegais recrutados no estrangeiro por uma sociedade que precisa de mão-de-obra sem qualificação para executar tarefas economicamente importantes, mas que ninguém que fazer. Da mesma forma, Linklater olha sem comiseração para a rebeldia utópica e inócua dos adolescentes que sentem haver algo errado com tudo aquilo, mas não têm idéia do que fazer para reagir. O cineasta guarda para o final, ainda, uma série de duras imagens de sangue que vão fazer você pensar duas vezes antes de pedir um hambúrguer na lanchonete mais próxima.

O DVD da Focus Filmes é simples, com qualidade OK de imagem (widescreen 1.85:1 anamórfica) e som (Dolby Digital 5.1).

– Nação Fast Food (Fast Food Nation, EUA, 2006)
Direção: Richard Linklater
Elenco: Greg Kinnear, Catalina Sandino Moreno, Wilmer Valderrama, Ashley Johnson
Duração: 116 minutos

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