Narc

31/10/2004 | Categoria: Críticas

Joe Carnahan filma investigação policial de modo cru e produz filme revigorante

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

“Narc” é uma sigla usada por policiais nos EUA. A palavra de quatro letras designa os detetives que trabalham na rua, infiltrados em gangues de traficantes de drogas. A palavra é meio diminutivo (de Narcóticos, o nome desse tipo de delegacia nos Estados Unidos) meio gíria. O cotidiano difícil desses profissionais é o ambiente retratado em “Narc” (EUA, 2002), trabalho que catapultou o cineasta iniciante Joe Carnahan para a fama.

A trajetória do filme é interessante. “Narc” só foi produzido porque o ator Ray Liotta (de “Os Bons Companheiros”) conseguiu a grana necessária para filmar o roteiro. Mesmo assim, a produção independente ficou sem uma distribuição decente nos EUA durante um ano inteiro, até que o astro Tom Cruise viu o longa-metragem em uma sessão privada. Cruise adorou o trabalho, comprou os direitos e o relançou para uma carreira em salas selecionadas, chamando dessa maneira a atenção de Hollywood para o nome promissor de Carnahan.

O cineasta é um apaixonado por imagens fortes e seqüências técnicas. Para encontrar o clima das ruas decadentes de Detroit, que são o ambiente em que a ação do filme se desenvolve, ele precisou encontrar a melhor maneira de ser técnico sem sofisticação. A alucinante seqüência de abertura do filme é a prova de que conseguiu. Trata-se de uma longa tomada sem cortes em que o detetive Nick Tellis (Jason Patric) persegue um traficante. A câmera literalmente persegue o detetive, pula um muro, esbarra em transeuntes, perde o foco, mas não desgruda do policial. Sem dinheiro, Carnahan filmou a cena amarrando a câmera nos braços do técnico de imagens e obrigando-o a correr atrás dos atores, do jeito que desse. Ficou planejadamente tosco, mas muito bom.

A seqüência é atordoante, atira a platéia diretamente no centro da ação e termina de maneira chocante. Tellis atira no assaltante, mas acerta uma mulher grávida. O detetive acaba suspenso por excesso de violência. Só que o sujeito é um pacato pai de família. Possui uma mulher que o ama e um filho recém-nascido que trata com carinho insuspeito. Não tem a menor pinta de alguém que acaba de ser acusado de violência no trabalho. É evidente que há algo de errado com Tellis. Talvez seja sua excessiva dedicação ao serviço, ao conceito de “ser policial”.

A carreira do detetive fica congelada por um ano, até que uma oportunidade lhe é oferecida. Ele precisa acompanhar o colega Henry Oak (Liotta) numa investigação complicada. A missão é descobrir quem matou o parceiro de Oak, um outro policial de Narcóticos chamado Michael Calvess (Alan Van Sprang, visto em flashbacks). O detetive trabalhava infiltrado numa gangue e teria sido morto após seu disfarce ser descoberto. Nick Tellis recebe a oferta porque conhece bem o submundo das drogas em Detroit. Se descobrir o assassino, a suspensão é retirada e ele pode voltar à polícia.

Não é bem o tipo de tarefa que Tellis deseja. Ele já havia prometido à esposa trabalhar somente em escritórios, mas não tem escolha. Precisa pegar ou largar a oferta. E ele pega, mesmo arrumando um problema em casa para administrar. A investigação que se segue é basicamente física, com muita pancadaria e um número surpreendentemente alto de surpresas genuínas. “Narc” é tenso, sem humor, e muito violento. Parece uma versão atualizada de “Operação França”, o filme vencedor do Oscar de 1971. Não por acidente, o diretor daquele filme, William Friedkin, veio a público dizer que considera “Narc” um dos melhores filmes policiais de todos os tempos.

Não chega a tanto, mas “Narc” é um filme excelente, cru e energético, além de revigorante, pois recicla idéias que estão há muito tempo longe das telas de cinema. Carnahan investe em um estilo realista, e evita todos os clichês que Hollywood normalmente utiliza em um filme cuja investigação se baseia na relação conflituosa entre dois parceiros. Ele constrói todo o filme do ponto de vista de um detetive com drama de consciência, e atinge um clímax tão surpreendente quanto coerente com o conflito de Nick Tellis. Dizer mais seria retirar o prazer de descobrir “Narc” sozinho. Vá em frente sem medo.

O lançamento em DVD, da Flashstar, tem imagens em tela cheia (ou seja, com cortes laterais, o que sempre é um ponto negativo) e som Dolby Digital 5.1. O disco não possui material extra.

– Narc (EUA, 2002)
Direção: Joe Carnahan
Elenco: Ray Liotta, Jason Patric, Chi McBride
Duração: 102 minutos

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