Não Estou Lá

01/04/2008 | Categoria: Críticas

ToddoHaynes oferece mosaico arrojado e fragmentado de seis histórias em que os personagens representam facetas distintas de Bob Dylan

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Biografias de roqueiros compõem um dos menos inspirados subgêneros dramáticos da indústria do entretenimento contemporânea. Basta ouvir falar de mais uma, e você já pode imaginar o resultado: o retrato de um sujeito humilde e talentoso que se tornou famoso, embicou de cara nas drogas, meteu o pé na jaca, deu as costas à família, virou decadente, aprendeu a lição e deu a volta por cima. Filmes como “Ray” e “Johnny e June” encaixam direitinho na descrição. Além de garantir boas bilheterias, este esqueleto narrativo também costuma colocar atores e atrizes em evidência, às vezes até dando-lhes um Oscar (Jamie Foxx, Reese Whiterspoon). Por tudo isso, houve quem temesse por mais um filme igual quando se soube que Todd Haynes faria um longa inspirado “na vida e na música” de Bob Dylan.

Bastava uma boa olhada na folha corrida do cineasta, porém, para saber que ele não apareceria com um filme convencional. Afinal de contas, estamos falando do cara que dirigiu, em 1987, um média-metragem biográfico de 43 minutos, em que a cantora e baterista Karen Carpenter, uma das primeiras celebridades morta por anorexia, era interpretada por… uma boneca Barbie. “Não Estou Lá” (I’m Not There, EUA/Alemanha, 2007) pode não atingir tamanho grau de ousadia, mas não fica muito longe. O que Haynes nos oferece, desta vez, é um mosaico fragmentado de seis histórias sem ordem cronológica, passadas em épocas diferentes, sobre seis pessoas diferentes, interpretadas por seis atores diferentes (incluindo uma mulher e uma criança negra), em que todos os personagens representam facetas distintas do grande poeta e cantor folk, um dos maiores mitos da cultura do século XX.

Convém não esquecer que a intimidade de Todd Haynes com o assunto “rock’n’roll” não é pequena. Além deste “Não Estou Lá” e do já citado média-metragem sobre Karen Carpenter, ele também dirigiu o subestimado “Velvet Goldmine” (1998), extraordinário painel sobre o glam rock que funcionava como uma versão livre da biografia de outro camaleão do rock, David Bowie. Obviamente, Todd Haynes demonstra fascínio incorrigível para investigar celebridades culturalmente relevantes e que cultivam, também, a característica muito pós-moderna da identidade cultural fragmentada. Neste sentido, “Velvet Goldmine” e “Não Estou Lá” são filmes gêmeos, embora o segundo seja produto do trabalho de um cineasta claramente mais maduro e confiante.

Para começo de conversa, “Não Estou Lá” é o tipo de trabalho que não se destina a qualquer público. Além dos fãs de Bob Dylan, o longa-metragem deve atrair apenas os cinéfilos de carteirinha, sempre interessados em descobrir novas possibilidades narrativas para a arte cinematográfica. Para os dois grupos, “Não Estou Lá” é um prato cheio. Para os demais espectadores, deverá parecer como um amontoado de cenas desconexas e sem sentido, pontuadas por performances que variam do ótimo ao excelente, oferecidas por um punhado de astros de primeira grandeza (Cate Blanchett, Christian Bale, Richard Gere, Julianne Moore, Heath Ledger, Bruce Greenwood, Charlotte Gainsbourgh, Michelle Williams), que parecem se divertir à beça.

Em “Não Estou Lá”, Haynes consegue dosar o pendor para direções de arte excessivamente elaboradas, concentrando-se em elaborar uma narrativa errática e episódica que só faz sentido quando se conhece a vida e a carreira de Bob Dylan, igualmente errática e episódica, repleta de mudanças de rumo radicais que deixavam os fãs desorientados. Não custa lembrar, afinal, que Dylan foi talvez o mais importante artista dos anos 1960, depois dos Beatles (cujos integrantes, segundo reza a lenda, aprenderam com ele a fumar maconha, numa cena hilariante que está no filme, e na qual os quatro rapazes de Liverpool se transformam nos Teletubbies em preto-e-branco). Graças a ele, Jimi Hendrix se convenceu que podia cantar, Mick Jagger ganhou coragem para compor e o rock, de maneira geral, começou a ser levado a sério.

Dylan se firmou no cenário musical como um cantor folk de protesto. Depois, converteu-se ao cristianismo e à guitarra elétrica, deixando uma multidão de seguidores sem norte. O filme se concentra majoritariamente nesta fase da carreira do astro, um período de mais ou menos 10 anos, entre meados dos anos 1960 e a metade da década seguinte. Cate Blanchett, Christian Bale, Bem Whishaw e Heath Ledger (em seu penúltimo papel importante) representam as versões mais próximas da realidade. Richard Gere e o garoto negro Marcus Carl Franklin – o maior destaque do elenco, cantando e atuando com o despojamento de quem está na cozinha de casa – são versões ficcionalizadas de personagens reais (respectivamente, o bandoleiro Billy the Kid e o trovador Woody Guthrie) que Dylan admirava.

Em torno dessas seis personalidades tão distintas, Todd Haynes vai compondo um mosaico esquisitíssimo, mesclando episódios reais (o lendário acidente de motocicleta) e trechos descritos em canções, para montar um panorama aberto que, no final (que final?) não faz muito sentido – e nem deveria fazer mesmo. Se você não é fã de Bob Dylan, não conhece a carreira dele e não gosta de filmes não-narrativos, que não se preocupam em contar uma história, “Não Estou Lá” vai parecer mais chato e amargo do que remédio de febre. Para quem procura uma experiência cinematográfica diferente, feérica e estimulante, o trabalho de Todd Haynes pode ser um achado fascinante. E fanáticos pela história do rock’n’roll não podem perder de jeito nenhum.

- Não Estou Lá (I’m Not There, EUA/Alemanha, 2007)
Direção: Todd Haynes
Elenco: Cate Blanchett, Heath Ledger, Christian Bale, Richard Gere
Duração: 135 minutos

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