Não Amarás

26/03/2008 | Categoria: Críticas

Versão longa de episódio do ‘Decálogo’ mostra a visão delicada e poética de Kieswloski sobre o amor e a ética

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Na sempre tensa e polêmica relação entre o cinema e a TV, o diretor polonês Krzysztof Kieslowki representa um caso curioso. Afinal de contas, foi graças a um projeto realizado originalmente para a televisão que o trabalho dele ganhou fama e reconhecimento cinematográfico internacional. E se é verdade que o “Decálogo” está no topo dos melhores trabalhos de Kieslowski, então “Não Amarás” (Krótki Film o Milosci, Polônia, 1988) merece o rótulo de um dos mais poéticos, delicados e inteligentes filmes do diretor. Mesmo que não tenha sido gestado originalmente para exibição em cinemas.

A gênese da produção está no já citado “Decálogo”, projeto negociado pelo diretor com a emissora de televisão estatal da Polônia. A série consistiu de dez médias-metragens, cada um com uma hora de duração, em que Kieslowski e o roteirista Krzysztof Piesiewicz abordam livremente os temas fundamentais da condição humana – amor, raiva, compaixão, desejo, inveja – no cenário de um complexo habitacional polonês. Moradores dos apartamentos cinzentos eram os protagonistas das dez histórias, que se cruzavam sutilmente para compor um mosaico universal da condição humana, inspirado pelos dez mandamentos católicos.

Após a exibição da série na TV, e contando com um sucesso crítico inesperado cujos ecos chegaram aos círculos internacionais de cinéfilos, Kieslowski conseguiu financiamento para remontar dois dos dez segmentos do projeto, dando a ambos uma maior duração e realizando lançamentos na tela grande. Ele escolheu os episódios cinco (“Não Matarás”) e seis (“Não Amarás”). Depois de prontos, ambos freqüentaram o prestigiado circuito de festivais europeus, e “Não Matarás” alcançou maior repercussão. Os dois são ótimos trabalhos, mas os admiradores do trabalho de Kieslowski vão reconhecer no segundo, com mais facilidade, as marcas registradas do diretor.

Além de possuir uma narrativa mais poética, a versão extensa do sexto episódio do “Decálogo” cruza, numa história encharcada de afeto e sublinhada por uma pungente trilha sonora de Zbigniew Preisner, composta a base de piano e violão, dois temas fundamentais de sua obra: o amor incompreendido e a fluidez das éticas pessoais (um terceiro tema, as coincidências, só faz sentido dentro do contexto completo do “Decálogo”). É possível traçar aproximações deste longa com “A Dupla Vida de Veronique” (1991) e, em maior grau, com o terceiro episódio da Trilogia das Cores, o magnífico “A Fraternidade é Vermelha” (1994). Como neste último, Kieslowski inclui um elemento voyeur –influência direta de um autor bem diferente dele, Alfred Hitchcock – como elemento fundamental da narrativa.

O personagem principal é um tímido adolescente de 19 anos. Retraído e sem amigos desde que seu único colega de infância viajou para o exterior, Tomas (Olaf Lubaszenko) trabalha o dia inteiro e passa as noites sozinho, brincando com um telescópio. Ele observa os encontros amorosos de uma mulher mais velha, Magda (Grazyna Szapolowska), e acaba se apaixonando por ela. Tomas liga diariamente para a vizinha, mas não tem coragem de se apresentar, e permanece em silêncio. Além disso, envia avisos para que ela compareça aos Correios, onde dá expediente, apenas para poder vê-la. Ele se torna cada vez mais obsessivo. Na primeira parte de “Não Amarás”, Kieslowski não deixa dúvidas sobre o comportamento moralmente condenável do rapaz.

Em certo momento, após uma ríspida discussão dentro da agência de Correios, Tomas toma coragem e abre o jogo com Magda. Não apenas sobre o que sente por ela, mas também sobre os pequenos truques sujos que vem utilizando para espioná-la. De forma sutil, Kieslowski usa a estudada reação da moça para observar, com algum distanciamento, os efeitos do tempo – e das seguidas desilusões amorosas a que qualquer ser humano está sujeito – sobre o amor. À pureza do sentimento de Tomas, o diretor contrapõe o cinismo de Magda. Aos poucos, sem que o espectador perceba claramente, os protagonistas mudam de posição no campo moral. De repente, as ações do rapaz parecem mais honestas, e as dela passam a ser calculadas para feri-lo, o que também é condenável. Kieslowski mostra que uma pessoa pode estar certa num minuto, e errada no seguinte, diante da mesma situação.

É revelado, então, o tema mais interessante do “Decálogo”, aquele que dá unidade às dez histórias do projeto e expõe Kieslowski como um mestre da narrativa sobre sentimentos abstratos: a capacidade de relativizar, continuamente, o código moral do comportamento humano. O diretor polonês nos mostra que o ponto de vista com que observações qualquer situação cotidiana é determinante para que formemos uma opinião moral sobre um fato. A estratégia narrativa borra a fronteira entre o certo e o errado, e a falta de certezas absolutas conduz o longa a um final maravilhoso, delicado e silencioso, aberto e perfeitamente adequado (bem diferente, inclusive, do segmento mais curto da mesma história, presente do “Decálogo”). De quebra, ainda nos dá uma bela chance de perceber como a vida endurece o coração das pessoas, e como às vezes a redenção pode vir de onde menos se espera. Um filmão.

O DVD brasileiro é da Platina Filmes. Não há extras dignos de nota. A qualidade de imagem (widescreen 1.66:1 anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1 em polonês) é boa.

– Não Amarás (Krótki Film o Milosci, Polônia, 1988)
Direção: Krzysztof Kieslowski
Elenco: Grazyna Szapolowska, Olaf Lubaszenko, Stefania Iwinska, Piotr Machalica
Direção: 82 minutos

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